Uma planta de ferro em Ciudad Guyana, Venezuela, 23 de março. O apagão nacional prolongado em março empurrou a Venezuela para a beira do colapso. Estima-se que a inflação chegue a 51 milhões porcento neste ano. Foto: Meridith Kohut / The New York Times
Uma planta de ferro em Ciudad Guyana, Venezuela, 23 de março. O apagão nacional prolongado em março empurrou a Venezuela para a beira do colapso. Estima-se que a inflação chegue a 51 milhões porcento neste ano. Foto: Meridith Kohut / The New York Times| Foto: NYT

Não faz muito tempo, Nicolás Maduro foi a uma siderúrgica meio deficitária para promover sua capacidade de exportação, apesar das sanções dos EUA.

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"Ninguém vai nos parar. Estamos vivendo dias de grandes vitórias!", vibrou, ao lado da mulher, observando os briquetes de ferro que passavam na esteira do Complexo Guayana.

Dois dias depois, a fábrica fechou, paralisada pelo apagão nacional que durou quase cinco dias e acabou com o pouco que restava da indústria pesada nacional. O blecaute, aliado às novas sanções norte-americanas ao setor petrolífero essencial da Venezuela, empurrou o país para o colapso econômico quase total.

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Os mais abastados tiveram de usar as economias em dólares para comprar geradores portáteis, importaram comida enlatada e puderam se hospedar em hotéis e ir a churrascarias, quando necessário; os não tão afortunados viram um sinal de possível alívio para as dificuldades na notícia de que a Cruz Vermelha talvez faça em breve uma campanha emergencial no país.

Para um número cada vez maior de venezuelanos, entretanto, o único paliativo às dificuldades sem fim é a esperança de que as condições calamitosas derrubem Maduro.

PIB indo para o ralo

O apagão sugou cerca de US$ 1 bilhão do PIB venezuelano, equivalente a mais ou menos um por cento, segundo o banco de investimentos Torino Capital. Resultou em mais de 500 estabelecimentos comerciais saqueados, pelo menos 40 pacientes mortos nos hospitais e no fechamento de meia dúzia de fábricas.

A produção petrolífera equivalente ao volume de um país como Brunei foi irremediavelmente perdida devido aos danos causados aos campos pela perda de energia repentina, segundo a consultoria IPD Latin America.

O blecaute ocorreu depois da proibição norte-americana, em janeiro, da compra de petróleo venezuelano, o que só agravou anos e anos de má administração e corrupção sob Maduro e seu antecessor, Hugo Chávez.

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"As sanções praticamente impossibilitam o governo de comprar e importar o mínimo necessário para fazer o país andar", afirma Francisco Rodríguez, economista da Torino Capital.

Muitos opositores encaram as agruras econômicas como um remédio amargo necessário para que o país se livre de Maduro; já para seus correligionários, elas são a desculpa perfeita para que o presidente possa se eximir da culpa do caos econômico.

Sem serviços básicos

Com lucros cada vez menores no setor petrolífero e um êxodo de mão de obra técnica, Maduro está com dificuldade em restabelecer serviços básicos desde o apagão de sete de março, o pior do país. O fornecimento de água tem sido intermitente na maioria das cidades, e os alunos da rede estatal e funcionários públicos foram forçados a ficar em casa depois do incêndio que destruiu uma subestação e levou a novo blecaute.

Menos da metade dos venezuelanos se disseram contra as medidas de Donald Trump contra o petróleo nacional, segundo pesquisa realizada pela principal agência local, a Datanalisis, no início de março – número surpreendentemente baixo, dado o impacto direto das sanções no padrão de vida.

"Se eu tiver de me sacrificar e passar um mês sem eletricidade ou água, eu o farei com prazer, porque sei que é a única maneira de melhorar este país", diz Valdemar Álvarez, técnico de laboratório da siderúrgica Sidor, em Puerto Ordaz, que é contra Maduro.

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Moeda sem valor

A economia da Venezuela deve perder mais de um quarto de seu volume este ano, de acordo com Rodríguez, um dos poucos economistas de Wall Street que ainda tentam prever a escala do declínio venezuelano. A inflação deve chegar a 51 milhões por cento até o fim do ano, fazendo com que a moeda nacional perca praticamente qualquer valor.

Na história moderna, a violência e a amplitude do colapso do país só foram superadas pelas do Zimbábue, de acordo com o Instituto Financeiro Internacional.

A produção de petróleo venezuelana, que contribuía em mais de 90 por centro para garantir uma moeda forte, caiu 13% em fevereiro – o declínio mais acentuado da década, segundo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo.

Isso no primeiro mês desde a proibição pelo Departamento do Tesouro dos EUA a qualquer tipo de negociação entre as empresas norte-americanas e a produtora nacional, a Petróleos de Venezuela S.A., ou PDVSA; desde então, o declínio só fez acelerar.

Indústria em colapso

Sanções, cortes de energia e uma fuga de cérebros acelerada podem acabar com 60% da produção petrolífera venezuelana este ano, segundo os consultores da IPD. Para esses analistas, a previsão é de que o país parta de 1,36 milhão de barris/dia em fevereiro para míseros 550 mil barris/dia ao fim de dezembro, volume mais ou menos equivalente à produção do minúsculo Equador.

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Os EUA, que já foram o maior cliente da PDVSA, não compraram nenhuma gota do petróleo venezuelano em março. Segundo seu Departamento de Energia, a última vez que isso aconteceu foi nos anos 70.

"As sanções aceleraram o ciclo econômico vicioso venezuelano, pois a queda na exportação do petróleo deixou Maduro com menos verba para investir nos serviços básicos, o que, por sua vez, degrada a produção petrolífera", explica Siobhan Morden, estrategista de mercados emergentes do banco de investimentos Nomura de Nova York.

"Esse efeito multiplicador é muito poderoso e afeta praticamente todo mundo. O impacto será horroroso", prevê ela.

As sanções também impedem que o governo importe o diesel necessário para o funcionamento das centrais elétricas. As refinarias da PDVSA, que já estiveram entre as maiores do mundo, hoje se veem dilapidadas e há muito deixaram de suprir as necessidades nacionais de produtos como gasolina e diesel.

Com o fornecimento e a manutenção ínfimos das termelétricas, a Venezuela ficou sem suprimento elétrico de apoio quando o incêndio florestal que atingiu uma linha de transmissão derrubou a principal hidrelétrica do país, em sete de março.

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Quando a luz voltou, o setor industrial inteiro do país já não existia mais.

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