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      O destaque nesta semana das sessões de imprensa do Festival de Nova Iorque foi a exibição de trabalhos de dois diretores do cinema português: o centenário Manoel de Oliveira (101 anos) e o cineasta ainda consolidando carreira João Pedro Rodrigues, de 43 anos. Singularidades de uma Rapariga Loura, 49.º filme de Oliveira, que vem realizando uma média de dois filmes por ano, foi muito aplaudido após a projeção. Ficou evidente que os aplausos se dirigiram muito mais ao conjunto de sua obra, que também lhe valeu um Urso Honorário no último Festival de Berlim, mas não se pode negar que o lendário diretor, a esta altura, está além dos aplausos e dos elogios. Se existe um panteão do cinema, Oliveira já é seu ocupante legítimo e permanente.

      O filme é a adaptação do primeiro conto realista do escritor português Eça de Queiroz, datado de 1873 e publicado originalmente no Diário de Notícias, de Portugal.

      A história acompanha Macário (Ricardo Trêpa, neto e ator preferido do diretor), que, numa viagem de trem para a região do Algarve, con­­ta as atribulações da sua vida amorosa a uma senhora desconhecida (Leonor Silveira, atriz "manoelina" por excelência).

      Ao conseguir seu primeiro em­­prego no armazém do seu tio Fran­­cisco em Lisboa, apaixona-se perdidamente por Luísa (Catarina Wal­­lens­­tein), a jovem loura que habita na casa do outro lado da rua e que ele sempre vê na janela, com seu leque chinês à mão. Macário quer de imediato se casar com ela, mas o tio não concorda e, além de despedi-lo, o expulsa de casa.

      "Este é meu primeiro filme ba­­se­­ado no trabalho de um escritor realista. O Eça (de Queiroz) era cônsul português em Paris quando conheceu o realismo de Emile Zola e o trouxe para Portugal. Mas eu acho que há um lado misterioso no filme que vai além daquela janela na casa do vizinho, do leque da moça, e mostra os segredos infindáveis da vida", diz Oliveira, explicando como vê este e os outros tra­­balhos de sua carreira.

      "Eu vejo como memória e isso é fundamental. História é memória, o passado é memória e, quando a gente se dá conta, tudo é memória. Se nós a perdêssemos, não saberíamos quem somos e porque estamos aqui. Eu tenho um grande respeito pela história", afirma.

      O diretor constrói a trama com muitas autorreferências de cenas e planos de seus filmes, muitas delas que já foram vistas, por exemplo, em Amor de Perdição, também uma adaptação, desta vez de Camilo Castelo Branco.

      Singularidades de uma Rapariga Loura aborda um tema favorito de Oliveira – a paixão num viés irônico –, mas também é um filme, mais do que qualquer outro dele, sobre um problema econômico, ou seja, sobre a dificuldade de ganhar dinheiro e, sobretudo, como sobreviver com o que não se tem.

      O diretor tem se declarado um defensor fervoroso do cinema de autor e manifestado sua aversão ao cinema comercial. "O cinema, tal como a vida, tem evoluído e todas as evoluções têm aspectos positivos e negativos. O positivo foi o cinema de autor. O negativo foi o cinema comercial, sem o lado artesão e cada vez mais entregue à indústria", critica Oliveira, o mais velho cineasta em atividade.

      História triste

      Morrer como um Homem, de João Pedro Rodrigues, por sua vez, é uma tragicomédia sobre Tonia, uma veterana drag queen de meia-idade – num excelente de­­sem­­penho de Fernando Santos –, que enfrenta a competição de drags mais jovens e o relacionamento tenso com Rosário, seu na­­morado viciado em drogas.Ele insiste para que ela faça uma cirurgia para mudança de sexo, algo que ela sempre resistiu por razões religiosas. As coisas começam a piorar quando o filho, que ela havia abandonado, deserta do exército e sai em sua busca.

      O filme toma um rumo inesperado quando Tonia, a pretexto de visitar um irmão, decide viajar para o interior na companhia de Rosário. Lá acabam se perdendo e vão parar no meio de uma floresta mágica. O roteiro é inspirado em entrevistas pessoais que Rodrigues realizou durante meses com transexuais, médicos, drags e pessoas do mundo artístico.

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