Manifestantes em Cobija, no estado de Pando, na fronteira com Acre e Rondônia: choques de opositores com a polícia são fonte de migrações problemáticas para o Brasil| Foto: Arquivo Efe
Negócios à parte
Velhos nomes

Enquanto aquece as turbinas para a festa eleitoral do ano que vem, o Brasil mantém um olho na dança das cadeiras dos países vizinhos. Só neste ano, estão em jogo as presidências de Uruguai, Chile e Bolívia, que envolvem questões econômicas, de segurança territorial e patrimonial.

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O embate presidencial e legislativo na Bolívia ocorre só em dezembro, mas já repercute de forma significativa para brasileiros do departamento (estado) de Pando, na fronteira com Acre e Rondônia. Para compensar a oposição que enfrenta na região, o presidente Evo Morales iniciou há duas semanas um processo de migração eleitoral. Entre 300 e 400 indígenas teriam sido transportados de vários outros estados para lá com o objetivo de ocupar terras de brasileiros nas fronteiras. Pela Constituição boliviana promulgada em fevereiro, es­­trangeiros não podem possuir propriedades a menos de 50 km da fronteira – argumento que cai como uma luva para o cumprimento da promessa de Evo de distribuir terras.

"Ao mesmo tempo, ele fideliza indígenas, mostra que vai avançar com o processo de reforma agrária e garante eleitorado na região", diz o pesquisador do Laboratório de Estudos do Tempo Presente da Universidade Federal do Rio de Janeiro Daniel Chaves.

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É também uma tentativa de evitar o pesadelo de 2005, quando, com a ajuda dos votos de Pan­­do, a oposição levou a maioria no Se­­nado, de onde vem barrando pro­­jetos importantes para a "re­­vo­­lução bolivariana" de Evo Mo­­rales.

A oposição a ela já foi motivo de embates entre a população e a polícia no oposicionista Pando. Em 2008, um suposto massacre teria resultado em cerca de 30 mortes e forte migração para o Brasil.

O projeto de transferência de eleitores demandaria 21 milhões de bolivianos (cerca de R$ 7 mi­­lhões) para transportar 2 mil fa­­mílias. Uma mostra de quanto o Brasil se envolve em programas como o de Morales é a verba de R$ 20 milhões que o governo brasileiro destinou para a realocação, na própria Bolívia, dos colonos brasileiros que terão as terras desapropriadas.

Essa é uma dependência política que condiz com a realidade comercial entre os dois países – a Bolívia envia ao Brasil quase a metade de suas exportações, ba­­sicamente não manufaturados (veja acima) –, mas que pode assustar um governo brasileiro não alinhado à turma de Chávez, da qual Evo faz parte.

Outra questão que preocupa investidores é a nacionalização de ativos brasileiros. O medo da quebra de contratos reina desde o 1.º de maio de 2006, quando o Exército boliviano ocupou campos de refino da Petrobras no país vizinho. Agora, a Bolívia aparenta ter se arrependido da medida, pela dificuldade de colocar pessoal especializado para tocar a unidade. "É um problema ainda sem solução, ao menos no que concerne à posse de terra, mineração, distribuição de recursos na Bolívia", avalia a especialista do United States Institute of Peace Elizabeth Harper.

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Guinada à direita

No Chile, a expectativa é que saia a coalizão de centro-esquerda Concertación, depois de 20 anos no poder, e seja eleito o empresário de direita Sebastián Piñera, atual líder nas pesquisas. "Seria um governo muito parecido com o da Colômbia, que tem ótimas relações com o Brasil", tranquiliza o professor de estudos internacionais latino-americanos da Unesp, Enrique Amayo. "Não se faz aliança com um partido político de outro país, e sim com o governo que representa o Estado."

Um dos principais projetos conjuntos dos dois países, a construção de um corredor interoceânico, ganhou força para além das atuais gestões, na opinião de Chaves. A ideia é construir 4 mil quilômetros de estradas que permitam ampliar as exportações dos países sul-americanos, com acesso a portos chilenos.

Já os projetos em parceria com o Uruguai tendem a aumentar na próxima presidência, de acordo com Amayo. "Se o novo governo conseguir resolver o contencioso com a Argentina (sobre a instalação de uma indústria papeleira), o país pode votar a ser um modelo de desenvolvimento", diz. Res­­ta torcer, mas sem se envolver, como reza a boa diplomacia.