Lojas Omar contratarão tantos temporários quanto em 2012. “Lembrancinhas” devem puxar bicos no comércio| Foto: Daniel Castellano/ Gazeta do Povo

Caged

PR tem melhor setembro em 5 anos

Reuters e Agência Estado

A maior oferta de vagas no setor serviços e na indústria impulsionou o mercado de trabalho no Brasil, levando o país a registrar a abertura de 211.068 vagas em setembro, no melhor desempenho mensal desde maio de 2012, na série sem ajustes.

De acordo com dados do Cadastro Geral de Em­pregados e Desem­pregados (Caged), divulgados pelo Ministério do Trabalho ontem, a oferta de vagas no mês passado ficou 40% acima das 150.334 postos abertos em igual mês do ano passado, também considerando os números sem ajustes. Entre os analistas, a expectativa era bem menor, para a criação de uma média de 148 mil vagas.

A melhora na geração de vagas com carteira assinada foi puxada pelo setor serviços, que em setembro contratou 70.597 pessoas. A indústria da transformação também mostrou bons resultados, com 63.276 novos empregados, seguida do comércio (53.845) e da construção civil (29.779). Os resultados só não foram melhores porque a agropecuária registrou demissão líquida de 10.169 trabalhadores. No acumulado do ano até setembro, o mercado formal de trabalho registrou contratação líquida de 1.037.752 de trabalhadores.

Para a LCA Consultores, o arrefecimento da inflação ajudou a impulsionar o mercado de trabalho. Pelo IPCA, na leitura do acumulado de 12 meses, a inflação caiu de 6,70% no período encerrado em julho para 5,86% em 12 meses encerrados em setembro. "É lógico que a inflação ainda continua muito alta, o que prejudica o ganho de rendimentos, mas a coisa já esteve muito pior", ressalta o economista da LCA Fábio Romão.

Paraná

O estado teve seu melhor setembro em cinco anos, com a geração de 15.925 empregos com carteira assinada, crescimento de 0,6% sobre agosto deste ano. O Paraná também apresentou o melhor desempenho do Sul do país. Os setores que mais puxaram o resultado foram serviços (5.708 postos), comércio (5.586) e indústria da transformação (3.506). Só a Região Metropolitana de Curitiba foi responsável pela criação de 6.064 empregos formais, um aumento de 0,57% em relação a agosto.

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O bico formal de fim de ano estará menos acessível aos paranaenses em 2013, repetindo a tendência nacional que já aparece em estudos de expectativas feitos por entidades empresariais. Mas o emprego temporário no Estado será marcado pela rara soma de baixas expectativas de vendas com um mercado de trabalho tão aquecido que permite a candidatos escolher vagas. Ou seja, o cenário é de mais vagas efetivas do que temporárias, na contramão do cronograma tradicional do mercado.

INFOGRÁFICO: Criação de vagas com carteira assinada atingiu o melhor número para um mês desde maio de 2012

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Agências de recrutamento sentem os efeitos: comércio e serviços adiando contratações de temporários e indústria mais criteriosa nas seleções. O gerente comercial da RH Curitiba, Adriano Bunhak, arrisca que a temporada de bicos começará apenas em meados de novembro. "A indústria está produzindo pouco porque sabe que o consumidor está endividado, e há dificuldade de achar mão de obra. Juntou tudo e ficou um ano atípico", afirma. A opinião coincide com a de outras três agenciadoras consultadas pela Gazeta – Precision RH, Imediatta e RH Brasil. "Este ano está devagar [a oferta de temporários]. Para se ter ideia, estou com vagas efetivas de servente e carpinteiro para uma construtora, cargos que costumam ser temporários; acabada a obra, seriam dispensados", afirma Kátia dos Santos Silva, da Imediatta.

Desde julho a contratação de temporários está a cargo da indústria – em especial a alimentícia e de cosméticos. Mas o setor deve fechar a porteira no próximo mês. Segundo o economista Roberto Zürcher, da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), depois de novembro apenas um ramo contrata temporários: o de alimentos da época, como chocolates e panetones. "Esses precisam porque têm vendas concentradas e tratam de um produto perecível", afirma.

Freio puxado

Um indício de que o fim do ano não estará para bicos no Paraná veio em setembro, com a pesquisa anual da Federação do Comércio para apurar a expectativa do empresariado de comércio, turismo e serviços. A perspectiva de 1,5 mil empresários aponta que os cerca de 32 mil empregos esperados em 2012 não passarão de 15 mil neste ano. No país, a perspectiva é de empregos de qualidade mais baixa, afirma pesquisa da SPC Brasil: 43% dos empresários admitiram que não devem assinar a carteira de trabalho dos temporários.

Candidatos devem ficar de olho em ramos que precisam contratar. É o caso das lojas de "lem­brancinhas", como calçados e vestuário. Luiz Henrique Linhares, gerente comercial da rede Omar Calçados, diz que o grupo deve contratar tanto quanto no ano passado, apesar de não esperar muito das vendas. "Deixar as pessoas sem atendimento faz tudo cair ainda mais", afirma.

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Concorrência

Pensando no fim de semana, trabalhadoras trocam comércio por fábricas

Outro fenômeno no mercado do trabalho temporário paranaense já aparece na fala de entidades empresariais e agências de RH: as mulheres têm buscado mais o trabalho na indústria, em detrimento das vagas em comércio e serviços. "Os trabalhadores, principalmente mulheres, não têm mais interesse em trabalhar nos fins de semana. Estão preferindo as indústrias. Isso dificulta mais ainda a contratação da mão de obra no comércio", afirma Claudio Shimoyama, economista da Associação Comercial do Paraná (ACP).

A procura de mulheres por vagas na indústria tem um empecilho, afirma a psicóloga Cláudia Maria Bulotas de Macedo, da Precision RH. "Temos um certo número de vagas de produção, mas existe limitação na contratação: as empresas preferem homens, só que o número de mulheres dispostas é bem maior", diz ela, citando preocupação das empresas sobre responsabilidade trabalhistas (principalmente licença-maternidade) e pelo perfil-padrão para trabalhos pesados.

Cautela

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O economista Roberto Zürcher, da Fiep, confirma que empresas paranaenses estão menos propensas a contratar temporários e mais cautelosas ao selecionar efetivos. "A indústria precisa qualificar o trabalhador", explica ele, destacando que o custo do treino configura prejuízo quando a empresa perde o empregado para outras propostas. Até agora, lembra ele, a indústria e o agronegócio alavancaram a criação de empregos no Estado. De janeiro a agosto, a indústria de transformação respondeu por 28% dos quase 99,7 mil empregos criados no Paraná. Resta saber como o mercado de trabalho deve se comportar a partir de dezembro, quando o setor começa a fazer ajustes nos quadros funcionais.