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“Lar... é onde estão meus sapatos"

Depois de 17 anos de experiência como atriz, Verônica Rodrigues estreia no cinema com Curitiba Zero Grau, o novo longa-metragem de Elói Pires Ferreira

Primeira peça escrita por Verônica Rodrigues, A Menina Azul será exibida no Fringe durante o próximo Festival de Curitiba | Marcelo Elias/Gazeta do Povo
Primeira peça escrita por Verônica Rodrigues, A Menina Azul será exibida no Fringe durante o próximo Festival de Curitiba (Foto: Marcelo Elias/Gazeta do Povo)

A inconstância da vida é, neste momento, algo um tanto assimilado por Verônica Rodrigues. Aos 33 anos, ela já enfrentou, e atravessou, alguns "furacões" em seu ca­­minho. Choveu na tarde em que ela concedeu entrevista à Gazeta do Povo. O engarrafamento nas ruas centrais de Curitiba fez com que ela chegasse 30 minutos de­­pois do horário marcado. Mal estacionou e desceu do carro, abriu um sorriso capaz de afastar a chuva e atrair o sol.

Verônica é loquaz. Ela gesticulou sem parar durante o bate-papo de mais de cinco horas.

Além da verbalização, costuma encostar as mãos no interlocutor. Esse hábito, ou jeito de ser, às vezes é mal interpretado. "Tem homem que pensa que estou ‘dando em cima’, mas sou apenas comunicativa."

A atriz nasceu em Ponta Gros­­sa, no interior do Paraná, mas viveu em diversos pontos do Brasil, até no exterior. Veio parar em Curitiba por acaso. Em 2001, estava no Uruguai. Um dia, entrou num ônibus para viajar, deixando fotos, roupas e um amor para trás. Queria fazer um curso em São Paulo. Mas percebeu que poderia descansar as suas botas por aqui. "Lar é onde estão meus sapatos", diz.

Mochilas e estrelas

Verônica usa vestidos e botas. Tem elegância, única, ao caminhar. Por onde passa, seus olhos verdes claros chamam a atenção de todos. Ela pontua as frases com sorrisos e parece não perceber que lágrimas escorrem pelo seu rosto enquanto lembra como foi 2009.

Durante seis meses, esteve envolvida na realização de Curitiba Zero Grau, filme de Elói Pires Fer­­reira. Saiu enriquecida da experiência, pois contracenou com o ator Jackson Antunes e foi responsável pela prepração do elenco infantil. Simultanea­­mente, viu o seu casamento ruir.

Ela fuma, em média, um ci­­garro a cada duas horas. Olha para o chão e diz que fazer teatro é um ato político. Nada a ver com questões partidárias. Ao contrário. Acredita que o sujeito, ator ou atriz, que lê um texto inventivo pode, a partir dessa imersão, pensar em diversas questões, se conhecer e enunciar um discurso mais consciente e coerente a respeito de qualquer assunto, inclusive fora do palco.

Zarpar pro futuro

Verônica nem cogita se mudar para Rio de Janeiro ou São Paulo. A atriz sente que o lugar mais interessante possível para viver é aqui. Hoje, não troca a efervescência cultural de Curitiba por nada.

Ela retornou aos palcos em 2007, depois de cinco anos fora de cena, quando conheceu, na prática, o que é ser mãe. Há dois anos, dividiu com a atriz Helena Portela a interpretação da peça Um Idiota de Presente, de Alexan­­dre França.

O projeto surgiu a partir de um diálogo no apartamento de Clau­­dete Pereira Jorge (o nono andar mais animado da Rua XV), e foi amadurecendo em meio a conversas durante madrugadas na casa de Octávio Camargo, no Alto da XV, e em outros endereços que atraem atores, dramaturgos, músicos e outros artistas.

Na última terça-feira, Ve­­rô­­nica, Helena, Carolina Pfarrius e Rosana Stávis fizeram uma leitura de textos de Hilda Hilst no Wonka Bar. O porão lotou. Ali, em meio ao burburinho e outros ba­­rulhinhos bons, Verônica acertou com Ca­rolina alguns projetos para 2010.

A Menina Azul, espetáculo previsto para ser exibido no Fringe durante o próximo Festival de Curitiba, será a estreia de Verô­­nica como autora de texto dramático. A outra proposta é exibir em algum palco curitibano a peça Pessoas Normais Não Dizem Bom Dia, que tem texto de Ale­­xandre França e direção de Már­­cio Mattana.

Ela conta que também pretende retomar projetos sociais. Em 2004, desenvolveu no Hos­­pital Nossa Senhora da Glória uma proposta de teatro-terapia, experiência que ajudou na recuperação de alguns pacientes.

Verônica afirma que não sobrevive do teatro, mas vive o teatro o tempo todo. Fez a opção aos 16 anos e paga o preço. A instabilidade financeira é constante. Mas isso não tira o seu sono.

Os sapatos – principalmente as botas – de Verônica devem permanecer em Curitiba. E de­­vem guiar os seus passos, sob sol e chuva, nas ruas e nos palcos.

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