
Poucos personagens na história da literatura têm permitido tantas possibilidades de releitura quanto o detetive Sherlock Holmes. Talvez porque, sob toda a fleuma britânica que parece ser um dos traços fundamentais de sua personalidade, o genial detetive criado por Conan Doyle em 1887 seja mais atemporal e universal do que aparenta. Ao mesmo tempo em que é um homem de inteligência notável, com gigantesca capacidade de dedução, é um solitário atormentado, de personalidade evasiva, com dificuldades em estabelecer vínculos afetivos de qualquer ordem com o mundo. Mais contemporâneo do que isso impossível. Parece que estamos falando de Mark Zuckerberg, criador do Facebook.
Talvez por conta dessa complexidade toda, os dois longas-metragens realizados pelo cineasta inglês Guy Ritchie a partir da série de livros assinados por Doyle sejam, ao mesmo tempo, interessantes e questionáveis. E Sherlock Holmes O Jogo das Sombras, que estreia hoje nos cinemas brasileiros, é exemplar nesse sentido.
Quem acompanha a carreira do ex-marido da cantora Madonna, diretor de Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e RocknRolla A Grande Roubada, reconhece de cara traços fundamentais de seu cinema: o ritmo frenético da narrativa, cenas de ação coreografadas, violência estetizada ao ponto de mais parecer simulação, artifício. Tudo isso faz de Ritchie uma espécie de Quentin Tarantino de segunda (ou terceira) linha. Falta-lhe a originalidade criativa que o realizador norte-americano tem de sobra.
O que torna Ritchie mais interessante é a forma com que, em todos os seus filmes, o diretor subverte a ideia do herói vigoroso e infalível. Embora bons de briga, são homens sempre à beira de uma uma crise de nervos, em estado de desassossego com o fardo masculino de salvar o mundo ou a própria pele.
Em Sherlock Holmes O Jogo das Sombras, o famoso detetive da Baker Street, vivido mais uma vez por Robert Downey Jr., está às voltas com dois inimigos. O primeiro deles, mais concreto e que movimenta a trama, é o ardiloso e maquiavélico professor Moriarty (o ótimo Jared Harris, da série Mad Men), que, na instável Europa do fim do século 19, vem orquestrando uma série de atentados terroristas que culminarão, a História ensina, na eclosão da Primeira Guerra Mundial.
O outro "inimigo" de Holmes é a iminente perda de Watson (Jude Law), seu melhor amigo, companheiro de aventuras e, principalmente, seu esteio afetivo. O médico, prestes a se casar, parece disposto a escapar de vez do mundo caótico de Holmes. Como não consegue lidar com a possibilidade de se ver enfim só, o detetive acaba interrompendo a lua de mel do amigo e o arrastando para sua nova aventura, negando-lhe, inclusive, o direito de consumar o matrimônio.
Dividido entre intermináveis cenas de luta e perseguição, todas muito bem realizadas mas algo ocas, e a tentação de devotar mais atenção à crise de existência de Holmes, Ritchie constrói um filme esquizofrênico. Divertido por vezes, sagaz em outras, mas sempre comprometido pelo imperioso dever de divertir a todo custo e o tempo todo.



