Benito Mussolini e Adolf Hitler. Foto: Wikimedia Commons.| Foto:

Um fato recente na pequena cidade de Predappio, a cerca de 90 km de Bolonha, na Itália, resume bem o zeitgest do país europeu atualmente: município onde nasceu e foi sepultado o ditador Benito Mussolini, Predappio se tornou um local de peregrinação para neofascistas.

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Para contornar a polêmica situação, com o intuito de chamar a atenção dos saudosistas para a repressão vivida na época, está prevista a construção de um “Museu do Fascismo”. O temor, entretanto, é que o tiro saia pela culatra e traga ainda mais holofotes para o local. “Não acredito que criar um museu ali seja suficiente para curar os fanáticos por Mussolini”, afirma o historiador Emilio Gentile, considerado o maior especialista ainda vivo quando o assunto é fascismo.

Problema histórico

A nostalgia do fascismo e de Mussolini (ou Il Duce, como era conhecido) não é um fenômeno recente e faz parte da Itália desde o pós-Segunda Guerra Mundial. “Sentimentos positivos sobre Mussolini sempre estiveram presentes na Itália entre uma minoria de nostalgici ou jovens com uma imagem mítica do Duce e da época fascista como um período de grandeza para a nação. Mas esse sentimento não é generalizado, embora às vezes haja episódios de manifestações neofascistas”, explica Emilio.

Para educar as crianças sobre o passado ditatorial, os manuais escolares italianos procuram manter uma visão crítica sobre o período. “Os textos geralmente fornecem uma cobertura adequada da época de repressão e não omitem informações”, relata Anne Wingerten, doutora em História Moderna da Europa e professora do departamento de história na Universidade Loyola de Chicago. “Nas escolas, Mussolini está presente, de modo geral, a partir de uma perspectiva muito crítica como parte da história italiana”, completa Gentile.

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Questão estrutural

O que acontece, de acordo com Antonio Brusa, professor de História da Educação na Universidade de Bari, é que geralmente não há tempo suficiente para estudar a história do século 20 a fundo. “Até 1960, os currículos escolares não abordavam o fascismo porque acreditava-se que era um fenômeno muito recente para ser estudado de modo objetivo. Depois disso, começou a ser ensinado o período inicial do fascismo e o tema ganhou força nas escolas a partir de meados da década de 1990. Só que toda a questão da memória do fascismo não chega a ser abordada”, critica.

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Giulia Albanese, professora do departamento de História da Universidade de Pádua, corrobora a tese de Brusa: “Deveriam existir mais horas de ensino de história na Itália, principalmente a do século 20. E, pelo contrário, nos últimos anos, as horas destinadas à educação e reflexão sobre o tema estão cada vez menores”, afirma.

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Esforço contínuo

Mesmo assim, investir em uma abordagem crítica nas escolas ou até mesmo na existência de uma lei que supostamente criminaliza qualquer apologia ao fascismo (como a criada em 1952), não impediu que o período voltasse a ser visto com “bons olhos” por alguns italianos. “Durante o governo de Silvio Berlusconi [eleito pela primeira vez em 1994], teve início uma tendência de apresentar uma imagem benigna do regime ditatorial por meio de memórias, biografias e declarações positivas de políticos, incluindo Berlusconi, sobre o fascismo”, afirma Anne Wingerten.

O problema, segundo ela, é que nunca houve um esforço contínuo para apagar os rastros do fascismo de dentro das instituições públicas italianas. “Ao contrário das ações de desnazificação [processo para eliminar os resquícios nazistas da sociedade, cultura, política e imprensa alemãs] empreendidas na Alemanha Ocidental após a Segunda Guerra”, afirma. Na verdade, antigos oficiais fascistas e seguidores de Mussolini continuaram no poder italiano após a queda do regime com a criação do partido Movimento Social Italiano-Direita Nacional (MSI), em 1946, e sua transformação para a Aliança Nacional (AN), em 1995 – que, inclusive, participou da coalizão governista na era Berlusconi.

“Mas não é o fascismo ou Mussolini que estão crescendo atualmente na Itália e, sim, o desejo de um ‘homem forte’ capaz de fazer um governo estável e proporcionar segurança e ordem às pessoas que temem uma ‘invasão’ de imigrantes e criminosos”, critica Emilio Gentile. “O mesmo ocorre em muitos países ocidentais. Hoje em dia, o verdadeiro perigo é a crescente percepção do regime democrático como corrupto e longe das necessidades reais do povo”, completa.

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Para a pesquisadora Anne Wingerten, a simpatia pelo autoritarismo na Itália também tem crescido devido ao ambiente de “enfraquecimento sistemático da mídia e da autoridade acadêmica”. “Regularmente, os políticos sugerem que fatos históricos reconhecidos pelo mundo inteiro são falsos. Assim, apresentam suas próprias evocações positivas de Mussolini ou do fascismo como ‘correções’. E as mídias sociais amplificam esses discursos”, pondera.

Essas narrativas surgem, segundo ela, em meio a políticos que alimentam o medo dos indivíduos, incitando o nacionalismo violento em decorrência de vários acontecimentos, como o mercado de trabalho pouco favorável atualmente e a existência de empregos que, quando disponíveis, são, em sua maioria, precários. “A população italiana tem se sentido ameaçada pela globalização e a perda das tradições. Há uma sensação de que a cultura e a sociedade estão mudando rapidamente. Acrescente a isso o fato de que a Itália é a maior porta de entrada da União Europeia para imigrantes e refugiados. Tudo isso cria ansiedade nas pessoas e os políticos de extrema-direita sabem utilizar a seu favor”, diz.

Outro elemento igualmente importante nesta equação é o fato de que a memória do fascismo e da resistência antifascista está cada vez mais distante, já que as novas gerações não vivenciaram o período. “É neste momento que o Estado precisa agir, pois há uma responsabilidade de cultivar a memória pública, principalmente a partir das escolas, museus e memoriais”, afirma Wingerten. “Saber a história do nosso país é a chave para entender o presente e planejar o futuro. É muito simples dizer que a história sempre se repete, mas é inegável que os seres humanos respondem de maneiras semelhantes em circunstâncias similares”, completa.

Para os pesquisadores, o ensino da história ajudaria a compreender as consequências de dar poder nas mãos de extremistas na falsa esperança de que eles tenham simples soluções para os problemas complexos que a sociedade enfrenta hoje.

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“O fascismo na Itália não surgiu do nada. Isso deveria servir como um sinal de alerta para quem acredita piamente que as instituições são inabaláveis ou que ‘nada disso aconteceria aqui’”, alerta a professora Anne Wingerten. “Meus alunos ficam muito surpresos quando aprendem sobre a violência, a discriminação de raça e os crimes de guerra cometidos durante o período fascista”, conta o professor de ensino secundário Paolo Ceccoli, vice-presidente da Associação Europeia de Educadores de História (Euroclio). “Deveria existir um esforço público para ensinar o fascismo de uma forma mais ampla fora da sala de aula, com a divulgação de documentários, livros e artigos de estudiosos. A imprensa e as redes sociais também precisam começar a veicular a real dimensão do regime fascista”, finaliza.

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