Há pouco mais de um ano, a revista francesa Lire pediu para escritores de renome internacional indicarem autores novos que julgassem promissores. O americano Paul Auster (Trilogia de Nova York) escolheu a então desconhecida Céline Curiol. Para se ver a importância do "quem indica" há quem considere esse o verdadeiro "Q.I." , depois desse referendo, Céline vendeu na França pelo menos dez vezes mais que a média de um autor estreante, vai ser lançada nos EUA daqui a seis meses e acaba de chegar ao Brasil.
Voz sem Saída (Tradução de Bluma Waddington Vilar. Nova Fronteira, 232 págs., R$ 29,90), nas palavras de Auster, é "uma das obras de ficção mais originais e brilhantemente executadas dentre todos os escritores contemporâneos que conheço".
"Eu tive o imenso prazer e a surpresa de ter sido escolhida por Paul, para quem eu havia enviado o meu livro", diz Céline em entrevista exclusiva para o Caderno G de sua casa no Norte do Brooklyn, em Nova Iorque. Ela prefere falar que Auster a "apoiou" e não que a "descobriu", como afirmou o jornal République. "Normalmente, coisas são descobertas!", brinca.
Voz sem Saída é seu primeiro romance (leia texto nesta página). Antes, escreveu um guia cultural de Nova Iorque, onde vive há vários anos como correspondente dos diários Libération e France Inter.
Jornalista de 30 anos que cobre as políticas americana e internacional sobretudo ligada à Organização das Nações Unidas , morou três meses na Argentina. "Fui lá para trabalhar no meu próximo livro." Sobre ele, diz apenas que se chama Permissão e é narrado em primeira pessoa por um homem que vive em um mundo que poderia ser o nosso, "mas que não é exatamente similar".
"É menos realista que Voz sem Saída", admite. Essa característica, derivada da vida de fato, é um dos maiores trunfos da prosa de Céline, que descreve como poucos a Paris dos dias de hoje. A protagonista e narradora da história, da qual não se sabe o nome, é uma mulher solitária que trabalha como locutora de uma estação de trens, anunciando chegadas e partidas.
"Essa personagem foi a razão pela qual escrevi o livro. Eu tinha essa visão, essa idéia, não muito definida, de uma mulher um pouco esquisita, um pouco excluída. Eu pude apreender sua personalidade e comecei a gostar dela e quis falar sobre ela. Então, a história foi construída ao redor da personagem, foi pensada para revelar essa figura feminina que eu carregava dentro de mim sem poder descrevê-la muito bem", explica.
Ao sentar para escrever, dois aspectos já estavam claros para Céline. Nas suas próprias palavras, "essa é uma mulher que não tem consciência de seus sofrimentos e traumas; uma mulher que vai dizer sim em situações que a maioria das mulheres diria não".
Extremamente sensível ao relatar a rotina solitária de uma mulher, Céline diz que a sua relação com a solidão é "muito complexa". "Às vezes, eu a amo. Em outras, ela me deixa ansiosa. Eu luto por ela, mas, de vez em quando, fujo dela. A vida moderna no Ocidente é voltada ao escape da solidão de todas as formas. É preciso ter força de vontade para mantê-la e apreciá-la." Solidão, para a escritora, é "um estado inevitável. Uma coisa paradoxal de que necessitamos e que tememos".
Nascida em Lyon e radicada nos EUA, a autora lamenta a distância da família e do amigos, "e talvez do sentimento de estar em casa". Ela diz sentir muita falta de ouvir a língua francesa "falada por estranhos, nas ruas e em cafés". Admiradora de Franz Kafka, Samuel Beckett (citado na epígrafe do livro), Marguerite Duras, Simone de Beauvoir, George Perec e outros, está lendo a obra "fabulosa" do neurologista Oliver Sachs, O Homem Que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu.
"Escrever, na adolescência, era um refúgio para mim. A página era o local onde eu podia tentar, silenciosamente, abarcar o mundo ao meu redor e as emoções que esse mundo me causava", lembra. Adulta, tornou-se menos romântica e afirma que "escrever é escrever".
"Eu acho que poderia viver sem escrever. Ao contrário do que outros dizem, não é uma necessidade vital para mim, mas talvez eu me tornasse uma pessoa diferente, provavelmente mais triste e mais frustrada." A palavra "mais", usada por Céline na frase, pressupõe uma cota de tristeza e frustração inevitável.
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