
Depois de publicar um mapeamento da música que encontrou nas comunidades de descendência ucraniana no Paraná, em 2010, o professor do departamento de Antropologia da UFPR Paulo Guérios se voltou para a cultura italiana no segundo volume do projeto Sonoridades do Paraná, lançado no mês passado por meio da Lei de Incentivo à Cultura, e disponível na íntegra no site www.sonoridadesdoparana.com.br. As gravações e conclusões foram publicadas em um "CD documentário", que não será comercializado.
O pesquisador se debruçou por um ano no que chama de "circuito da música italiana" na Região Metropolitana de Curitiba, que compreende eventos como a Festa do Frango, Polenta e Vinho de Santa Felicidade e as festas da uva em Colombo e Santa Felicidade, e mapeou seus principais gêneros e particularidades.
A ideia é, a partir da música, chegar a conclusões que vão além dela. "Você não chega para as pessoas e pergunta o que elas acham que é importante em suas vidas. É de forma indireta, por meio de manifestações, que você descobre o que é relevante para elas, o que valorizam", diz Guérios. "No fundo, a música é uma manifestação que fala de uma rede de sociabilidade, de um modo de estar no mundo e de se relacionar com o outro", explica.
Comida e igreja
Parte das conclusões vem da comparação entre as duas comunidades estudadas no projeto. No caso da música ucraniana, Guérios percebeu que, para chegar às pessoas que a tocam, bastava ir até as igrejas em Mallet, Prudentópolis e Rio Azul exemplos de destinos que receberam os ucranianos no fim do século 19, quando a política de povoamento estabelecia colônias no interior. "No caso dos ucranianos, boa parte dos gêneros é relacionada de alguma forma à religião", conta Guérios. As colônias ucranianas também mantiveram um perfil mais camponês, o que imprime uma sonoridade mais ligada a este universo na música tocada por lá.
Já os italianos, vindos em uma leva migratória anterior e direcionada para os arredores dos grandes centros, fazem uma música com mais elementos urbanos. E essencialmente ligada à comida e à festa.
"Uma das conclusões da pesquisa foi a compreensão da relação da sonoridade que é produzida com a característica própria de funcionamento da cada rede social e o processo sócio histórico que deu origem a essa rede", explica Guérios.
Memória
Nas duas pesquisas o antropólogo não encontrou a música contemporânea. O repertório italiano incorpora, no máximo, até a música romântica dos anos 1980 (confira ao lado as canções reunidas no projeto) as mais pedidas em restaurantes, conforme o pesquisador ouviu de um músico.
Um dos principais músicos de origem ucraniana entrevistados por Guérios, Samuel Semczyczyn o Samuca, de Prudentópolis disse que até tentou tocar rock ucraniano contemporâneo, mas que ninguém se identificou.
"Essas comunidades têm uma certa relação com essa origem ucraniana e italiana que remete ao passado, à memória, a nostalgia da infância", sugere o pesquisador. "A Ucrânia e a Itália que interessa para eles não é o país concreto que está no exterior contemporaneamente. O que interessa é essa imagem da origem, essa nostalgia da infância e da história. É com isso que eles operam."
Paraná múltiplo
Guérios se aproximou do projeto a partir de estudos anteriores sobre música seu mestrado trata da trajetória de Heitor Villa-Lobos, e seu doutorado sobre a memória nas comunidades ucranianas do interior e pretende continuar. A próxima pesquisa deve ser sobre a produção musical dos descendentes de japoneses no Paraná.
"O projeto é um testemunho da multiplicidade do que é a cultura paranaense", diz o professor.





