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Maestro defende a “aura” dos vinis

Preferidos do maestro, compositor e agitador da música nova em Curitiba, Márcio Steuernagel, vão do hard rock ao atonalismo

Jovem regente da Orquestra Filarmônica da UFPR, Márcio Steuernagel viveu um episódio revelador durante churrasco de estudantes de música, quando admitiu gostar “pra caramba” de Queen | Aniele Nascimento/Gazeta do Povo
Jovem regente da Orquestra Filarmônica da UFPR, Márcio Steuernagel viveu um episódio revelador durante churrasco de estudantes de música, quando admitiu gostar “pra caramba” de Queen (Foto: Aniele Nascimento/Gazeta do Povo)
Appetite for Destruction (1987) – Guns N’ Roses:

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Appetite for Destruction (1987) – Guns N’ Roses:

La Traviata (Verdi) (1973) – Arturo Toscanini e Orquestra Sinfônica da NBC:

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La Traviata (Verdi) (1973) – Arturo Toscanini e Orquestra Sinfônica da NBC:

João e Maria / A Cigarra e a Formiga / A Roupa Nova do Rei (1967):Meu primeiro contato com discos foi com esses. Minha mãe tinha vários da coleção Carroussell. Tinha alguns compactos de apenas uma história, que eram como se fossem os discos das crianças . E este era o dos adultos, porque era o grande. Tínhamos uma relação física com o disco, mas não podíamos coloca-lo para tocar. É engraçado que essas histórias tinham muitas músicas. E minha mãe cantava todas na hora de irmos dormir. É uma matriz no universo imaginário. Uma coisa de infância. Mas até hoje me lembro da maioria das músicas |

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João e Maria / A Cigarra e a Formiga / A Roupa Nova do Rei (1967):Meu primeiro contato com discos foi com esses. Minha mãe tinha vários da coleção Carroussell. Tinha alguns compactos de apenas uma história, que eram como se fossem os discos das crianças . E este era o dos adultos, porque era o grande. Tínhamos uma relação física com o disco, mas não podíamos coloca-lo para tocar. É engraçado que essas histórias tinham muitas músicas. E minha mãe cantava todas na hora de irmos dormir. É uma matriz no universo imaginário. Uma coisa de infância. Mas até hoje me lembro da maioria das músicas

Begegnung In Baden-Baden (1971) – New Phonic Art: Comprei quando comecei a montar minha discoteca, há uns seis anos. É uma sessão de improvisação de um grupo de Darmstadt (Alemanha). Desse pessoal envolvido [Michel Portal, Jean-Pierre Drouet, Carlos Roqué Alsina e Vinko Globokar], só conhecia o Globokar como compositor, e não o ouvia muito. Mas, por ser uma gravação de uma sessão de improvisação na década de 1970 – e estávamos falando da presença do som – a ideia de ter um registro de um momento histórico na minha sala fazia com que eu me relacionasse com ele. |

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Begegnung In Baden-Baden (1971) – New Phonic Art: Comprei quando comecei a montar minha discoteca, há uns seis anos. É uma sessão de improvisação de um grupo de Darmstadt (Alemanha). Desse pessoal envolvido [Michel Portal, Jean-Pierre Drouet, Carlos Roqué Alsina e Vinko Globokar], só conhecia o Globokar como compositor, e não o ouvia muito. Mas, por ser uma gravação de uma sessão de improvisação na década de 1970 – e estávamos falando da presença do som – a ideia de ter um registro de um momento histórico na minha sala fazia com que eu me relacionasse com ele.

Alguém foi até o aparelho de som que só tocava música clássica naquele churrasco de estudantes de música da Belas Artes, bufou um "ah" e colocou um disco do Queen.

Confira quatro dos discos preferidos de Márcio Steuernagel

A resposta foi uma tensão silenciosa entre os colegas do curso de Composição e Regência até um deles confessar, como quem se entrega a um tribunal da alta cultura, que gostava "pra caramba" do grupo de Freddie Mercury. Foi o suficiente para vir à tona uma espécie de sociedade secreta de "guilty pleasures", que revelou até um alter ego chamado Clodoaldo Augusto, dono de uma coleção de LPs de música brega.

"Acho que nos levávamos muito a sério. Éramos estudantes ao mesmo tempo arrogantes e inseguros", conta o narrador, Márcio Steuernagel, ao falar sobre The Game (1980), um dos discos que selecionou entre seus preferidos a pedido da reportagem da Gazeta do Povo.

Sentado em uma mesa de sinuca na casa dos pais em meio a discos de obras como Catalogue d’Oiseaux Volume 2, de Messiaen (por Jocy de Oliveira), e o Pierrot Lunaire, de Schoenberg, o jovem regente da Orquestra Filarmônica da UFPR , professor de regência na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap/Unespar) e um dos movimentadores da música nova em Curitiba diz que o episódio com o Queen marcou o momento em que conseguiu compartilhar com naturalidade todos os lados de seu gosto musical na comunidade da música clássica.

"Acho que existem músicas diferentes para espaços diferentes da vida", diz, enquanto tira um Keep the Faith (1992), do Bon Jovi, de baixo de um Le Sacre Du Printemps (A Sagração da Primavera), de Stravinski, por Claudio Abbado e a Orquestra Sinfônica de Londres (1976). "As músicas diferentes exigem tipos de relacionamentos diferentes", explica.

Nascido em Pelotas (RS) em 1982, o músico, que vive em Curitiba desde o início da década de 1990, se lembra bem da era do vinil. Seus primeiros contatos com os discos remetem aos compactos de histórias infantis do selo Carroussell – e o músico faz justiça incluindo um deles em seu top 5.

Mas seus próprios vinis, que começou a adquirir depois que decidiu parar de surrupiar os do irmão mais velho, também músico, começaram a ser comprados por uma questão prática: há muitos discos de música contemporânea pelos sebos da cidade, e quase nada deste repertório em CD. Mas o digital pouco o interessa, e ele cita Walter Benjamin e um de seus mestres, Mauricio Dottori, ao defender que a "fisicalidade" do vinil ajuda a preservar a "aura" que circunda as obras de arte. "Parte dessa aura tem a ver com quão especial [a música] é", diz. "Um rolo de cera podia ser tocado cerca de 20 vezes, depois desgastava. Então, cada vez que era tocado, era um momento especial. Um vinil você precisa virar pelo menos uma vez. Hoje, teu iPhone toca 36 horas seguidas de música."

Vinis

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