Primeiro turno das eleições municipais será em 6 de outubro| Foto: Nelson Jr./TSE
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Posicionados como sucessores naturais dos prefeitos, vices-prefeitos que assumiram o comando de prefeituras importantes do país buscam, nas eleições deste ano, manter o capital político herdado de antecessores que já não podem mais disputar ou que faleceram durante o mandato.

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O caso do atual prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), é um dos destaques. Em 2021, ele substituiu o então prefeito Bruno Covas (PSDB), falecido em decorrência de um câncer no aparelho digestivo. Desde então, Nunes procura manter os mais de 3 milhões de votos recebidos pela chapa em 2020. Na época, Covas disputou com Guilherme Boulos (Psol), que agora volta à disputa pela maior prefeitura do país.

Desde então, Nunes precisou formar alianças com a direita para manter a governabilidade e se contrapor ao crescimento da esquerda na capital paulista. Em 2022, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi o candidato mais votado para a Presidência da República em São Paulo (SP). Ele recebeu 3.677.921 votos, o equivalente a 53,54% do total da cidade. Jair Bolsonaro (PL) foi a escolha de 46,46% dos eleitores, recebendo 3.191.484 votos.

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Pesquisas recentes de intenção de voto mostram o tamanho do desafio. Apesar de estar com a máquina pública a seu favor, Nunes se encontra tecnicamente empatado com Boulos e Pablo Marçal (PRTB). Segundo levantamento do instituto Real Time Big Data*, divulgado na última terça-feira (3), o candidato Pablo Marçal (PRTB) possui 21% da preferência do eleitor, enquanto Nunes e Boulos alcançam 20% cada um. Os três estão empatados dentro da margem de erro do levantamento, que é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos.

Atuais prefeitos de Goiânia e Belo Horizonte também enfrentam dificuldades nas campanhas

Em Goiânia (GO), a situação é semelhante à de São Paulo. O atual prefeito, Rogério Cruz (Solidariedade), assumiu o cargo em janeiro de 2021 após a morte de Maguito Vilela (MDB), que encabeçou a chapa em 2020. A dupla recebeu 277.497 votos, e Vilela chegou a tomar posse de forma virtual. No entanto, licenciou-se do cargo para tratar da saúde. Com o falecimento dele, ocorrido no dia 13 de janeiro do mesmo ano, o vice assumiu a administração.

Apesar de estar no cargo desde o início do mandato, a popularidade do gestor se encontra em queda. Dentre os fatores avaliados para essa situação está a operação da Polícia Civil, em junho deste ano, que investigou fraudes em contratos da Secretaria de Infraestrutura Urbana da prefeitura de Goiânia (Seinfra). Na época, o prefeito negou qualquer irregularidade e afirmou haver uma "perseguição política" contra a gestão.

De acordo com a pesquisa Quaest divulgada na última terça-feira (3), o atual prefeito soma 4% de intenção de votos, ficando em sexto lugar na disputa. Além disso, Cruz possui a maior rejeição entre os candidatos, marcando 41%.

Já em Belo Horizonte, o prefeito Fuad Noman (PSD) também se encontra em dificuldades para avançar no eleitorado. O gestor assumiu a prefeitura após Alexandre Kalil (PSD) renunciar ao cargo para disputar o governo do estado em 2022, contra Romeu Zema (Novo).

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Pesquisa publicada pela Quaest*** no dia 28 de agosto mostrou que Noman está no quarto lugar na disputa pela prefeitura, com 9% das intenções de voto. Pela margem de erro, ele está tecnicamente empatado com a deputada federal Duda Salabert (PDT), que tem 12%. Além disso, 32% dos entrevistados disseram que não votariam no atual prefeito.

Herdar gestão não garante eleição; vices precisam ser habilidosos

Assumir o cargo de vice-prefeito pode parecer uma posição vantajosa para muitos políticos, especialmente pela possibilidade de herdar uma administração e o prestígio de um titular bem-sucedido. A disputa pela prefeitura de Curitiba é um exemplo.

Sendo sucessor do prefeito Rafael Greca (PSD), Eduardo Pimentel (PSD) busca manter a gestão que é aprovada por mais 73% dos curitibanos, conforme levantamento realizado pela instituto Paraná Pesquisas em março deste ano. Segundo o levantamento da Quaest****, há um empate quádruplo na liderança no cenário estimulado.

Pimentel soma 19% das intenções de voto, Roberto Requião (Mobiliza) tem 18%, Luciano Ducci (PSB) também vai a 18% e Ney Leprevost (União Brasil) tem 14%. A margem de erro da pesquisa é de 3 pontos percentuais para mais ou para menos.

O cientista político Adriano Cerqueira, professor do Ibmec de Belo Horizonte, destaca que ser vice-prefeito é, de fato, uma estratégia política relevante. "Com certeza, ser vice é um trampolim político, é a possibilidade que um político tem de poder herdar uma administração municipal e, muitas vezes, até mesmo o prestígio político do seu antecessor."

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No entanto, ele ressalta que a eficácia dessa herança pode variar consideravelmente, dependendo do contexto e das habilidades pessoais do vice. Ele menciona casos em que o vice encontra dificuldades para se consolidar, como o de Fuad Noman. "Em Belo Horizonte, o Fuad não tem carisma. Ele está com uma grande dificuldade por conta desse baixo carisma", observa Cerqueira.

Escolha do vice precisa ser estratégica

Em um cenário no qual alianças e sucessões são parte fundamental do jogo político, a escolha do vice pode determinar não apenas o sucesso de uma candidatura, mas também a estabilidade e a continuidade de uma gestão. Segundo o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), o vice-prefeito não é apenas um substituto eventual, mas sim um ator estratégico que pode influenciar significativamente os rumos de uma administração.

Gomes destaca que o vice-prefeito exerce sua influência em dois momentos-chave: "O momento ex-ante (do latim, antes do fato) da campanha, o momento em que você está querendo chegar ao poder, e o momento ex-post (após o fato), em que você já chegou ao poder e vai se ocupar efetivamente de governar", disse o cientista político.

Elton também explica que a escolha do vice é estratégica. Ele atua na coordenação política e pode ser fundamental na articulação entre os diversos grupos que compõem a aliança de governo. "O vice é essencialmente alguém com quem se tem muito cuidado de cultivar relações para que ele seja a tal ponto integrado à administração e útil que beneficie o titular", disse o professor.

*Metodologia: 1.500 entrevistados pelo Real Time Big Data entre os dias 31 de agosto e 2 de setembro de 2024. A pesquisa em São Paulo foi contratada pela Record TV. Confiança: 95%. Margem de erro: 3 pontos percentuais. Registro no TSE nº SP-07377/2024.

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**Metodologia: 900 entrevistados pela Quaest entre os dias 31 de agosto e 2 de setembro de 2024. A pesquisa foi contratada pela Televisão Anhanguera S/A. Confiança: 95%. Margem de erro: 3 pontos percentuais. Registro no TSE nº GO-00762/2024.

***Metodologia: 1.002 entrevistados pelo instituto Quaest entre os dias 25 e 27 de agosto de 2024. A pesquisa foi contratada pela Globo Comunicação e Participações S/A. Confiança: 95%. Margem de erro: 3 pontos percentuais. O levantamento foi registrado junto ao TSE sob o número MG-09915/2024.

****Metodologia: 900 entrevistados pela Quaest entre os dias 24 e 26 de agosto de 2024. A pesquisa foi contratada pela Sociedade Rádio Emissora Paranaense SA (RPC). Confiança: 95%. Margem de erro: 3 pontos percentuais. Registro no TSE nº PR-06447/2024.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]