
O aposentado Antônio Dönatz Ribeiro da Silva comprou uma briga com o posto em que abastece o carro há mais de uma década, no bairro Bacacheri: denunciou o estabelecimento na Agência Nacional do Petróleo (ANP), por não ter conseguido fazer o teste que comprova o porcentual de álcool na gasolina. "Quando pedi, o frentista me encarou como se eu tivesse xingado a mãe dele. Me deixaram esperando pelo gerente por mais de 15 minutos. Quando fui até a sala dele, o encontrei conferindo papéis", diz ele, que desistiu de esperar.
Os postos de combustíveis são obrigados por lei a testar o teor de álcool na gasolina, na frente do consumidor, sempre que solicitado. A aferição, mais conhecida como teste da proveta, indica se o combustível não foi fraudado, com uma mistura de álcool acima da permitida pelos Ministérios da Agricultura e Fazenda, atualmente estipulada em 23% a partir do dia 1.º ela passa a 25%. Apesar da obrigatoriedade, a receptividade dos postos à solicitação dos clientes não é das melhores.
A partir da reclamação de Silva, a Gazeta do Povo resolveu checar o comportamento de funcionários e proprietários de postos de combustíveis da região de Curitiba diante de solicitação semelhante. Foram percorridos 10 postos sete na capital e três na região metropolitana e, na maioria dos casos, o teste não era feito sem que o pedido passasse por umas três pessoas do posto, incluindo o gerente.
"Para quê?", foi a pergunta feita pelo funcionário deslocado para fazer o teste, no posto freqüentado pelo aposentado, quando a reportagem, sem se identificar, solicitou o teste. Apesar do questionamento é um direito, e o consumidor não precisa se justificar , não foi necessário aguardar muito tempo para que se iniciasse o teste, que chegou a ser repetido três vezes, até que o equipamento ficasse mais limpo. No caso da reclamação de Silva, o gerente do posto, Albani Paz, garante que houve um exagero por parte do consumidor. "Ele mal esperou cinco minutos e já foi invadindo minha sala, impaciente."
Mas não é difícil imaginar que a reação inicial do frentista, ao atender o aposentado, não tenha sido das mais simpáticas. Os postos não negam o teste, mas também não agem como se fosse natural o consumidor perguntar por ele. Somente um estabelecimento, em Colombo, não fez a aferição, com a justificativa de que o gerente havia saído e trancado a sala onde estavam os equipamentos.
Em Piraquara único local onde o pedido de teste foi atendido de imediato, sem passar por mais de um atendente o gerente fez questão de falar, de maneira ríspida, que não tinha o que temer, pois comprava o combustível da Petrobrás. Em um posto da Cidade Industrial, um frentista chegou a comentar que se todos os consumidores pedissem o teste, eles não conseguiriam trabalhar.
A raridade com que o teste da proveta é pedido pelo consumidor faz com que qualquer solicitação seja vista com desconfiança. "O consumidor, apesar de gastar boa parte de sua renda no posto de gasolina, costuma chegar, abastecer e ir embora, sem a preocupação com a qualidade do que está comprando. Já se ele vai comprar um aparelho eletrônico, por exemplo, pede para testar antes de levar para casa", compara o presidente do Sindicombustíveis, que representa os postos, Roberto Fregonese.
Não é à toa que a gerente de um posto de bandeira pouco conhecida, na Fazendinha, demonstrasse preocupação com a solicitação do teste. "Mas vocês já abasteceram aqui e tiveram algum problema?", perguntou a moça. Exemplo atípico foi o do posto do Boqueirão, em que o gerente não só fez o teste, mas também mostrou, por conta própria, as notas fiscais de compra da gasolina na distribuidora e as amostras de testes de gasolina feitos sempre que uma nova carga chega.



