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Literatura

Uma tragédia moderna

Indignação, novo livro do norte-americano Philip Roth, discute como atos e decisões triviais podem ter consequências dramáticas e irreversíveis

Philip Roth recorre a motes do teatro clássico grego em Indignação | Divulgação: Nancy Crampton
Philip Roth recorre a motes do teatro clássico grego em Indignação (Foto: Divulgação: Nancy Crampton)

"Só é ditoso aquele que tem a consciência tranquila, e não é ferido pelos golpes da desgraça." "Não consideremos feliz nenhum ser humano enquanto ele não tiver atingido, sem sofrer os golpes da fatalidade, o termo de sua vida." "Não é lícito aos mortais evitar as desgraças que o destino lhes reserva."

Os trechos acima têm algo em comum. Todos eles são falas que encerram tragédias gregas clássicas (Electra, Édipo-Rei e Antígona, pela ordem). São meio que lições finais que o autor das peças reservava para o público. Um ensinamento que podia se tirar de toda aquela desgraceira que havia ocorrido no palco. E lá iriam os atenienses para casa, depois do teatro, ruminando como eram as coisas da vida.

Indignação, o novo livro de Philip Roth, pega emprestado o recurso de que os gregos tanto gostavam. Depois de contar a história de Marcus Messner, o autor resume tudo o que relatou com uma frase do gênero. "As escolhas mais banais, mais casuais, até cômicas de alguém podem gerar resultados desproporcionais."

Marcus Messner, o garoto da história, na verdade, não tem nada de personagem de tragédia grega – exceto pela tragédia que vive. É apenas um menino recém-saído da adolescência e entrando na vida adulta. Filho de um açougueiro judeu de classe média, tenta levar uma vida menos dura do que a de seus pais. É o primeiro de sua família a conseguir ir para uma faculdade.

E, durante a maior parte do livro, a história que você lê é apenas essa: a de um garoto conhecendo a vida. Mas, o que você não sabe, ou pelo menos demora para se tocar, é que todos aqueles acontecimentos simples, quase banais, estão formando uma cadeia cada vez maior. E levando o personagem cada vez mais para perto da tragédia.

Irritado com o pai, o açougueiro, que é absolutamente paranoico com a segurança do menino, Marcus se muda de Nova Jérsei para Ohio. (Não fosse por isso, Marcus poderia ter se salvado, saberemos mais tarde.) Na nova universidade, conhece uma garota linda e, digamos, bastante desinibida. (Se isso não tivesse acontecido...) Por causa dela, Marcus briga com um colega de quarto e se muda (Se ele soubesse...) E assim por diante, até que, uma hora, a tragédia realmente acontece. E você, como um ateniense de 25 séculos atrás, larga o livro e fica ruminando a última frase que acabaram de lhe ensinar. Até os atos mais tolos podem gerar acontecimentos desproporcionais.

E esse talvez seja o grande mérito do livro de Roth. O livro realmente faz você pensar. De uma maneira sutil, no meio da história das descobertas sexuais e da indignação de um adolescente revoltado com a vida, vão surgindo temas para lá de importantes. Religião, guerra e família, só para citar três. E, em todos eles, Roth tem muito o que dizer.

Mas é como em uma tragédia grega. Se você quiser, dá para dispensar tudo isso. E aproveitar só a trama central. O rei que não sabia ter casado com a própria mãe. A moça que não pode enterrar o corpo do irmão. O matricídio cometido por Orestes. Ou, no caso de Indignação, a vida de um adolescente tentando descobrir um mundo que o machuca. E também desse jeito a leitura é para lá de recomendada.

Serviço

Indignação, de Philip Roth. Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 36.

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