Cenários e figurinos reutilizados, apenas 17 dias de filmagens, elenco pago "com cheque pré-datado". Assim foi feito o filme Reis e Ratos, que consolida a parceria entre Selton Mello e o diretor Mauro Lima, iniciada com Lisbela e o Prisioneiro (filme no qual o cineasta trabalhou como assistente de Guel Arraes) e que seguiu com Meu nome não é Johnny.
O plano ousado começou quando Lima foi visitar o set de O Bem Amado, filme dirigido por Arraes e produzido por Paula Lavigne. "Me dei conta de que as duas histórias aconteciam exatamente na mesma época, entre 1963 e 1964. Poderiam nos ser muito útil o cenário e o figurino. De brincadeira, sugeri para a Paula que fizéssemos Reis e Ratos, e ela topou", conta o cineasta, que tinha o roteiro pronto há anos, esperando uma oportunidade para rodá-lo.
Dois dias depois a dupla começou a analisar como tornaria o plano viável, e a pré-produção durou apenas três semanas. "As filmagens teriam de começar logo na sequência de O Bem Amado, senão não seria possível. Sugerimos à equipe descansar uma semana e engrenar essa outra produção. Como não tínhamos dinheiro, pagamos os profissionais da parte técnica, como eletricista e maquinista. A parte artística e o elenco não receberam ainda. Foi tipo cheque pré-datado. Agora faremos a captação de recursos para pagar quem não recebeu e para finalizar a produção", explica Lima.
Santoro, Cauã e Caetano
E mesmo com tantas limitações, o cineasta não encontrou dificuldades para reunir um elenco com alguns dos nomes mais conhecidos e conceituados do cinema nacional. Selton Mello foi o primeiro a ser chamado, e embarcou no projeto logo de cara. "Já conhecia o roteiro e gostava muito da ideia. Tem um humor peculiar. Voltar a trabalhar com o Mauro também era atrativo, fomos muito felizes juntos em Meu nome não é Johnny, é um parceiro que veio pra ficar", diz o ator.
Depois dele, se uniram a Lima na aventura Rodrigo Santoro, Cauã Reymond, Paula Burlamaqui, Otávio Muller, Seu Jorge. E a trilha é de Caetano Veloso. "Foi uma feliz coincidência todo mundo estar disponível exatamente nessa época. Chamei primeiro o Selton, com quem eu já tinha parceria. Com o Rodrigo encontrei por acaso, falei do projeto, ele leu o roteiro, o Selton botou uma pilha, e ele topou. Foi o Selton também que chamou o Cauã, ao encontrá-lo em uma viagem de avião."
Mello já havia se envolvido em outros projetos com verba restrita como foi o caso de O Cheiro do Ralo, em que se ofereceu para atuar e acabou inclusive participando como produtor. "Fiz filmes que ganhei bem, outros não, mas em todos eu pude me exercitar e ajudei de, certa forma, a dar uma cara ao nosso cinema. Amo estar num set de filmagens, ali encontrei uma forma de me expressar e pretendo, assim, seguir meu rumo. Cauã Reymond e Rodrigo Santoro eu trouxe pessoalmente para Reis e Ratos. Mostrei a eles o privilégio de poder fazer algo arriscado em tempo recorde. E eles entenderam o chamado. Não temos tantas oportunidades como essa a todo instante."
Rodado em preto-e-branco, com clima que, segundo o diretor mistura o cinema noir com O Bandido da Luz Vermelha, Reis e Ratos conta sobre um agente da CIA enviado ao Rio de Janeiro que, depois de beber chope, experimentar pastel de camarão e se casar com uma brasileira, não quer mais voltar aos Estados Unidos.
Em crise
Há algum tempo, Selton Mello tem se mostrado desmotivado com o trabalho. "Isso se chama crise", define. "Depois do Feliz Natal [seu primeiro longa como diretor] decidi dar uma diminuída no ritmo. Lançar um filme é algo muito pessoal, é mostrar o seu olhar, o que você pensa", conta o ator, que no entanto terá de encarar várias estreias ainda neste ano de projetos em que atuou há tempos. "Agora tenho privilegiado projetos mais curtos, como foi Reis e ratos, com apenas 17 dias de filmagens. Está do meu tamanho."
Em 5 de junho chega aos cinemas A Mulher Invisível, filme em que contracena com Luana Piovani. Na história, ele interpreta Pedro, um homem que após sofrer uma decepção amorosa, cria uma mulher ideal para viver a seu lado. Nos próximos meses deve entrar em cartaz também Jean Charles, longa que reconta o drama do brasileiro assassinado no metrô londrino pela polícia.
"Adoro o resultado de A mulher invisível, tenho um carinho enorme por esse trabalho. É um filme muito engraçado e comovente também. Boto a maior fé que a plateia vai curtir muito o que fizemos e transformar nosso filme em um grande sucesso. Jean Charles eu ainda não vi o resultado, mas acho que por se tratar de um episódio tão dramático, pode atrair a atenção do público para tentar entender quem era o homem por trás daquela tragédia."
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