
Virgile, o protagonista do romance Talvez uma História de Amor, é um solitário. Um sujeito que não gosta de pessoas, mal consegue tolerar os amigos, e vive num prédio em que todos os apartamentos com exceção do seu são usados por prostitutas para atender clientes. Martin Page, o autor do livro, o colocou para trabalhar numa agência de propaganda e o fez aficionado por roupas, filmes e livros antigos porque eles têm história. "Os velhos objetos resistiram; trazem em si toda uma experiência de vida. Os objetos novos não são sequer púberes; nada entendem da nossa solidão", explica o narrador. Um dia, ao chegar em casa, Virgile encontra um recado de Clara na secretária eletrônica, dizendo que não o suporta mais e, por isso, quer terminar o relacionamento. A questão é: ele não conhece nenhuma garota chamada Clara. Ao menos não consegue lembrar de nenhuma.
A mensagem o coloca numa jornada bizarra em que, primeiro, desconfia de sua saúde mental para, depois, desistir de lutar contra a situação e aceitar o fato de ter sido largado por uma mulher que desconhece.
Ele vai ao médico e se submete a uma série de exames. Acredita mesmo que vai morrer e chega a cancelar o fornecimento de energia elétrica na expectativa do fim. Um neurótico que, no cinema, poderia ser interpretado pelo Woody Allen de Manhattan (1981), algo entre a autoconfiança arrogante e a insegurança bem-humorada, Virgile ouve com um tanto de frustração a informação de que está bem. Não há nada errado na sua cabeça.
A trama se complica quando seus amigos passam a comentar o rompimento com Clara. Em conversas, ele tenta descobrir pistas para tentar lembrar da ex- namorada, mas em vão. Aliás, esses são os momentos mais frágeis da narrativa quando ele fica se enrolando em vez de simplesmente pedir qualquer informação que o ajudasse a sair do limbo.
Numa conversa com sua melhor amiga, Armelle, se sente melindrado pela possibilidade de admitir que não lembra da garota, talvez por receio de assumir uma condição de doente.
Tirando isso, o livro de Martin Page é divertido e conduz bem o absurdo que sustenta o enredo. E, de vez em quando, dispara frases engraçadas do tipo: "As mulheres captam coisas demais. No que se refere a elas próprias, são verdadeiras e catastróficas toupeiras, mas veem a situação dos outros com enorme clareza".
Supermercado
Outra sacada aparece quando compara uma ida ao supermercado a uma experiência espiritual. "Esprememo-nos dentro de um supermercado como os hindus fazem dentro do seu rio sagrado: para usufruir de suas qualidades curativas, tranquilizantes e dietéticas", escreve Page.
A história fica melhor quando Virgile desiste de encontrar Clara e passa a viver os efeitos de uma relação que não o marcou (ou não existiu?) e de um rompimento que não entendeu. De uma hora para outra, o fora que levou se torna a única coisa "real" da sua vida.
A voz de Clara e a maneira decidida com que fala a Virgile acabam tirando o personagem de sua zona de conforto: "Aqui é a Clara. Sinto muito, mas prefiro que a gente pare por aqui. Vou me separar de você, Virgile. Não quero mais".
Ele então se obriga a enfrentar problemas que sempre teve, mas dos quais procurava fugir, como sua tendência à misantropia. Avesso ao convívio com os outros, ele se descobre vivo e feliz por ter encarado a perspectiva de uma doença grave e o fim de um relacionamento com alguém que lhe parece intenso.
Significar
Autor de Como Me Tornei Estúpido, também publicado no Brasil pela Rocco, Martin Page fala sobre uma necessidade muito comum, a de criar histórias para dar significado à vida. Ou melhor, a de criar significados para a vida que se leva.
Quando o fato de não lembrar de Clara perde a importância e dá lugar à tristeza de tê-la perdido e ao desejo de tentar reconquistá-la, Talvez uma História de Amor sugere que nada na vida faz muito sentido até que a gente dê sentido a ela. Seja inventando um passado, ou imaginando um futuro.
Serviço: Talvez uma História de Amor, de Martin Page. Rocco, 160 págs., R$ 29.



