Caracas - A confirmação de que o presidente Hugo Chávez foi operado de câncer, em Cuba, transformou o cenário político da Venezuela, onde haverá eleições presidenciais em 2012. O chefe de Estado continua governando de Havana, uma mostra de que é o único motor de um governo desorientado por sua ausência.
"É uma situação incerta, mas sem dúvida há uma quebra, uma inflexão. A política caiu em si. Superman não é Superman, é um ser humano que abusou de seu corpo e agora recebe a conta", diz Margarita López Maya, historiadora e coordenadora do livro "Ideas para debatir el socialismo del siglo XXI" (Ideias para debater o socialismo do século XXI, em tradução literal).
O anúncio da doença de Chávez e de que o presidente deve continuar um estrito tratamento para sua total recuperação ocorre em um momento em que a situação e a oposição esquentam os motores para as eleições presidenciais de 2012 na Venezuela.
Chávez, no poder desde 1999, aspira a um terceiro mandato neste pleito. Nada indicava, no dia de ontem, que não poderá cumprir seus planos políticos, uma questão que por enquanto permanece um tabu. O próprio presidente confidenciou na quinta-feira sua cura total, mas não antecipou uma data de retorno à Venezuela. "É um cenário novo. Chávez não tem substituto. Trata-se de uma liderança messiânica, com grande concentração de poder. Esta situação não só tem impacto no governo, mas também na oposição", afirma Alexander Luzardo, doutor em Direito Político e professor universitário. Segundo o especialista, se o presidente se vir obrigado a renunciar às suas aspirações em 2012, podem aparecer vários candidatos nos dois campos.
"No PSUV (partido do presidente), como não existe a figura de segundo de Chávez pode haver uma proliferação de aspirantes. Na oposição, também podem surgir vários candidatos se o adversário nas urnas não for Chávez", afirma Luzardo.
Para López Maya, nos regimes personalistas, as disputas internas pelo poder são visíveis rapidamente. Nas fileiras chavistas, há "grupos que o presidente mantém unidos, mas que entre eles não se podem ver, nem falar", afirmou.
Na opinião de Demetrio Boersner, doutor em Ciência Política e ex-embaixador, esta situação política inédita poderia ter um efeito positivo: "um diálogo e uma certa aproximação entre grupos" hoje irreconciliáveis. "O governo pode sentir que precisa de um mínimo de consenso nacional. O presidente leva dois anos dividindo os venezuelanos entre bons e maus", diz.
"O país entra em um estado delicado. Exige-se maturidade para preservar a estabilidade democrática e evitar um conflito interno", observa Luzardo.
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