
Ouça este conteúdo
Reeleito neste domingo (25) para um quarto mandato à frente da Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de enfrentar desafios para colocar sua agenda em prática a partir de 2027. Com a direita fortalecida no Congresso, o petista precisará negociar com partidos do Centrão e buscar apoio além de sua base para aprovar propostas econômicas e avançar em sua agenda política.
A composição da Câmara dos Deputados e do Senado será um dos principais condicionantes do novo mandato. Embora a vitória nas urnas dê a Lula mais quatro anos no Palácio do Planalto, ela não garante maioria parlamentar para sustentar suas iniciativas. A oposição espera que a correlação de forças no Legislativo imponha limites ao governo e exija concessões nas negociações com deputados e senadores.
O Partido Liberal (PL), do ex-presidente Jair Bolsonaro e do senador Flávio Bolsonaro, terá a maior bancada da Câmara dos Deputados e do Senado a partir de fevereiro de 2027. A legenda elegeu 121 deputados federais e 19 senadores em outubro e deverá iniciar a próxima legislatura com 28 integrantes na Casa Alta, ampliando o peso da oposição.
Além de liderar as bancadas nas duas Casas, o partido pretende conquistar a presidência do Senado, hoje ocupada por Davi Alcolumbre (União-AP), que busca a reeleição. Entre os nomes cotados para disputar o cargo está o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial derrotada de Flávio.
A escolha do próximo presidente do Senado será estratégica para a relação entre o Legislativo e o Planalto. Além de influenciar a definição da pauta de votações, o comando da Casa tem papel relevante no encaminhamento de propostas de interesse do governo e da oposição.
O Senado também terá papel decisivo na escolha dos próximos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Durante o mandato que começa em 2027, Lula poderá indicar ao menos quatro integrantes para a Corte: um para a vaga de Luís Roberto Barroso e outros três para substituir Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes, que deverão atingir a idade de aposentadoria compulsória até 2030.
A indicação do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, para o lugar de Barroso foi rejeitada pelos senadores em abril deste ano — uma derrota histórica imposta a Lula que, no entanto, já havia sinalizado a intenção de mandar mais uma vez o nome do atual AGU para a vaga na Corte após o período eleitoral.
Sem maioria no Congresso, Lula vai depender de acordo com o Centrão
Na falta de uma maioria própria no Congresso, Lula deverá recorrer à negociação com partidos do Centrão para aprovar as principais propostas do governo a partir de 2027. A estratégia exigirá concessões na articulação política e na composição do governo, em um Legislativo no qual partidos de direita terão bancadas numerosas e capacidade de influenciar votações.
A relação com o Centrão foi uma das marcas dos mandatos anteriores do petista e deverá continuar sendo importante para a governabilidade. Formado por partidos de diferentes orientações, o bloco não atua necessariamente de maneira uniforme: o apoio a cada proposta depende dos interesses das legendas, das negociações com o Executivo e das prioridades de suas lideranças.
Neste cenário, a principal moeda de troca será a liberação de emendas parlamentares, cuja estimativa é somar R$ 57 bilhões no ano que vem, além da abertura de espaço em órgãos e ministérios da gestão petista. O Orçamento de 2027 ainda depende de aprovação por parte do Congresso Nacional.
A federação PT-PCdoB-PV terá 88 deputados, dos quais 70 são do PT. Somadas às bancadas de PSOL-Rede, PSB e PDT, as legendas tradicionalmente associadas à esquerda e à centro-esquerda chegam a 124 cadeiras, cerca de 24% da Câmara.
Já partidos como União Brasil e PP, que formam a federação União Progressista, elegeram 87 deputados. PSD, Republicanos e MDB terão, respectivamente, 43, 41 e 36 representantes. Juntas, essas legendas somam 207 cadeiras.
Neste caso, a reeleição de Hugo Motta (Republicanos-PB) para a presidência da Câmara estará entre os pontos de negociação do presidente com os deputados. Na outra Casa do Legislativo, o PT terá nove senadores, enquanto partidos como MDB, União Brasil, PP, PSD e Republicanos, frequentemente incluídos no Centrão, somarão cerca de 30 parlamentares.
Assim como na Câmara, a expectativa é de que a reeleição de Davi Alcolumbre seja imposta ao partido de Lula como troca de apoio às pautas do Executivo. “Quando a gente vai governar, governa com as instituições existentes. (...) Todo mundo fica assustado quando eu viajo e falo que sou presidente de um país em que o meu partido só tem 70 deputados em 513 e só 9 senadores em 81. E nós aprovamos tudo o que a gente quis aprovar, inclusive uma reforma tributária que há 40 anos se tentava”, afirmou Lula.








