Urbanismo
Planejada, cidade gerou crias
Annalice Del Vecchio
Largas avenidas, que privilegiam o transporte viário, e construções isoladas são características de Palmas, capital do Tocantins, erguida em meio à natureza na década de 1970. Só se vê campo e céu ao redor da prefeitura e do luxuoso Theatro Municipal de Paulínia, rico município a cerca de 124 quilômetros de São Paulo. Em Curitiba e no Rio de Janeiro, os bairros Alphaville e Barra da Tijuca, respectivamente, comportam grandes torres habitacionais em locais isolados do resto das cidades. Qualquer semelhança com Brasília não é mera coincidência.
A Capital Federal, projetada pelo arquiteto Lucio Costa em 1957, é alvo de opiniões polêmicas. Quem visita a cidade, se impressiona com os belíssimos monumentos de Oscar Niemeyer em meios aos infinitos jardins de Roberto Burle Marx. Mas, quem vive lá, sente na pele a falta de "humanidade" de uma cidade criada a partir de conceitos modernistas importados da Europa.
"Brasília foi projetada segundo as concepções utilizadas em áreas afastadas dos centros das cidades europeias, implantadas depois da Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, ninguém iria construir a capital de uma nação, inspirada nas cidades do século 19. O urbanismo utópico do francês Le Corbusier foi desenvolvido com personalidade pelos brasileiros, como uma cidade funcional, onde as atividades de morar, trabalhar, circular e lazer, estão territorialmente bem definidas", explica Salvador Gnoatto, arquiteto e professor do curso de Arquitetura da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
A professora do curso de Arquitetura da Universidade Federal do Paraná, Josilena Gonçalves, explica que na proposta apresentada por Lucio Costa, quatro escalas definiam a ocupação do espaço: "a escala monumental, reservada para os prédios públicos mais importantes da República; a escala residencial, na qual os blocos de moradia se assentam sobre pilotis e amplos espaços gramados; a escala gregária, onde se situam os setores comerciais, bancários, hoteleiros e a própria rodoviária; a escala bucólica que se faz sentir na passagem, sem transição, do ocupado para o não ocupado. Em lugar de muralhas, a cidade se propôs delimitada por áreas livres arborizadas".
Uma viagem recente ao Distrito Federal, levou Gnoato a conferir pessoalmente o melhor e o pior da capital que completa 50 anos. E não viu nada que outras cidades brasileiras já não tenham, digamos, "importado". A cidade sem esquinas, que gerou os músicos do Legião Urbana, Capital Inicial e Paralamas do Sucesso tem, sim, áreas de convívio entre as pessoas. "Nas superquadras, edifícios residenciais de seis pavimentos, construídos sob pilotis, estão implantados em generosas áreas verdes, com escolas, restaurantes e comércio próximos. Estes são os locais de convívio de Brasília", diz.
Mas, como Los Angeles ou Detroit, nos Estados Unidos, "Brasília foi concebida para uma sociedade que utiliza o transporte individual. A cidade reflete também as contradições sociais brasileiras. Desde sua construção, os operários se estabeleceram nas cidades-satélite que hoje compõem sua região retropolitana", completa.
Brasília não é só uma cidade, diz Josilena, mas um objeto urbanístico-arquitetônico de representação estatal. "Uma espécie de Versalhes do século 20 moldada pelos ritos e protocolos e não pelas necessidades dos cidadãos. A ênfase dada à Brasília monumental no projeto faz com que as demais áreas careçam de complexidade para acolher a vida diária dos cidadãos de maneira satisfatória", explica.
Antítese
Gnoato conta que, no início da década de 1960, a norte-americana Jane Jacobs, autora do livro Morte e Vida das Grandes Cidades Norte-Americanas (1961), defendeu uma antítese de Brasília. "Uma cidade é mais segura e agradável quando misturar suas funções. Um bairro ou uma rua, onde existam moradias, comércio e outras atividades, de dia ou à noite, durante a semana e nos fins de semana, e destinadas a diversas classes sociais, serão mais vivos e interessantes que lugares burocraticamente programados", diz.
Para ele, os ideais modernistas permanecem vivos em novas áreas de cidades, "onde grandes torres habitacionais são implantadas isoladas e afastadas, como na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, ou na Ecoville, em Curitiba". Por outro lado, explica Josilena, como em outras cidades planejadas, Brasília também sofreu os efeitos do conflito entre o Brasil idealizado e o país real. Vide as cidades-satélite no entorno da cidade planejada.
"O idealizado sempre é contaminado pelo país real. As áreas residenciais foram invadidas por outras atividades, e as áreas destinadas ao comércio não se desenvolveram como deveriam. Ignorou-se o fato de que foi desenhada para ser uma cidade com população limitada, cuja atividade principal é abrigar o governo da nação", diz.
Brasília - "Não tenhamos dúvida de que o maior perigo de Brasília, situada em zona despovoada, será a ausência de opinião pública como elemento de orientação dos governantes. Sem vigilância, ou apenas vigiados de longe, governantes e legisladores irão pensar de preferência em si mesmos, nos seus bons negócios, em tirar rapidamente o máximo de vantagens em seu exílio no deserto."
O texto acima faz parte de um artigo de Austregésilo de Athayde publicado no Diário da Noite de 7 de janeiro de 1957. Faltavam mais de três anos para a mudança de capital e o clima de desconfiança com o que viria pela frente tomava conta do Rio de Janeiro. Na época, havia argumentos de todos os gostos para justificar a localização escolhida para o atual Distrito Federal.
O primeiro, geográfico, dizia que era justo levar o poder ao coração do país. O segundo, social-econômico, rezava que a transferência era uma maneira de levar o desenvolvimento para o interior. O terceiro, mais complicado, era de transformação política.
Mudar seria uma oportunidade de deixar para trás os vícios adquiridos desde os tempos imperiais. Conforme as proféticas palavras de Athayde, porém, essa transformação não passou de utopia. Aos olhos do resto do Brasil, a nova capital consolidou-se como uma ilha longínqua de políticos cercada de interesses escusos por todos os lados.
Advogado, historiador e cientista político, Octaciano Nogueira chegou ao Planalto Central em 1962 e diz que o isolamento da capital sempre foi uma característica. "Nos anos 1960, a cidade só tinha um canal de televisão local, que não transmitia programação de fora, e o jornal Correio Braziliense. Brasília era isolada do Brasil e o Brasil isolado de Brasília."
Chegar à capital também era um desafio. Por terra e por ar, já que não havia conexões diretas de avião, muito menos aeronaves a jato. "Os turboélices modelo Electra atingiam metade da velocidade dos Boeings de hoje. Não havia povo ou manifestações em Brasília pelo simples fato de que não havia como chegar até ela."
A situação era bem diferente no Rio de Janeiro. A sede anterior da Câmara dos Deputados, o Palácio Tiradentes, fica no ponto com mais trânsito de pessoas da cidade, a Praça Quinze. "Lá sim havia participação popular, era comum", lembra Nogueira, que trabalhou nas duas sedes do Parlamento.
Os prédios modernistas modelados por Oscar Niemeyer como o novo Congresso Nacional só tomaram conhecimento do que era uma manifestação popular em 1963. Durante a Revolta dos Sargentos, dezenas de cabos, sargentos e suboficiais invadiram as galerias do prédio para protestar contra a inelegibilidade dos militares. Nascia o lobby setorial, embrião dos protestos que hoje tomam conta de Brasília a maioria deles engrossados por manifestantes "profissionais", pagos para dar gritos de guerra.
Passado o desconforto tecnológico, a comunicação melhorou, mas o sonho de aproximação com o restante do país foi fulminado pela ditadura militar (1964-1985). Brasília deixou de ser uma ilha para virar um bunker de generais. Não que eles gostassem da localização da cidade, mas ela tinha suas vantagens estratégicas na suavização dos anos de chumbo.
Apesar disso, até o final dos anos 80, Brasília era uma cidade povoada por deputados e senadores. Era muito mais comum mudar-se para a cidade com toda a família do que o vaivém de hoje em dia, no qual a maioria dos parlamentares chega à capital na terça-feira à tarde e volta na quinta de manhã o que gera um novo formato de isolamento. Filhos de políticos daquela época sabem como a situação era diferente.
O ex-prefeito de Curitiba Beto Richa viveu em Brasília de 1979 a 1981, quando o pai, José Richa, era senador. "Quando eu cheguei tinha 14 anos e minha vida era jogar bola entre as superquadras. Sinceramente, só posso falar bem de Brasília, tenho muito boas recordações."
Parlamentar mais antigo da bancada paranaense, Affonso Camargo, 81 anos, tem cadeira no Congresso há 32 anos consecutivos (metade como senador, metade como deputado). Por conta própria, viveu em Brasília com a segunda esposa entre 1990 e 2008. "Queria começar uma vida nova e, nesse sentido, acho que fui muito feliz."
Camargo é hoje um dos mais ferrenhos defensores da tese de que os congressistas precisam morar em Brasília. Recentemente ele apresentou uma proposta para mudar o regimento interno da Câmara e fazer com que os deputados trabalhem três semanas corridas na capital e depois tenham uma semana para ficar com as "bases" no estado. A ideia nunca prosperou. "Acho que eles preferem continuar com essa agenda maluca de 15 reuniões a cada quarta-feira sobre assuntos diferentes, sem conseguir ter foco em nenhum deles."
O deputado, no entanto, refuta a tese de que a localização de Brasília é um dos motivos que amplia a corrupção. Por outro lado, ele define a política interna do Distrito Federal como uma das mais corruptas do mundo vide o mensalão local que levou o ex-governador José Roberto Arruda à prisão. Para ele, o erro foi ter deixado a administração de Brasília sair do controle do governo federal.
A teoria é que a capital não pertence aos brasilienses, mas a todos os brasileiros. A dúvida é saber se, depois de meio século de distanciamento e escândalos, o Brasil realmente quer Brasília, nos moldes de hoje, de volta. E vice-versa.
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