A mudança da política de preços da Petrobras, anunciada em fato relevante na sexta-feira (5) – mas na verdade realizada ainda no primeiro semestre de 2020 –, pegou o mercado de surpresa e levantou dúvidas sobre a transparência da decisão, que, ao contrário de outras alterações feitas pela companhia desde 2019, não foi comunicada ao mercado.
No domingo (7), a estatal reafirmou que os preços da refinaria continuam alinhados ao mercado internacional e com o dólar, como já tinha dito na sexta-feira, e disse que notícia da suposta mudança na política comercial foi um equívoco da imprensa. “A manutenção da periodicidade de aferição da aderência entre o preço realizado e o preço internacional, adotada desde junho de 2020 e confirmada em janeiro de 2021, foi comunicada equivocadamente pela imprensa como alteração da política comercial da companhia”, informou a empresa.
Apesar desse novo comunicado, segundo o portal "Infomoney" ao menos duas casas de investimentos "rebaixaram" a recomendação das ações da companhia, de "compra" para "neutra": Bradesco BBI e XP Investimentos.
"Embora a Petrobras controle o ‘timing’ de seus ajustes de preço do diesel, a situação com os motoristas de caminhão nos faz acreditar que esse ‘timing’ poderia não estar de acordo com as expectativas dos acionistas”, escreveram analistas do BBI, que rebaixaram de R$ 37 para R$ 34 o preço-alvo das ações preferenciais (PETR4).
No caso da XP, o preço-alvo tanto das ações preferenciais quanto das ordinárias (PETR3) de R$ 35 para R$ 32. "Nossa mudança de recomendação reflete essencialmente a nossa visão de que existem riscos cada vez mais elevados de que a política de preços de combustíveis da Petrobras não obedeça a referências internacionais de preços de combustíveis, além de uma margem adicional para custos de importação", escreveram analistas.
Às 10h12, as ações ordinárias da empresa subiam 0,16%, cotadas a R$ 29,73. As preferenciais caíram 0,99% às 10h19, cotadas a R$ 28,73.
Petrobras só emitiu fato relevante após notícia de agência
A Petrobras só emitiu fatos relevantes sobre a questão da política de preços após a informação ter sido revelada pela agência Reuters, na tarde de sexta-feira.
O primeiro documento foi divulgado na própria sexta-feira. Nele, a estatal admitiu que alterou a política de preços de trimestral para anual "estritamente para fins de gestão e diagnóstico interno" em março de 2020, mas que isso nada interfere nas decisões sobre ajuste de preços, que continuam a seguir a paridade internacional. A empresa alega que "não divulga os detalhes de sua política de preços em razão de sensibilidade comercial".
"Em 2019, estabeleceu-se indicador gerencial com apuração trimestral. Em 2020, dada a volatilidade dos preços internacionais e da taxa de câmbio, esse indicador passou a ser anual, sem impacto nas decisões de preços", explicou a Petrobras em nota. "Prova disso é que a mudança foi implantada em junho de 2020, sem que tivesse sido observado maior espaçamento nos reajustes de preço. Após a revisão de junho, por exemplo, foram aplicados 22 reajustes de gasolina (9 reduções e 13 aumentos) e 18 reajustes no diesel (4 reduções e 14 aumentos)", reforçou a estatal.
Apesar disso, pelo menos em duas ocasiões a companhia avisou de outras mudanças na política de preços. Em março de 2019, informou que o diesel não teria ajuste no prazo inferior de 15 dias; e em junho do mesmo ano avisou que não teria mais periodicidade para ajustes nos preços do óleo diesel e gasolina.
A notícia teve ainda mais peso por ocorrer horas depois de o presidente Jair Bolsonaro ter reafirmado a independência da empresa em sua política de preços, e em meio à insatisfação dos caminhoneiros em relação à alta do diesel.
Para o presidente da Associação dos Acionistas Minoritários (Aidmin), Aurélio Valporto, a empresa escondeu a informação e deveria ter publicado fato relevante na época da mudança. Valporto avalia que a decisão foi tomada no início da pandemia para evitar repassar a forte queda do preço do petróleo no mercado internacional, que chegou a ser cotado a US$ 20 o barril em abril do ano passado.
Preços dos combustíveis estão defasados em relação ao exterior
"Na época, o combustível deveria ser mais barato do que foi no Brasil. Eles devem ter pensado que se continuassem a seguir essa política (trimestral) poderiam ter prejuízo. Reduziram o preço dos combustíveis, mas não na mesma proporção que o mercado externo", disse Valporto.
Para o analista de petróleo e gás da consultoria StoneX, Thadeu Silva, o aumento de prazo para avaliação de ajustes pode ser uma política danosa para a empresa, principalmente diante dos preços defasados que mantém no mercado interno: "Ela não comunicou ao mercado. Do ponto de vista econômico o prazo de até 12 meses para seguir o preço internacional, é um prazo muito longo, não existe isso no mercado".
Segundo Silva, com os preços defasados atuais, a estatal é obrigada a abastecer todo o mercado com prejuízo. "Ela [Petrobras] falar que está seguindo o mercado internacional em até 12 meses é a mesma política da Dilma (Rousseff, ex-presidente da República). Vai reajustar o preço de vez em nunca, e é um mercado grande, que está crescendo, e vai ter de importar mais", explicou.
Depois de forte queda na pandemia, o mercado de petróleo tem registrado sucessivas altas, e na sexta-feira fechou a US$ 55 por barril do tipo Brent, influenciado pela expectativa de uma nova rodada de estímulos fiscais nos Estados Unidos.
O presidente da Associação dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araújo, há meses reclama da falta de paridade dos preços da estatal com o mercado externo. Segundo ele, os últimos valores apurados mostram que para se equiparar ao mercado internacional a gasolina deveria estar R$ 0,19 por litro mais cara, e o litro do diesel teria de subir R$ 0,36.
"Com a confissão feita pela Petrobras, considerando os fatos relevantes, o Conselho de Administração não pode deixar de se posicionar. Afinal, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) deve estar atenta às condutas e aos impactos gerados para os acionistas e ao mercado em geral", diz.
Ações da Petrobras tiveram dia de montanha-russa
Para o analista da Mirae Asset Pedro Galdi, o mercado vai absorver bem a mudança de estratégia da companhia, mesmo que tenha sido pego de surpresa, respaldados pelo aumento de produção no pré-sal e da alta do preço do petróleo, que segundo ele pode chegar a US$ 60 o barril: "O pessoal pode ficar desconfiado, já que a mudança veio em cima da hora de ameaça de greve de caminhoneiros. Vejo o anúncio mais como uma forma de acalmar o mercado, mas sem impor perdas para a Petrobras".
Na sexta-feira, a notícia da mudança de política derrubou, no espaço de uma hora, as ações ordinárias da estatal em 4,5% e as preferenciais, em 3,7%. No final do pregão, no entanto, após o fato relevante daquele dia, elas subiram e fecharam em alta de 1,40% e 0,69% respectivamente.
Escalada internacional do embate entre Moraes e direita evoca sanções inéditas ao juiz
Desaprovação ao governo Lula dispara enquanto Tarcisio cresce para 2026; acompanhe o Entrelinhas
Congressistas dos EUA votam proposta que pode barrar entrada de Moraes no país
Mudanças em ministérios indicam guinada do governo para petismo ideológico
Reforma tributária promete simplificar impostos, mas Congresso tem nós a desatar
Índia cresce mais que a China: será a nova locomotiva do mundo?
Lula quer resgatar velha Petrobras para tocar projetos de interesse do governo
O que esperar do futuro da Petrobras nas mãos da nova presidente; ouça o podcast