As fortes oscilações do dólar, a súbita escassez de linhas de crédito para exportação e os temores em relação ao desempenho da economia nos próximos meses derrubaram em cerca de 25% o volume de cargas transportadas por contêineres em outubro, na comparação com setembro. A julgar pelos relatos de transportadoras paranaenses, as conseqüências da crise internacional de crédito, que estourou há pouco menos de 40 dias, devem começar a afetar os dados da balança comercial paranaense, que até o mês passado atingiam recordes históricos.
"Os números de outubro ainda são preliminares, mas apontam para uma redução de 25% no volume de cargas que transportamos, entre importações e exportações", diz Fábio Vieira, gerente da Regional Sul da Wilson, Sons Logística, especializada no transporte de contêineres. "O comprador estrangeiro viu o dólar subir de R$ 1,60 para até R$ 2,40 em questão de dias, e optou por segurar suas compras, limitando-as ao essencial. No caso dos exportadores, há toda essa dificuldade com os contratos de crédito para exportação, que estão mais escassos e caros. Temos um cliente do setor de couros que, por causa disso, reduziu suas vendas ao exterior em mais de 80% nas últimas semanas."
Fernando Klein Nunes, presidente do sindicato das transportadoras do estado (Setcepar), explica que, no caso das cargas gerais para o mercado interno, o reflexo da crise ainda é limitado. No mercado interno, há uma queda inferior a 10% nas encomendas de fabricantes de autopeças, possivelmente em função das férias coletivas concedidas por algumas montadoras (veja texto nesta página). Mas, nos demais segmentos, o impacto negativo da crise pode estar sendo compensado por um aumento sazonal no volume transportado, em função da proximidade do Natal. O diretor da Transportes Diamante, Gilberto Cantu, confirma que a empresa que transporta principalmente cosméticos, vinhos e medicamentos não notou queda no movimento.
Embalagens
A avaliação dos transportadores em relação ao desempenho do mercado interno é semelhante à de um dos segmentos mais sensíveis às variações da atividade econômica o da fabricação de embalagens para a indústria. "O ritmo ainda não diminuiu, mas certamente vai cair. Nosso setor deve se manter aquecido até o fim do ano, até porque boa parte da produção já estava contratada. Mas o primeiro trimestre de 2009 vai ser bem mais difícil", diz Humberto de Ramos Cabral, diretor da curitibana Embafort, que tem como principais clientes os segmentos automotivo, metal-mecânico, eletrônico, de refrigeração e alimentos.
Suas embalagens "acompanham" produtos brasileiros a mais de 100 países e, por isso, a companhia deve ser afetada em caso de queda das exportações. Mas o empresário prega que é preciso não se render à "neura" da crise: "Os importadores não podem parar de gastar de um dia para o outro, e cada país sofrerá de formas diferentes com a crise. E, se o mercado externo realmente sofrer bastante, temos que nos concentrar no mercado interno. O que não pode é cair na neura e ficar paralisado."
Caminhão mais caro
Além da queda na movimentação de cargas de exportação e importação, o reflexo mais relevante para o setor de transporte, segundo Nunes, do Setcepar, está nas taxas cobradas para a compra de caminhões. "O juro do contrato de leasing disparou de cerca de 1,25% para 1,75% ao mês. Na linha Finame, que tem juros subsidiados pelo governo [6,25% ao ano], o problema está na taxa que os bancos cobram para liberar a operação. Ela dobrou, de 2% para 4% do valor financiado."