Entrevista
"O Paraná precisa resgatar a política esportiva"
Bernardinho, técnico do Unilever e da seleção masculina
Bernardinho teve participação fundamental na vinda do Rexona para o Paraná, em 1997. Atualmente, tenta chegar ao seu oitavo título da Superliga pelo Unilever (Rio de Janeiro). Ele lamenta que o Paraná ainda não conseguiu se firmar no mercado do vôlei profissional.
Porque o Paraná não consegue atrair investidores para outra equipe competitiva na elite do vôlei nacional?
O Paraná precisa é resgatar um pouco da política esportiva. Tem um grande potencial no esporte. Tem a principal competição das categorias de base, a Copa Paraná, que envolve cerca de 1,5 mil atletas do país todo e técnicos que vêm observar jogadores.
O que falta? Fala-se que é preciso ter um bom nome para atrair financiadores do projeto. No ano passado, o Giba tentou...
Às vezes, o detalhe. Tentamos levar uma partida dos play offs da Superliga deste ano para o Paraná, mas não conseguimos por questão de logística. Mais importante do que um jogo pontual, é preciso investimento. O Giba me contou que tinha esse interesse [antes de assinar com o time argentino Drean Bolívar, o londrinense tentou montar uma equipe no estado]. Seria um nome importante para captar investidores. O Ricardinho, em Maringá, também. A Confederação poderia trabalhar mais para que a exposição [de equipes menores] fosse maior para atrair os patrocinadores. O Paraná tem mais de uma praça interessante para sediar um time. Além de Curitiba, tem Maringá, Londrina.
O que você guardou da experiência dos quatro anos no comando do Rexona?
A cidade tem uma estrutura ótima. Tivemos anos fantásticos, com o público sempre presente. Fiz contatos com pessoas que se tornaram meus amigos.
A média de 3,8 mil torcedores por jogo, quantia de fazer inveja ao Paranaense de Futebol (2.642 torcedores a cada partida) é uma das melhores memórias registradas pelo Ginásio Tarumã em sua história: entre 1997 e 2003, o time de vôlei feminino Rexona foi a febre esportiva que contagiou Curitiba e causava filas em frente ao complexo esportivo.
O time ganhou dois títulos nacionais (um no ano de estreia, na temporada 1997/98, e o outro em 2000/01), em 2004 foi transferido para o Rio de Janeiro (hoje rebatizado de Unilever) e ainda é comandado pelo seu primeiro técnico, Bernardinho. O Rexona deixou muitas saudades, mas não um legado para o voleibol do estado, que, quase dez anos depois de o projeto ganhar seu último título (o Estadual, em setembro de 2003), ainda não teve outro time tão competitivo.
Outros bem que tentaram criar times de destaque na Superliga (ver gráfico), principal competição nacional. Saques sem direção e um cenário de poucas perspectivas para a modalidade no estado.
Para fontes ouvidas pela Gazeta do Povo, o primeiro bloqueio é o financeiro visto que a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) quer garantias de investimentos para bancar o alto custo da folha salarial dos atletas. Algo na casa dos R$ 5 milhões.
Ao contrário do ocorrido na era Rexona, dificilmente o governo estadual será um canal de renda para um time local na Liga Nacional.
"Uma equipe, para chegar às semifinais da Superliga, não custa menos de R$ 12 milhões por temporada. É bastante dinheiro. Há quem tenha o entendimento de que trazer o ídolo para perto estimula as pessoas a começarem a praticar o esporte. Mas, antes, temos de fazer o dever de casa, investir nos campeonatos locais. Senão, [montar um time de elite] seria mais um espetáculo circense, que se apresenta e vai embora", fala o secretário de Esportes do Paraná, Evandro Rogério Roman.
Mas só (muito) dinheiro não basta, explica o professor de Economia e coautor do livro Esporte como Indústria, em parceria com a CBV, Istvan Karoly Kasznar. "Para viabilizar equipes campeãs é preciso também ter gestores líderes; criar um ambiente de mobilização social em torno do projeto; chegar àqueles agentes de decisão, como o Ary Graça [presidente da CBV], que são influentes para interceder por essas equipes", explica.
O presidente da Federação Paranaense de Voleibol, Neuri Barbieri, confirma a presença do jogo político. "Todas as vezes em que conseguimos emplacar times na Superliga não foram pelos meios naturais, mas por influência política, argumentando que é essencial o Paraná ter representantes. Claro que sofro cobrança depois da Confederação. Com o Ary, tudo tem de dar lucro. A Superliga está superbem, mas é frágil porque os times estão sujeitos às decisões dos patrocinadores", diz.
Alguns projetos engatinham no estado. Em Foz do Iguaçu, o time disputou ontem à noite a última rodada das classificatórias da Superliga B, com uma campanha fraca até aqui (uma vitória em nove jogos), mas considerada boa pelo treinador.
"Vejo que o grupo tem evoluído a cada rodada e, como começamos a preparação em cima da hora, depois de termos a confirmação de que teríamos o apoio da prefeitura, acredito que temos ido bem", diz Marcão. Ele afirma que, em quatro anos tempo em que tem garantido o apoio do município o time tem condições de "encorpar" tecnicamente, atrair mais público ao Ginásio Costa Cavalcante e, consequentemente, mais patrocinadores.
Em Londrina, o Instituto Pró-Esporte tenta sanar as dívidas somadas nas temporadas 2010 e 2011 para reativar o Londrina/Sercomtel em 2014. Ao todo, o instituto deve R$ 200 mil entre salários atrasados e prestação de contas como o poder público.
"Até por isso, queremos encontrar patrocinadores fora da esfera política. O ideal seria poder contar com apoios acima de R$ 5 milhões para tentar um retorno à Superliga principal, depois de disputarmos a série B, no começo de 2014", afirma o presidente do Instituto, Mateus Goebel.
Na temporada 2011/12, o Londrina/Sercomtel foi o último colocado da Superliga e teve dificuldades para bancar a equipe, tendo recorrido até a rifas para tentar diminuir os prejuízos.
Das 22 agremiações em ação hoje nas ligas masculina e feminina, 11 são de São Paulo, 5 de Minas Gerais, 3 do Rio de Janeiro, 2 de Santa Catarina e 1 do Rio Grande do Sul.
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Rexona Vôlei