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Teatro

Velhas mãos

Tropeço, espetáculo de animação adulto, vencedor do Troféu Gralha Azul 2008, volta ao cartaz no Teatro José Maria Santos

A aparência das mãos sob o tecido sugeriu aos criadores a imagem de duas velhinhas, sensibilizadas pelo amor e pela solidão, à sombra da morte | Fotos: Daniel Sorrentino/CLIX
A aparência das mãos sob o tecido sugeriu aos criadores a imagem de duas velhinhas, sensibilizadas pelo amor e pela solidão, à sombra da morte (Foto: Fotos: Daniel Sorrentino/CLIX)
Dico Ferreira e Katiane Negrão: os corpos por trás das mãos |

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Dico Ferreira e Katiane Negrão: os corpos por trás das mãos

Sem ruído nem pressa, Tropeço foi crescendo a passos pequenos. Concebida como uma performance curta, exigia apenas 15 minutos da atenção dos frequentadores dos bares onde era apresentada entre 2004 e 2005, em Minas Gerais.

Katiane Negrão e Dico Ferreira, seus criadores, se conheceram em Ouro Preto e iniciaram uma parceria distinta tanto da experiência dele com o teatro de bonecos de luva (os fantoches), quanto da afinidade dela com o teatro-dança, dando vida às mãos como personagens adultos. Até então, atribuir expressões faciais às extremidades superiores do corpo humano não passava de uma brincadeira do diretor teatral formado pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP). Katiane achou que aquela técnica de animação corporal seria interessante em cena. Jogaram um pano sobre as mãos e enxergaram: duas velhinhas.

Uma série de improvisações vistas pelo espelho, filmadas e revistas, se seguiram, culminando na intervenção da diretora e dramaturga Juliana Capilé, para modelar o breve encontro das duas senhoras, em um cenário sombreado pela luz das velas. A eletricidade foi dispensada por falta de recursos, a princípio, e por facilitar as viagens pelos bares vizinhos. No fim, se incorporou como linguagem. "Experimentamos alturas de castiçais diferentes e vimos o quanto contribuíam para as figuras. A sombra dá a visibilidade de olhos nas mãos", revela Katiane, paulista que vive em Curitiba desde 2005.

Tropeço estreou na cidade histórica mineira e logo pegou carona na turnê da Catibrum (a companhia que criou o prestigiado Festival Internacional de Teatro de Bonecos de Belo Horizonte – FIT B), da qual Dico participava, pelo festival Sesi Bonecos, no Nordeste. A dupla que se apresentava em cafés culturais, enquanto os veteranos ocupavam teatros, agradou a produção do evento e conseguiu uma passagem aqui, outra hospedagem paga ali. Mas, no fim dos aplausos, ainda tinha de passar o chapéu.

Outra parceria firmada, desta vez com Marisa Bastos, levou a montagem à cidade portuguesa de Ovar, para participar de seu primeiro festival internacional. Viriam outros, principalmente na Argentina, onde Tropeço tem se apresentado todo ano.

A boa acolhida por onde quer que passasse impulsionou o espetáculo a tomar corpo e chegar à duração atual, de 35 minutos, com o qual saiu vencedor do FIT B em 2007. E foi eleito o melhor do ano passado em Curitiba, pelo Troféu Gralha Azul, motivo pelo qual retorna agora ao cartaz no Teatro José Maria Santos, durante três fins de semana.

Os convites para festivais não cessaram. Em junho, Tropeço viaja para o Filo, em Londrina. Vai ao FIT São José do Rio Preto em julho. E está confirmado na programação deste ano do Encontro Internacional de Artes Cênicas, em Fortaleza, e do Sesi Bonecos. Uma carreira invejável.

Simplicidade

Desde o começo, a dupla de criadores – um casal agora desfeito – buscava a mesma simplicidade que via em trabalhos como O Príncipe do Espanto, de João Araújo, da Cia. Morpheu Teatro. "Com um boneco só, faz o espectador rir e chorar ao mesmo tempo, sem falar nada. Queríamos chamar a atenção das pessoas sem precisar de muito", lembra a atriz. Bastaram a precisão dos movimentos das mãos e a sensibilidade ao abordar dois temas fortes, pertinentes: a velhice e o amor entre iguais.

"As duas velhas vivem juntas, são um casal, bebem, dançam, riem, cantam. A gente fala desse amor na velhice, da homossexualidade, que não é só uma coisa da juventude. Homossexuais envelhecem. Não são promíscuos, existem casais que se amam. O preconceito faz a confusão", diz, sem querer levantar bandeira. Katiane prefere deixar o espectador livre para entender o espetáculo ao seu modo – e há quem o entenda como um homem e uma mulher em cena.

O tropeço do título, a propósito, é o tropeço da vida. Aquele momento em que ela escapa debaixo dos nossos pés.

Serviço:

Tropeço. Teatro José Maria Santos (R. Treze de Maio, 655), (41) 3304-795. Concepção e atuação de Katiane Negrão e Dico Ferreira. Quinta-feira a sábado às 21 horas e domingo às 19 horas. R$15. Desconto de 50% para portadores do cartão Teatro Guaíra. Até 31 de maio.

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