Tombamento: Dever de cidadã
Ao realizar a pesquisa sobre os grupos escolares de Curitiba na primeira metade do século 20, Elizabeth Amorim de Castro descobriu que nenhuma escola de arquitetura eclética estilo das edificações erigidas entre o final do século 19 e a década de 1920 havia sido tombada como Patrimônio Histórico do Paraná. Muitas são Unidades de Interesse de Preservação, sob decreto da prefeitura municipal. "Somente o Colégio Estadual do Paraná é tombado, mas foi inaugurado em 1950, e tem arquitetura modernista", diz, sobre o colégio tombado em 1994 a pedido dos próprios alunos.
Elizabeth resolveu exercitar o seu papel de cidadã e solicitou o tombamento das escolas Dr. Xavier da Silva, Dom Pedro II e Cruz Machado. "São as mais representativas da época. O Dom Pedro, por exemplo, é belíssimo, e as ampliações que foram feitas não interferem nas características originais, que foram todas mantidas", justifica.
Durante o Império, em Curitiba, os grupos escolares mistos, ou seja, que recebiam estudantes dos dois sexos, eram chamados de "promíscuos". A nomenclatura, que era oficial, atravessou décadas, sobrevivendo até os anos 40.
A classificação é certamente um exagero, já que a separação, na maioria das vezes, começava logo na entrada, distinta para alunos e alunas. É o caso do Grupo Escolar Professor Cleto (na Rua Visconde de Nácar, 544), inaugurado em 1911, cujo edifício era dividido em duas seções. No terreno, um muro separava meninos de meninas, mantendo acessos, pátios de recreação e instalações sanitárias distintos.
Essa é uma das histórias que os edifícios escolares "contaram" à arquiteta Elizabeth Amorim de Castro, autora do livro Grupos Escolares de Curitiba na Primeira Metade do Século XX, que será lançado no dia 15, às 18 horas, no Teatro Londrina do Memorial de Curitiba, juntamente com um CD-Rom de mesmo nome.
Sim, os edifícios "contam" a história dos grupos escolares e de sua relação com a cidade, como prova Elizabeth ao estudar a arquitetura de 31 escolas de instrução primária de Curitiba ao longo de 60 anos, do Império à década de 50. O estudo é um "filhotinho" de um projeto bem mais amplo que a pesquisadora realiza como doutoranda de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), sobre a arquitetura dos colégios de todo o estado.
"Ao projetar, o arquiteto registra o tempo no espaço", escreve Elizabeth em suas considerações iniciais. Na pesquisa de um ano feita para o livro, desenvolvida com recursos do Fundo Municipal de Cultura de Curitiba, ela registra a "identificação de permanências e mudanças no edifício escolar e a relação destas com as demandas pedagógicas e arquitetônicas de cada momento".
Memórias de infância
Alunos de grupos escolares como o Xavier da Silva, o Júlia Wanderley e o Tiradentes, por exemplo, avivarão suas próprias memórias ao ver a exposição itinerante que acompanha livro e CD em cartaz no hall do Memorial de Curitiba até 19 de abril, antes de percorrer outros espaços municipais. "As pessoas se identificam porque já estudaram ou conhecem as escolas", conta Elizabeth.
A própria repórter que assina esta reportagem estudou em uma das instituições presentes na pesquisa: o Colégio Estadual Professor Brandão.
Construído em 1911, na então Rua da Graciosa, hoje Avenida João Gualberto, o grupo escolar foi completamente demolido em 1965 para dar lugar a uma sede maior, dois anos depois. A pesquisadora conta que é muito comum, nos casos em que foram feitas modificações extremas como essa, que a memória da escola tenha se perdido. "Tive dificuldade em realizar a pesquisa de campo porque as próprias escolas não conhecem sua história", diz Elizabeth.
O trabalho de detetive foi feito com a colaboração de uma equipe, que vasculhou arquivos, bibliotecas e as pastas da Coordenadoria de Patrimônio do Governo Estadual do Paraná. Ali, a pesquisadora foi mais bem sucedida. "Há uma pasta para cada patrimônio construído na cidade, muitas vezes, com fotos."
Elizabeth dividiu a pesquisa em cinco períodos, de acordo com as características comuns entre os edifícios como data do projeto, programa e vocabulário arquitetônico empregado. "Um projeto arquitetônico é construído a partir de um formato da época e de um programa de necessidades. No caso das escolas, esse programa revela como eram as escolas no período em que foram inauguradas", conta.
As primeiras instituições de ensino retratadas foram construídas ainda no Império (de 1822 a 1889), antes da criação do que se passou a chamar, a partir de 1903, de grupos escolares. São elas a Escola Carvalho, a Escola Oliveira Bello e a Escola Tiradentes. "Antes dos grupos escolares, não havia seriação de ensino. O professor dava aulas para alunos de estágios diferentes em uma mesma sala", conta Elizabeth.
Em seguida, na Primeira República (de 1889 a 1930), registra-se os primeiros grupos escolares na cidade. A consolidação do sistema e a ampliação da rede de escolas primárias se realiza nos governos Manoel Ribas, Moysés Lupion e Bento Munhoz.
"As escolas aumentaram de tamanho por conta do crescimento populacional e de um maior número de salas", explica a pesquisadora. A Escola Tiradentes, por exemplo, inaugurada em 1895, a qual se dedicou por longos anos a famosa professora Júlia Wanderley, a primeira mulher a se formar na Escola Normal de Curitiba, tinha pouquíssimos cômodos: vestíbulo, gabinete do professor, vestiário e sala de aula.
Com a primeira sede demolida, em 1935, o grupo ganhou espaço definitivo somente em 1962 na Rua Presidente Faria, 635, onde funciona até hoje como Grupo Escolar Tiradentes. O projeto de 1952, de autoria do famoso arquiteto Rubens Meister (que projetou o Teatro Guaíra), contemplou um programa de necessidades bem mais complexo, incluindo museu, biblioteca, cozinha, secretaria, almoxarifado, entre outras repartições. "O programa arquitetônico das escolas ganha mais complexidade no final da década de 1930 e começo de 1940."
Serviço
Grupos Escolares de Curitiba na Primeira Metade do Século XX (livro e CD), de Elizabeth Amorim de Castro. Lançamento com palestra da autora no dia 15 de abril, às 18 horas, na Sala Londrina do Memorial de Curitiba (R. Claudino dos Santos, s/nº). O livro e o CD estão à venda nas livrarias Curitiba e Dario Velloso.
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