Ainda que o governo federal tenha se apoiado na alta lucratividade do setor bancário para declarar guerra ao chamado spread diferença entre o que os bancos gastam para captar recursos e o quanto cobram para emprestá-los aos clientes , não deve se furtar de resolver a questão da inadimplência e da tributação do sistema, que ajudam a pressionar as taxas para cima.
Mesmo que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, diga que as instituições não precisam de mudanças no sistema financeiro para baixarem suas taxas, analistas avaliam que o governo tem, sim, de fazer sua parte.
"O governo tem todo o direito de discutir a alta lucratividade do setor bancário, mas não pode se furtar de resolver parte do problema do spread que também lhe cabe: a inadimplência e a tributação dos empréstimos. Se isso não for feito, a pressão por meio da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil é marginal, não uma revolução", observa o professor do Ibmec Belo Horizonte Reinaldo Nogueira. A inadimplência corresponde a um terço do spread e os tributos, a pouco mais de 20%, segundo dados do Banco Central referentes a 2010.
O que as instituições privadas pedem, basicamente, é a possibilidade de poder executar dívidas mais rapidamente, retomando bens de forma mais fácil e ampliando condições facilitadas à renegociação de dívidas. Hoje, os débitos de até R$ 30 mil em renegociação têm os impostos parcelados junto com as novas prestações. Acima desse valor, o imposto é cobrado integralmente no início da renegociação. Não há qualquer posicionamento oficial até o momento, por parte de Mantega e sua equipe, de que as reivindicações apresentadas pela Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) foram levadas a sério e servirão de base para alguma mudança mais estrutural do sistema financeiro.
Só no começo
Para o vice-presidente da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel Ribeiro de Oliveira, a redução das taxas, tanto pelos bancos públicos quanto pelos privados, está apenas no começo. Depois de BB, Caixa e HSBC, ontem Santander, Bradesco e Itaú Unibanco esses dois últimos os maiores bancos privados do país também reduziram as taxas de algumas linhas para pessoa física e jurídica.
"A competição entre as instituições ainda vai levar essas taxas mais para baixo. Isso porque os juros médios e máximos ainda continuam altos, apesar das diminuições das taxas mínimas anunciadas nas últimas semanas", avalia. Segundo dados do BC relativos ao dia 4 deste mês, embora o Banco do Brasil trabalhe agora com uma taxa inicial de 0,85% a.m. para o crédito pessoal, sua média é de 2,61%. "A pergunta é que consumidor, efetivamente, consegue emprestar pelas taxas mais baixas das instituições?", pontua o professor do Ibmec de Belo Horizonte Reginaldo Nogueira.
Para quem está prestes a assinar um empréstimo ou um financiamento de automóvel, a dica é esperar um pouco mais. "Aguarde a incorporação das novas taxas pelas instituições na próxima semana e compare as linhas novamente. Se fechar agora não terá acesso às taxas mais baixas, mesmo que a redução valha a partir do dia seguinte", recomenda Nogueira.