Francis Ford Coppola apresenta o filme "Tetro" no Festival de Cannes| Foto: Reuters/Regis Duvignau

"Nada ali realmente aconteceu, mas é tudo verdade." A explicação, para lá de ambígua, é a chave para compreender a história por trás de Tetro, novo filme de Francis Ford Coppola, exibido pela primeira vez nesta quinta-feira (14) durante a mostra paralela Quinzena dos Realizadores, em Cannes. Rodado na Argentina, o longa é uma espécie de épico familiar que carrega diversas semelhanças com a própria trajetória de vida do diretor de O Poderoso Chefão.

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Assim como Angelo Tetroccini, protagonista do filme interpretado por Vincent Gallo, Coppola é filho e sobrinho de grandes músicos e compositores; tal qual em "Tetro", as questões de família são impossíveis de se dissociar de sua arte; e como o escritor genioso e frustrado do papel prinicipal, o cineasta nunca quis receber os créditos por aquilo que não fosse seu:

"Na abertura do 'Chefão', eu punha 'de Mario Puzzo'. Em 'Drácula', era 'de Bram Stoker'. 'O homem que fazia chover' era 'de John Grisham'... Sempre sonhei em ter algo 'de Coppola'. Escrever é a parte mais difícil do processo", disse o diretor em um debate promovido logo após a sessão. De fato, "Tetro" é um dos seus raros filmes em que Coppola leva também o crédito de escritor. "Depois de 'O fundo do coração' (1982) contraí uma dívida enorme no banco. Dos meus 40 aos 50 anos, precisei fazer um filme por ano só para pagar esse empréstimo. Recebia o roteiro e filmava. Só consegui pagar tudo em 'Drácula' (92)."

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"Chefão argentino"

Tetro conta a saga de dois irmãos, Bennie e Angelo, que se reencontram em Buenos Aires anos depois que o último, mais velho, abandona a família em Nova York. Angelo quer ser escritor de romances, mas a personalidade sempre competitiva do pai o impede de seguir adiante. Bennie - vivido pelo ator estreante Alden Ehrenreich - idolatra o irmão e faz de tudo para tentar uma reaproximação, apesar da resistência de Angelo, que desde que deixou NY quer cortar todos os laços com o passado. Caberá à Miranda (Maribel Verlú), namorada de Angelo e simpática ao caçula, o papel de mediar a conturbada relação entre os dois.

Quase todo registrado em preto-e-branco nas ruas do bairro típico portenho La Boca, Tetro vai ganhando complexidade à medida que o roteiro avança. Alterna ares de produção independente, algo de cômico aqui e ali, a momentos grandiosos de tragédia teatral, quando ganha cores, bailarinos e uma dramaticidade que destoa propositalmente do restante das cenas.

Pela presença marcante da família em ambos os filme, uma jornalista comparou Tetro a O Poderoso Chefão. "A diferença principal está na quantidade de mortes por facas, estrangulamentos e armas de fogo", brincou Coppola diante da sugestão. "Quando fiz o 'Chefão', eu nunca havia conhecido um mafioso. Nunca conheci um mafioso. Por isso, fiz eles se parecerem com pessoas da minha família. Fui fiel a meus pais e tios. Em 'Tetro', transplantei Nova York e a Itália para a Argentina."

Importante é competir

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Semanas antes da première desta quinta, uma polêmica se formou em torno da participação ou não de Coppola em Cannes. Chamado para ser exibido fora da competição, o diretor declinou o convite e acabou preferindo a exibição na Quinzena, que é promovida pelos críticos, sem ligação formal com o festival.

"A situação foi parecida com o que aconteceu com 'Apocalipse Now' (1979). Na época que recebi o convite para vir, eu não tinha acabado o filme e eles propuseram de passar fora de competição. Eu disse que só traria para competir. Este ano, me disseram que já havia muitos grandes diretores e filmes de outro país, por isso as vagas eram poucas. Fizeram a mesma proposta, ofereceram uma sessão de gala. Mas 'Tetro' é um filme independente, não me sinto confortável em vestir um smoking e desfilar ao lado de tanta gente importante. Achei o convite da crítica mais apropriado", ironizou.

Além dos atores Verlú e Ehrenreich - Gallo não foi à sessão pela manhã -, Coppola estava acompanhado da esposa e do filho Roman durante a entrevista. Culpa de suas raízes italianas, explica o diretor: "não gosto de me separar da minha família. Desde pequenos, sempre levava meus filhos ao set. Quando estava filmando 'Apocalipse', eles passaram cinco meses comigo nas Filipinas. Também já comprei uma câmera para a minha mulher, ela acabou pegando gosto e fez seu documentário. Esse foi sempre o meu truque para mantê-los por perto."

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