
A demissão anunciada do primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, não reduziu a desconfiança dos investidores em relação aos títulos da dívida soberana do país. Ontem, as obrigações italianas com validade de dez anos foram refinanciadas nos mercados com juros de 7,48% recorde histórico, considerado insustentável no longo prazo, já que Portugal e Irlanda precisaram de ajuda quando o mercado passou a exigir mais de 7% em seus títulos. As bolsas de valores também foram castigadas.
A tensão nos mercados contrariou o discurso de analistas políticos e econômicos, que apostavam na redução da pressão dos investidores depois da demissão de Berlusconi apontado na União Europeia como a maior fonte de crise na Itália. A realidade, entretanto, se mostrou diferente. Depois de terem fechado em 6,8% na noite de terça-feira, os juros cobrados pelos bônus do tesouro italiano com validade de dez anos chegaram a 7,6% ao meio-dia de ontem, recuando a 7,48% ao fim das transações, mesmo com a intervenção do Banco Central Europeu (BCE), que voltou a comprar obrigações, sem, porém, evitar a elevação.
Além da crise política aberta pela renúncia de Berlusconi, o pessimismo foi causado pela informação de que um eventual socorro da Itália poderia custar ao Fundo de Estabilidade Financeira Europeia (EFSF) e ao Fundo Monetário Internacional (FMI) 1,4 trilhão de euros, dinheiro de que os fundos não dispõem. De acordo com Gary Jenkins, da consultoria Evolution Securities, de Londres, o cálculo é baseado nos custos dos pacotes da Grécia, da Irlanda e de Portugal, além dos programas de compra de dívidas do BCE tudo somando 512 bilhões de euros. "Então se deve multiplicar por 2,7 para estimar o custo do socorro à Itália", explicou.
Uma das fontes de preocupação na Itália é a falta de definição sobre o sucessor de Berlusconi até a noite de ontem nenhuma definição havia sido encaminhada. A situação levou o presidente, Giorgio Napolitano, a pedir agilidade aos líderes políticos, ressaltando que o país precisa recuperar a credibilidade. Ontem, o ministro das Finanças, Giulio Tremonti, e o vice-primeiro-ministro, Gianni Letta, visitaram Napolitano e "ilustraram as medidas do governo" que fazem parte de um pacote de austeridade e reforma econômica, incluído no orçamento de 2012 e que deverá ser votado no Senado e na Câmara dos Deputados na próxima semana.
Embora a Itália apresente orçamentos equilibrados há 16 anos, a dívida do país chega a 121% do PIB, ou 1,9 trilhão de euros. Os dois planos de austeridade anunciados até aqui por Berlusconi o primeiro em julho, de 47,5 bilhões de euros, e um segundo em setembro, de 54,2 bilhões de euros , não foram suficientes para acalmar os investidores.