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O papa Francisco durante a oração do Angelus em 4 de agosto, data em que o Vaticano divulgou a carta sobre o valor da literatura
O papa Francisco durante a oração do Angelus em 4 de agosto, data em que o Vaticano divulgou a carta sobre o valor da literatura| Foto: EFE/EPA/Vatican Media handout

Em março deste ano, esta Gazeta do Povo fez uma pesquisa interna com seus leitores. Entre as perguntas constava uma sobre quais seriam seus hobbies preferidos. O resultado surpreendeu, com a leitura de livros aparecendo, ao lado do cinema, como o preferido, com larga margem de vantagem à frente de outras opções mais apostáveis, como viagens e esportes.

Talvez o Papa Francisco seja um de nossos leitores, mas se não for – e deveria ser –, certamente teria respondido o mesmo. Em carta recente, na qual trata sobre o papel da literatura na educação, iniciou destacando justamente o valor da leitura como hobby: “Na verdade, não faltam momentos de cansaço, irritação, desilusão, fracasso e, quando nem sequer na oração conseguimos encontrar o sossego da alma, pelo menos um bom livro nos ajuda a enfrentar a tempestade, até que possamos ter um pouco mais de serenidade. (...) Antes da onipresença da mídia, das redes sociais, dos celulares e de outros dispositivos, esta era uma experiência frequente, e quem a viveu sabe bem do que estou falando. Não se trata de algo ultrapassado.”

Não é ultrapassado mesmo, porém, como o próprio Papa reconheceu, se considerarmos a literatura apenas assim, como um hobby, perderemos o melhor que ela tem a oferecer, pois aí “a atenção à literatura é considerada como algo não essencial. A este respeito, gostaria de afirmar que tal perspectiva não é boa. Ela está na origem de uma forma de grave empobrecimento intelectual e espiritual.” E não pense o leitor que o Papa não teria “lugar de fala” sobre literatura, pois não só a leitura é seu hobby, como foi também parte de seu ofício, quando a lecionou em uma escola jesuíta nos anos 1960. Independentemente disso, como sua carta demonstra, ele entende (muito bem) do riscado.

A princípio, sua ideia era escrever para os candidatos ao sacerdócio, referindo-se ao valor da literatura na formação dos futuros padres, entretanto, percebeu que o que escrevia valia para qualquer pessoa, inclusive aos que não são cristãos, razão pela qual sua carta é altamente recomendável a qualquer um, tendo a literatura por hobby ou não. A intenção final do Papa é mais do que despertar um desejo pela leitura, mas propiciar uma mudança radical de atitude em relação à literatura, colocando-a como essencial “no caminho do amadurecimento pessoal”. E quem não está neste caminho hoje em dia?

Cultura para acessar Cristo

O primeiro ponto trabalhado na carta é sobre fé e cultura, falando ao crente o quão indispensável é a literatura para não se fechar em um “solipsismo (conjunto de hábitos de um indivíduo solitário) ensurdecedor e fundamentalista que consiste em acreditar que uma certa gramática histórico-cultural tem a capacidade de exprimir toda a riqueza e profundidade do Evangelho. Muitas das profecias de desgraça que hoje tentam semear desespero radicam precisamente neste aspecto.” E a literatura ajuda a não cair nesta tentação porque o “contato com diferentes estilos literários e gramaticais permitirá sempre aprofundar a polifonia da Revelação, sem a empobrecer ou reduzir quer às próprias exigências históricas quer às próprias estruturas mentais.”

Traduzindo: quem procura ler (e mesmo assistir e escutar) coisas apenas supostamente seguras para sua fé e/ou que confirmam suas opiniões e visões de mundo, fecha-se em si de forma neurótica, dificultando, senão inviabilizando, o cumprimento do segundo mandamento divino. “Não é por acaso que o cristianismo primitivo tenha percebido bem a necessidade de uma relação estreita com a cultura clássica da época”, disse o Papa, apresentando outros exemplos disso, especialmente o de São Paulo: “Paulo recolhe as sementes da poesia pagã e, abandonando uma atitude anterior de profunda indignação (cf. At 17, 16), chega a reconhecer os atenienses como “os mais religiosos dos homens” e, naquelas páginas da literatura clássica deles, vê uma verdadeira preparatio evangelica.”

Ou seja, é preciso enxergar na cultura do tempo, por pior que pareça, um “caminho de acesso” ao Cristo. E o Papa acerta demais ao dizer que o grande desafio do cristão hoje não é responder ao ateísmo militante, mas “responder adequadamente à sede de Deus” que uma hora ou outra as pessoas sentirão, passando a procurá-Lo, sem saber que é isso que fazem, ao tentar encontrar um sentido para a vida, a realização de uma vocação, ou a própria felicidade não achada em remédios e drogas e vícios e hobbies de todos os tipos. É aí que a literatura tem um papel central para ajudar o cristão a compreender e dialogar com os sedentos por Deus.

Mas a carta não serve apenas aos cristãos e seu propósito evangelizador, o Papa também apresenta razões bem ao gosto da nossa cultura sobre o bem que a literatura faz a qualquer pessoa: “De um ponto de vista pragmático, muitos cientistas afirmam que o hábito de ler produz muitos efeitos positivos na vida de uma pessoa: ajuda-a a adquirir um vocabulário mais vasto e, consequentemente, a desenvolver vários aspectos da sua inteligência; estimula também a imaginação e a criatividade; simultaneamente, permite que as pessoas aprendam a exprimir as suas narrativas de uma forma mais rica; melhora também a capacidade de concentração, reduz os níveis de déficit cognitivo e acalma o stress e a ansiedade.”

Sentir com o coração do outro

Na segunda parte de seu escrito, o Papa se dedica a ir além, não falando apenas das utilidades pessoais da literatura, mas do mais essencial e que, sem isso, nenhuma daquelas utilidades servirá. Refiro-me à educação do coração pelo amor à literatura. É a melhor parte da carta e que se recomenda muito a leitura, especialmente aos que têm, na leitura, um hobby.

A literatura nos faz dar ouvidos ao outro, ver com seus olhos, sentir com seu coração. Ela educa nossa sensibilidade, muitas vezes a despertando: “Quando se lê uma história, graças à visão do autor, cada um imagina, à sua maneira, o choro de uma jovem abandonada, a idosa que cobre o corpo do neto adormecido, a paixão de um pequeno empreendedor que tenta ir adiante apesar das dificuldades, a humilhação de alguém que se sente criticado por todos, o rapaz que encontra no sonho a única saída para a dor de uma vida miserável e violenta. À medida que sentimos vestígios do nosso mundo interior no meio dessas histórias, tornamo-nos mais sensíveis às experiências dos outros, saímos de nós próprios para entrar nas suas profundezas, conseguimos compreender um pouco mais as suas lutas e desejos, vemos a realidade com os seus olhos e acabamos por nos tornar companheiros de viagem.”

Das passagens mais interessantes da carta é quando o Papa fala do quanto a leitura se torna um ginásio do discernimento, onde “se descortina o cenário do discernimento espiritual pessoal, onde não faltarão angústias e até crises. Com efeito, são numerosas as páginas literárias que podem responder à definição inaciana de ‘desolação’.”

Desolação que nada mais é do que aquela falta de sentido da vida citada acima. E, por isso, a literatura pode se tornar um caminho de acesso ao verdadeiro sentido da vida, revelando seu poder espiritual, o que significa dizer que ela desempenha um papel central na “educação do coração e da mente” não só dos pastores, mas também das ovelhas, especialmente as desgarradas.

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