
Nunca foi exatamente de estar a sala da casa dos Brandão, no bairro Mercês, em Curitiba. Servindo a uma família de músicos, o espaço sempre abrigou piano, cravo, bateria, amplificadores e até big bands e orquestras de câmara junto aos seus sofás.
No início deste mês, fez-se justiça com o cômodo, que ganhou palco e virou a "Sala Brandão". A sala de concertos de 25 lugares em plena residência da família foi inaugurada com um concerto que deve virar uma série na Rádio e Televisão Educativa (E-Paraná).
Por enquanto aberto apenas para convidados, o projeto está sendo tocado pelo saxofonista e contrabaixista Hélio Brandão, que está cheio de ideias para o espaço um antigo desejo do pai, Hélio Brandão, médico e músico amador que fundou em 1946 a pioneira orquestra que se tornaria a Sinfônica da UFPR. O patriarca fez 90 anos no dia 2 de outubro, data da inauguração.
"Ele falou a vida inteira em fazer um auditório, por ser um terreno grande e todos viverem de música na casa", conta o filho, que apresentou dez tangos de sua autoria na abertura da sala ao lado da irmã mais velha, Maria Ester Brandão (violino), e de Alejandro di Núbila (bandoneon) e Fábio Cardoso (piano). O programa teve abertura da flautista Zelia Brandão. A próxima gravação deve ser em novembro e o plano é gravar um concerto por mês em 2014.
Ideia
A Sala Brandão nasceu para atender parte da demanda por uma sala de espetáculos adequada. "Há alguns espaços onde falta dignidade, tanto para os músicos quanto para o público", conta Hélio, que não soube especificar o quanto a família gastou para adequar a sala.
Mas a ideia é expandir tanto o espaço (o terreno da casa tem cerca de 10 mil metros quadrados) quanto o conceito.
"Se der resultados, podemos expandir. Esta é uma fase de experimentação. Temos alguns passos a dar até transformar o projeto", diz Hélio, para quem a parceria com a E-Paraná é o embrião de um modelo a ser desenvolvido.
Patrocínio
A família entra com a sala já pronta e com o que sabe fazer de melhor: música. A tevê e a rádio tornam público o que é apresentado ali. O próximo passo é conseguir patrocínio para sustentar a estrutura necessária para que a sala se abra para o público em geral.
"Passamos a vida tocando, e temos contato com pessoas do cinema e do teatro. Conteúdo podemos dar. A tevê vai dar visibilidade, e o patrocínio de uma empresa daria o apoio para a produção. É uma parceria. A ideia é ninguém fazer favor para ninguém", diz Hélio, que diz querer se afastar de uma relação de "mendigo cultural" que existiria entre o meio artístico e as instituições. "É preciso avaliar a estrutura, chegar a fórmulas novas de fazer arte. Isso só vamos conseguir conversando, o que temos feito bastante. Ninguém vai conseguir fazer algo assim sozinho", conta Hélio, que vê potencial para que o local também funcione como um ponto de encontro para discutir o tema e catalisar alternativas para um sistema artístico menos mediado por editais e comissões.
"Mas o tom é otimista, caso contrário nunca tentaria fazer uma coisa dessas", diz Hélio. "Não se trata ficar só falando. Estamos, primeiro, fazendo."




