
Um projeto estético-social pulsa no coração da Vila Madalena, em São Paulo. Dentro de (apenas) uma sala de 15 metros quadrados. Lá, desde 2007, dez pessoas em sistema de cooperativa tocam a Dulcinéia Catadora, editora que destoa completamente dos padrões brasileiros. O selo já viabilizou 35 títulos. Entre eles, o catálogo bilíngüe (português-espanhol) sobretudo poético inclui o concretista Haroldo de Campos, o cult Jorge Mautner, o "portunhol" Douglas Diegues e o praticamente desconhecido Marcelo Ariel por muito tempo menino de rua em Santos , entre outros debutantes. Até aí, além da diversidade, quase nada de novo. Mas há um (imenso) diferencial: a começar pelas capas dos livros.
Toda a obra viabilizada pela Dulcinéia Catadora tem a capa feita com papelão comprado em cooperativa de material reciclado. "O quilo vale R$ 0,30, mas pagamos R$ 1, para fomentar a atividades", conta Lúcia Rosa, artista plástica, diplomada em Letras, integrante do projeto. No miolo dos livros, é utilizado papel reciclado industrializado. O projeto gráfico é fruto do engenho de um dos meninos, na faixa dos 17 anos, que integram a equipe. "Alguns deles, inclusive, fazem cursos de editoração eletrônica", comenta Lúcia. E as ilustrações das capas ficam sob responsabilidade de filhos de carrinheiros e/ou menores de 18 anos em situação de vulnerabilidade.
Veredas inéditas
O poeta Ademir Demarchi, maringaense radicado em Santos (SP), teve o livro Do Sereno Que Enche o Ganges editado pelo selo. Editor da revista Babel, com livros viabilizados por editoras comerciais, Demarchi é todo palmas para a ação da Dulcinéia Catadora. "Em primeiro lugar, o selo abre espaço para a poesia, gênero discriminado pelo mercado editorial brasileiro. E tem mais: o projeto publica estreantes e consagrados, sem discriminação", diz.
Joca Reiners Terron, escritor publicado pela Planeta (uma das maiores editoras do mundo), encorpa o catálogo da Dulcinéia Catadora com Transportunhol Borracho. "Num país como o Brasil, onde a leitura é fator excludente, a Dulcinéia Catadora adquire valor quase sobrenatural", diz Terron, referindo-se ao fato do projeto mover o negócio dos catadores e ainda abrir portas para novatos. Sebastião Nicomedes é um ex-sem-livro graças à iniciativa, que publicou Cátia, Simone e Outras Marvadas. "Eu acho o máximo [o projeto]. Dá mais valor às obras e credibilidade, uma sensação única de igualdade", comemora.
Maicknuclear Thiago Lenin, autor de Meu Doce Valium Starlight, comenta que um dos (muitos) méritos do projeto "é o fato dos livros serem criados artesanalmente por catadores de papelão e oficinas de criação de livros". E o paranaense Wilson Bueno, de quem a editora publicou Chuvosos, entusiasma-se ao saber que o projeto "insere as mãos de unhas sujas dos catadores de papel em seu duro e indispensável trabalho, pra recontar a velha ars litteraria".



