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Literatura

Realismo alucinátório e premiado

Pouco conhecido no Ocidente, escritor chinês Mo Yan venceu o Prêmio Nobel de Literatura. Anúncio provocou reações imediatas entre escritores e ativistas críticos do regime

Mo Yan concedeu uma coletiva de imprensa ontem, em Gaomi, sua cidade natal: prêmio o pegou de surpresa, enquanto visitava o pai | Ed Jones/AFP Photo
Mo Yan concedeu uma coletiva de imprensa ontem, em Gaomi, sua cidade natal: prêmio o pegou de surpresa, enquanto visitava o pai (Foto: Ed Jones/AFP Photo)
Após o anúncio do Nobel, procura por livros de Mo Yan aumentou nas lojas de Beijing |

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Após o anúncio do Nobel, procura por livros de Mo Yan aumentou nas lojas de Beijing

O olhar alegórico para a História antiga e recente da China, com direito a doses de realismo mágico, rendeu ao romancista e ensaísta Mo Yan, de 57 anos, o Prêmio Nobel de Literatura, anunciado na última quinta-feira em Estocolmo. A Academia Sueca atribuiu a decisão ao "realismo alucinatório" do escritor chinês, que "mescla folclore, elementos históricos e contemporâneos". O prêmio, no valor de US$ 1,2 milhão, pode ajudar a popularizar o trabalho de um autor que, embora já traduzido para inglês, francês, alemão e espanhol, não é tão conhecido no Ocidente quanto em seu país natal. Seu livro mais famoso internacionalmente é Sorgo Vermelho (1987), que deu origem ao filme homônimo de Zhang Yimou, vencedor do Urso de Ouro do Festival de Berlim em 1988. Nenhuma de suas obras foi traduzida no Brasil.

Prêmio de viés tradicionalmente político, este ano o Nobel acabou lançando luz sobre os conflitos internos no meio intelectual chinês. A indicação de Mo Yan provocou críticas de escritores dissidentes e ativistas chineses, entre eles o artista plástico Ai Weiwei. Yan, que é vice-presidente da Associação de Escritores Chineses, controlada pelo Estado, é acusado de apoiar o governo e de se omitir diante de violações dos direitos humanos no país.

Em entrevista à agência estatal de notícias China News, Yan disse esperar que o Nobel colabore para a divulgação da literatura chinesa, que "tem muitos autores excelentes cujos destacados trabalhos também poderão ser reconhecidos no mundo". Surpreendido pela notícia enquanto visitava o pai na pequena cidade de Gaomi, onde nasceu, Yan afirmou que quer "continuar trabalhando duro" e "seguir meu próprio caminho, concentrado no que é humano, para minha própria obra".

Trajetória

Mo Yan (expressão chinesa que significa "Não fale") é o pseudônimo adotado por Guan Moye, nascido em 1955 na província de Shangdong, em uma família de agricultores. Em entrevistas, o escritor conta que "mo yan" era o conselho que ouvia do pai nos tempos da Revolução Cultural (1966-76), quando declarações inconvenientes ao regime poderiam ser mal interpretadas e denunciadas. Yan é o segundo vencedor do Nobel de Literatura de língua chinesa, mas o primeiro premiado residente na China. Laureado em 2000, Gao Xingjian estava radicado na França desde a década de 1980 e havia se naturalizado francês em 1997.

Tal como acontece com muitos dos principais autores chineses, Mo — que apareceu na década de 1980 como um dos escritores do país que buscavam um retorno às raízes da vida rural — pode aparecer como um rebelde ou um conformado, dependendo da ocasião. Romances como A República do Vinho (1992), As Baladas de Alho (1995) e Peitos Grandes e Quadris Largos (1996) apresentam uma mistura exuberante do conto popular rústico, revoltas históricas e um toque de realismo mágico, muito caro ao Nobel. Ele pertence ao grupo de romancistas que buscaram em lugares pequenos grandes histórias de transformação social, que vieram à tona por uma imaginação exuberante.

Surpresa

Embora o nome de Yan aparecesse nas especulações para o Nobel deste ano, a vitória do escritor chinês no mais prestigiado (e lucrativo) prêmio literário do mundo parece ter pego de surpresa seus compatriotas. Na Feira de Livros de Frankfurt, principal evento internacional do mercado editorial, que acontece até amanhã na Alemanha, o gigantesco estande oficial do governo chinês, com mais de 60 editoras reunidas para oferecer suas publicações, não tinha nenhum livro de Mo Yan.

Distante do espaço oficial do governo chinês, um pequeno estande que reúne um pool de editoras chinesas, entre elas a Shangai Literature & Art Publishing House, responsável pela publicação das obras de Mo Yan na China, exibia apenas o título mais recente do autor, Sapo, numa edição em chinês, com capa dura. A agente do escritor, porém, não veio para a feira. Ao saber do prêmio, os responsáveis pelo estande correram e mandaram preparar um cartaz com a foto de Yan e imagem de seus livros, e, duas horas após o anúncio, o pôster foi colado na parede do estande. A casa chinesa, contudo, não soube informar o número de negócios fechados com a obra de Yan em Frankfurt.

A ausência dos livros é vista com estranheza, já que, diferentemente de nomes como o professor e escritor Liu Xiaobo (prêmio Nobel da Paz em 2010) ou a jornalista Dai Qing, Yan nunca foi considerado inimigo do regime chinês e sempre evitou criticar o governo. Em 2009, ele esteve em Frankfurt, justamente no ano em que a China foi o país homenageado da feira — e barrou a participação de dissidentes — como parte da delegação oficial. Por isso, em alguns fóruns de internet, chineses criticaram a escolha, lembrando que Yan nunca se manifestou publicamente a favor dos dissidentes do país.

Política

Mas em Sapo, publicado em 2009, Yan abordou um tema delicado para o regime: o controle de natalidade. No livro, a política que tenta evitar que as famílias tenham mais de um filho é descrita pelo autor através de abortos e esterilizações forçadas promovidos por oficiais chineses. Em 2011, a obra recebeu o Prêmio Mao Dun de Literatura, oferecido pela Associação de Escritores Chineses.

A Academia Sueca, instituição que concede o Nobel, por sua vez, deixou qualquer indicação política de lado na justificava do prêmio. O que prevaleceu no texto divulgado hoje foram as qualidades lirerárias de Yan: "Através de uma mistura de fantasia e realidade, perspectivas social e histórica, Mo Yan criou um mundo reminiscente em complexidade como aqueles vistos nos textos de William Faulkner e Gabriel García Márquez, ao mesmo tempo em que encontrava um ponto de partida na velha literatura chinesa e na tradição oral".

No Ocidente, a obra de Mo Yan é certamente mais conhecida pelo cinema do que por seus livros. Em 1987, o diretor chinês Zhang Yimou, o mesmo de Herói e Clã das Adagas Voadoras, lançou o longa-metragem Sorgo Vermelho, um dos filmes mais influentes do cinema chinês. A trama se passa nos anos 1930, numa China rural, e narra a história de uma jovem que é vendida para o marido, um homem mais velho e leproso, e precisa superar o machismo da sociedade para cuidar de uma vinícola.

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