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A atriz Rosana Stavis durante interpretação de Psicose 4:48: texto de Sarah Kane encontrou a voz perfeita em Curitiba. Montagem é considerada um clássico da dramaturgia contemporânea | Elenize Dezgeniski/Divulgação
A atriz Rosana Stavis durante interpretação de Psicose 4:48: texto de Sarah Kane encontrou a voz perfeita em Curitiba. Montagem é considerada um clássico da dramaturgia contemporânea| Foto: Elenize Dezgeniski/Divulgação

Vida e obra

Conheça Rosana Stavis a partir de alguns destaques de sua carreira:

Brecht

Ganhou seu primeiro troféu Gralha Azul em 1989, ano em que se formou, por sua atuação em A Vida de Galileu, de Brecht.

Rodrigueana

Rosana Stavis atuou em Paixão e Morte Segundo Nelson Rodrigues, de Edson Bueno, em 1994.

Ópera

A atriz Protagonizou Lulu, ópera de Frank Wedekind, com direção de Marcelo Marchioro, em 1996.

Schoemberger

Foi casada por sete anos com o ator e dramaturgo curitibano Mário Schoemberger (1952 - 2008).

Becket

Em 2008, atuou em Esperando Godot, clássico de Samuel Beckett, ao lado de Mauro Zanatta.

Conquistas

Até hoje, Rosana Stavis ganhou cinco Troféus Gralha Azul como melhor atriz e também o prêmio de melhor atriz pelo filme O Hóspede Secreto, de Fernando Severo, no festival de Salvador.

Vídeo

Veja um trecho de "Psicose 4:48" na atuação de Rosana Stavis: https://www.youtube.com/watch?v=t6uoVV28DtU

Se existem clássicos da dramaturgia contemporânea, Psicose 4:48 é um deles. O interesse pelo texto, que mergulha fundo na mente psicótica, foi ampliado pelas circunstâncias da morte da autora britânica Sarah Kane, pouco tempo depois de tê-lo escrito, em 1999. As montagens pelo mundo pulularam, e no Brasil, entre as boas adaptações, está a de Marcos Damaceno, cuja companhia curitibana estreou sua versão em 2004.

Desde então, o diretor e a atriz Rosana Stavis são convidados a excursionar pelo país. "O texto está para o teatro contemporâneo assim como Esperando Godot esteve para o teatro moderno", compara Damaceno, em entrevista à Gazeta do Povo. "Todo ano a gente diz: é o último ano da peça, e então surge o convite de mais uma cidade." Lá se vão 11 anos.

Após sumiço de um ano e meio, o grupo está circulando com o espetáculo por cinco cidades catarinenses a convite do Sesc-SC. Participa da encenação também o ator Eduardo Ramos.

A história de Damaceno com o texto começou ao constatar uma afinidade daquelas tortas linhas com sua própria escrita. Uma amiga assistira ao seu Águas Revoltas, e notara a semelhança. Sugeriu então que ele fosse a uma leitura dramática de Psicose 4:48. "Parecia que eu tinha escrito. Resolvi encenar logo." Foi uma escolha sábia, que rendeu a Rosana o Troféu Gralha Azul de melhor atriz em 2004. O espetáculo, minimalista no visual mas expansivo na atuação, foi ainda alvo de boas críticas na imprensa nacional após apresentações em São Paulo (2007, 2008 e 2013), Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Aracaju, Maceió e Porto Alegre, entre outras cidades.

"Nossa montagem presentifica a força do texto, a gama de sentimentos, como perturbação e raiva, com a atuação da Rosana. Ela consegue, com uma respiração, passar quatro, cinco sentimentos", elogia o diretor, casado com a atriz, com quem tem uma filha.

Depressão

Sarah Kane sofria de depressão severa, com passagens por centros de internamento psiquiátrico. É dentro de um deles que ela situa a personagem/voz da peça, uma mulher atormentada por suas limitações e pelo passado.

Apesar da tensão perturbadora que o espetáculo provoca ("tem gente que pede para sair, aos prantos", diz Damaceno), a referência ao mundo interior em sofrimento provoca a compaixão das plateias. O texto revela a obsessão pelo suicídio e pelo horário em que a autora acordava em suas noites de aflição: 4h48.

Em sua poesia autorreferente, Sarah Kane indicava a decisão de tirar a vida. Pouco depois de terminar o texto, ela tomou uma overdose de medicamentos, mas foi salva. No hospital onde recebia tratamento, porém, se enforcou no banheiro, aos 28 anos.

Opinião

Texto é uma tesoura que rasga a felicidade

Cristiano Castilho, editor-assistente do Caderno G

Foi há alguns anos. Rosana Stavis girava numa cadeira de rodas, vestida de cinza dos pés à aura. Àquela altura, a plateia já estava entregue aos devaneios psicóticos de Sarah Kane, catalisada pela interpretação acachapante de Rosana Stavis.

Não é sempre que uma peça tão dura em sua forma e conteúdo consegue um arrebatamento sincero – ao final do espetáculo, houve quem saísse com as mãos no rosto, como se quisesse esconder a própria reação, incontornável porque Psicose 4:48 revisita a essência do que é humano. E, quando nos esquecemos do que somos e lembramos assim, de repente, ficamos simplesmente assustados.

A depressão é o tema central. A peça recria a realidade de acordo com uma visão de mundo perturbada, algo que a psicologia chama eufemisticamente de "não adequação."

Grande parte do êxito de Psicose 4h48 pode ser explicado pela dupla texto – uma tesoura que rasga qualquer concepção prévia de possível felicidade – e interpretação: ao final do espetáculo, chega-se à conclusão de que Rosana Stavis nasceu para esta peça.

O sucesso da montagem também é um ponto fora da curva no conceito atual de produção e difusão cultural. Afinal de contas, não é um clipe com garotas com roupas coloridas cantando uma música com a ajuda do autotune. É um espetáculo sobre a autodecadência.

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