Dólar acumula alta de 7% nos últimos dois meses.| Foto: Sebastião Moreira/EFE
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Não é apenas quem planeja viajar para o exterior nas férias que sentirá o impacto da alta do dólar, que subiu 7% em apenas dois meses e permanece acima de R$ 6 desde o fim de novembro, com apenas uma exceção – e de poucas horas – de lá para cá. O impacto é imediato e direto no bolso, apontam especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo.

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“Muitas vezes, a associação feita é: ‘Eu não estou viajando para fora, quem faz isso é rico, e só eles vão reclamar porque o câmbio está mais caro’. Isso é verdade, mas precisamos pensar também no impacto indireto, que é muito maior e afeta o dia a dia do brasileiro, deixando tudo mais caro”, explica Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos.

Ele lembra que muitos itens consumidos no Brasil contêm componentes importados ou são totalmente produzidos no exterior, o que faz com que os custos aumentem.

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A alta nos preços é mais sentida pela população de renda mais baixa. Segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), nos domícilios com rendimento mensal inferior a R$ 3.158,99, os preços subiram mais de 5% nos 12 meses encerrados em novembro, acima da inflação oficial de 4,87% no período.

Dólar em alta: comida mais cara

Os alimentos são um dos segmentos mais afetados pela desvalorização do real. Dados do IBGE mostram que, nos 12 meses até novembro, a alimentação no domicílio subiu 8,41%, a maior alta para o período desde fevereiro de 2023.

Apesar de o Brasil ser um dos maiores produtores de alimentos do mundo, muitos produtos, como soja e derivados, são negociados internacionalmente e sofrem com a valorização do dólar. Outros itens, como o trigo, dependem de importações, intensificando o aumento de preços.

Segundo o Centro de Estudos em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea-Esalq/USP, o fim da safra nacional de trigo levou os compradores a recorrerem mais aos fornecedores estrangeiros.

As cotações elevadas do dólar pressionam os custos de importação. “Como a oferta e a qualidade do produto estão menores nesta safra no Brasil, a necessidade de importação tende a aumentar”, destaca o centro de pesquisas.

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As carnes também seguem essa tendência: nos 12 meses até novembro, os preços aumentaram 15,43%, a maior alta desde outubro de 2021. Esse movimento é impulsionado pela oferta reduzida de animais para abate e pelo aumento das exportações. A tendência é de que esse cenário continue nos próximos meses.

"O aquecimento das exportações reduz a quantidade de carne disponível no mercado interno, pressionando os preços para cima", explica Anna Fercher, head de Customer Success e Insights da Neogrid. Mesmo assim, 70% da carne produzida no Brasil fica para consumo interno.

Até Papai Noel vai ser prejudicado

A ceia de Natal não está imune às pressões do dólar. Apesar de o bacalhau apresentar queda de preço em relação ao ano passado, outros componentes da cesta natalina registraram aumentos significativos.

Matheus Dias, economista do FGV Ibre, destaca: “Embora o bacalhau esteja mais barato que no ano passado, quando analisamos os outros componentes da cesta, observamos que a maioria apresentou aumentos expressivos".

"A combinação do dólar mais elevado por vários meses com uma produção reduzida de alguns alimentos ampliou o impacto no orçamento do consumidor. O azeite ilustra bem essa situação, pois ainda reflete os efeitos das quebras de safras anteriores na Europa e, como nossa produção nacional é insuficiente para atender à demanda, dependemos de importações que, com o dólar mais alto, acabam encarecendo o produto”, explica.

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Preço dos combustíveis fica mais pressionado

Outro ponto de preocupação são os derivados de petróleo, que são cotados em dólar no mercado internacional. De acordo com levantamento divulgado nesta sexta-feira (20) pela Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis, a gasolina apresenta uma defasagem de 5% e o diesel, de 14%.

A entidade informa que os preços de ambos estão sendo pressionados pelo mercado internacional e pela variação cambial.

Na primeira quinzena de dezembro, o diesel atingiu o maior preço médio anual nas bombas, enquanto a gasolina voltou a subir após três meses de estabilidade, conforme dados da Edenred Ticket Log.

Douglas Pina, diretor-geral de mobilidade da Edenred Brasil, explica que, apesar de a gasolina ter mantido preços elevados entre setembro e novembro, seu aumento recente, assim como o do etanol, é atribuído a fatores econômicos e logísticos, incluindo o aumento da demanda de transporte no fim do ano.

Em novembro, o preço médio do frete por quilômetro rodado atingiu seu maior nível de 2024, de acordo com a Edenred. Vinícios Fernandes, diretor da empresa, destaca que a alta da taxa Seilc e a desvalorização do real em relação ao dólar também contribuíram para o encarecimento dos insumos e custos operacionais do setor de transporte, refletindo nos preços do frete.

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Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo indicam que essa situação deve impactar os preços futuros. A consultoria de agronegócio Ido taú BBA projeta um aumento nos fretes agrícolas em 2025, quand o poderá haver uma safra recorde e uma concentração na demanda.

Comprar passagem aérea de última hora vai sair bem caro

Quem deixou para comprar passagens aéreas de última hora deverá pagara muito mais caro. Em novembro, os preços subiram 22,65%, segundo o IBGE, e a tendência é de que essa alta continue.

Um estudo do Livres, um movimento suprapartidário em defesa do liberalismo, revela que os custos das companhias aéreas brasileiras são majoritariamente dolarizados, incluindo despesas com leasing de aeronaves, manutenção e combustível.

Nos últimos dias, o dólar chegou a bater em R$ 6,30, o que pressiona diretamente os custos operacionais e, consequentemente, as tarifas cobradas dos consumidores.

O querosene de aviação (QAV), que representa cerca de 40% dos custos operacionais das companhias, também teve grandes aumentos, com alta de 50% desde 2020, impulsionada por crises internacionais, como a guerra na Ucrania.

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Indústria teme custos maiores com alta do dólar

A indústria é um setor que está preocupada com a situação do câmbio. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), apesar dos benefícios relacionados ao aumento de competitividade, a desvalorização também traz impactos negativos sobre o setor produtivo. Quase um quarto dos insumos utilizados no processo de produção é importado.

A avaliação da entidade empresarial é que, com o dólar mais alto, sobem também os custos para as empresas, podendo encarecer os preços para o consumidor final.

“A nossa moeda perde valor em compasso com a piora das expectativas do mercado financeiro, que contrariam dados reais da performance da economia e do controle da dívida pública. É momento de buscar maior convergência e coordenação entre os atores para enfrentar esse cenário de instabilidade, que beneficia a poucos enquanto prejudica o setor produtivo e o desenvolvimento da nossa sociedade, principalmente com a real perda de poder aquisitivo”, enfatiza o presidente da CNI, Ricardo Alban.

Economia aquecida ajuda a manter preços elevados

Um fator que contribui para manter os preços elevados é a economia aquecida. Pelo quarto ano consecutivo, a economia brasileira deve crescer a um ritmo próximo ou superior a 3%. O ponto médio (mediana) das expectativas para a expansão do PIB neste ano estava em 3,42% no início desta semana, de acordo com levantamento do boletim Focus, do BC. 

Cruz lembra que, nesse cenário, o repasse é mais rápido, porque o comerciante sente que a população está demandando seus produtos e ele pode aumentar um pouco o preço para comportar esse câmbio. “O impacto inflacionário é maior em momentos de economia mais aquecida”, diz.

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O Banco Central apontou, em seu último Relatório de Inflação, que a recuperação econômica e o aumento da demanda por bens duráveis podem gerar pressões inflacionárias, especialmente se a oferta não acompanhar a demanda. 

Uma estimativa da autoridade monetária aponta que um aumento de um ponto percentual na renda resulta em uma alta similar no consumo de duráveis. 

Mesmo nesse cenário mais inflacionário, a Kantar, consultoria de análise de mercado, projeta manutenção do crescimento do consumo em 2025, embora em ritmo menor. O Brasil deve puxar o ritmo da América Latina. 

“Apesar do crescimento mais lento, a demanda consistente em trimestres seguidos reflete a recuperação socioeconômica na maior parte da região e uma nova forma de comprar dos latinos”, diz a diretora de desenvolvimento de mercados para a América Latina, Marcela Botana. Na prática, isso se traduz em carrinhos de compras maiores (alta de 11% no terceiro trimestre de 2024 em comparação ao anterior) e na priorização de cestas básicas.

Impactos no cotidiano das pessoas

  • Alta nos preços de produtos importados: Eletrônicos, roupas, cosméticos e outros itens importados ficam mais caros, afetando o consumo.
  • Aumento no custo de viagens internacionais: Passagens aéreas, hospedagem e outros custos em dólar tornam viagens ao exterior menos acessíveis.
  • Encarecimento de medicamentos e insumos de saúde: Produtos farmacêuticos importados podem sofrer reajustes de preço.
  • Inflação nos alimentos: Produtos alimentícios com insumos importados, como trigo (base para pão e massas), ficam mais caros.
  • Pressão sobre o custo de vida: A alta do dólar eleva a inflação geral, corroendo o poder de compra das famílias.
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Impactos nas empresas

  • Aumento no custo de produção: Indústrias que dependem de insumos importados, como químicos e peças de maquinário, sofrem pressão nos custos.
  • Dívidas em moeda estrangeira: Empresas endividadas em dólar enfrentam maior dificuldade em pagar ou renegociar seus débitos.
  • Ganhos para exportadores: Empresas exportadoras, como as do agronegócio, se beneficiam com receitas maiores em reais.
  • Dificuldade em repassar custos: Empresas que não conseguem ajustar preços ao consumidor final podem ter margens de lucro reduzidas.

Impactos na economia nacional

  • Aumento do preço dos combustíveis: O petróleo é cotado em dólar, e sua alta pressiona o preço da gasolina e do diesel, impactando toda a cadeia produtiva.
  • Alta na inflação: A desvalorização do real aumenta o custo de produtos e serviços indexados ao dólar, pressionando o índice de preços.
  • Impacto no endividamento público: A dívida externa brasileira em dólar cresce em termos de reais, complicando o cenário fiscal.
  • Redução de investimentos externos: O dólar mais caro pode refletir instabilidade econômica, afastando investidores estrangeiros.
Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]