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Visuais

Arte que corre o mundo

A arte postal, criada oficialmente nos anos 1960, ainda hoje possibilita o intercâmbio sem fronteiras entre artistas de todo mundo sem custos e sem vínculos institucionais

O artista curitibano Sérgio Monteiro de Almeida mandou envelopes vazios e sem CEP para várias partes do mundo, que retornaram para o remetente com carimbos e marcas |
O artista curitibano Sérgio Monteiro de Almeida mandou envelopes vazios e sem CEP para várias partes do mundo, que retornaram para o remetente com carimbos e marcas (Foto: )
Resultado das interferências de artistas plásticos de vários países na imagem enviada pelo correio por Almeida |

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Resultado das interferências de artistas plásticos de vários países na imagem enviada pelo correio por Almeida

Se hoje os e-mails e blogs praticamente substituíram as cartas e os diários, que fim levou a arte postal?

Baseada na troca de "correspondências artísticas", ela se adaptou com facilidade aos novos tempos. Desde que a internet se popularizou, na década de 1990, os artistas passaram a se comunicar via e-mail ou posts em sites e blogs – superando obstáculos como os atrasos provocados pela greve dos correios ou o extravio das obras.

A arte postal difundiu-se em todo o mundo nas décadas de 1960 e 1970 como prática de arte não-comercial, desprendida dos circuitos oficiais e, principalmente, democrática, já que a facilidade de produção e de consumo faz com que ela esteja ao alcance de qualquer um. Características que casam à perfeição com o meio virtual, no qual quase tudo está acessível a quase todos.

Que o diga o criador do blog Post a Secret (postsecret.blogspot.com), o sociólogo norte-americano Frank Warren, que semanalmente adiciona em seu site alguns exemplares dentre os milhares de cartões que recebe pelo correio de anônimos revelando "segredos inconfessáveis".

A liberdade é total, já que a intenção deste "artista incidental", como Warren se autodenomina, é justamente mostrar que qualquer um pode ser artista. Os textos dialogam com as imagens, em uma espécie de poema visual que provoca o riso. Mas também a raiva e a indignação, se a carapuça servir ou você se sentir vítima da situação. É o caso da frase: "Eu limpo quartos de hotel. Uso somente um pano para limpar tudo, incluindo o chão, os banheiros, a hidromassagem, copos e talheres".

Arte sem fronteiras

Entrar em um site ou ler um e-mail não se assemelha, minimamente, à expectativa e ao prazer de receber um envelope ou uma caixa entregue pelo carteiro. Uma correspondência, quando chega ao seu destino, vem "poluída" pelas inúmeras interferências que sofreu na viagem – o selo, o carimbo dos postos de correio por onde passou, a sujeira, o amassado.

Foi pensando nos efeitos artísticos gerados por essas interações, mas também em questões suscitadas pela sua experiência no exterior, que o médico, artista plástico e poeta visual curitibano Sérgio Monteiro de Almeida, criou o projeto Não Me Encontro em Lugar Nenhum – em que brinca com a sensação de ter sido um estrangeiro nos três anos em que viveu como estudante, em San Diego, Estados Unidos (entre 2003 e 2005). "As pessoas eram muito fechadas, não consegui fazer amigos", conta.

Almeida enviou cem envelopes vazios pelo correio de San Diego. Nas informações do remetente, escreveu seu nome e endereço em Curitiba. O destinatário tinha os mesmo dados, exceto o CEP, pertencente a países da Europa, Ásia e Américas. As cartas chegavam ao país indicado pelo código postal, mas assim que o endereço não era localizado, eram reenviadas ao remetente com novos carimbos. Chegaram a Curitiba com as marcas dos locais percorridos.

"Na arte postal, o que interessa não é o produto final, mas a realização do trabalho, o processo", diz Almeida, que tem planos de incluir seus trabalhos na internet, sem deixar de lado os correios ou qualquer forma de "comunicar" sua arte. "Já enviei meus trabalhos por e-mail para a Bienal de Arte de Londres, em 2004", conta.

Participante de um sem-número de exposições de arte postal realizadas em todo o mundo, o artista explica que adotou esta modalidade em 1986, porque se interessa pelo fato de ela não ser comercial, não ter "aura" de objeto de arte. "Aqui, ela é pouco valorizada, considerada underground, mas é uma das formas de arte mais conceituais que existem", conta.

O artista une intervenções urbanas e poesia visual à arte postal. "São expressões diferentes, mas que podem dialogar", diz. Um de seus trabalhos, "Pão Nosso" (1993), é a prova disso. O autor montou, em vários pontos de Curitiba, uma "Santa Ceia" com leitura própria: colocou 12 chinelos que pertenciam a pescadores (trocados por novos) ao redor de um pão. Cada calçado continha um bilhete com o Pai Nosso. Fotografou-se na cena e enviou a imagem para artistas de várias partes do mundo, pedindo-lhes que realizassem uma interferência, fizessem uma cópia e devolvessem o trabalho para ele. O resultado foi uma multiplicidade de obras artísticas. "Uma americana me devolveu a foto dentro de um saco de lixo, com detritos", exemplifica.

"Para ser arte postal, é preciso haver a troca", explica o artista plástico. Pelo correio, pode ser enviado tudo o que a criatividade mandar. Os cartões postais são o suporte mais típico, mas é possível produzir arte em envelopes, colagens, desenhos, vídeos, poemas visuais, fotografias, pinturas, selos etc.

Mesmo avessa à institucionalização, a arte postal gera interesse por parte de galerias e museus. "Obras do pernambucano Paul Bruscky, hoje valorizado, pertencem ao acervo de museus. Alguns grupos questionam, mas acho que isso não descaracteriza a arte postal", diz Almeida.

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