Manifestantes enfrentam policiais em frente do Parlamento da Grécia em protesto contra o plano de austeridade do governo| Foto: Dimitar Dilkoff/AFP

Solavancos

Crise na Europa se agravou a partir de 2010:

Maio de 2010 – Grécia recebe um empréstimo de 110 bilhões de euros.

Novembro de 2010 – Irlanda recebe ajuda de 90 bilhões de euros.

Março de 2011 – O primeiro ministro de Portugal, José Sócrates, renuncia após ser recusado Plano de Estabilidade e Crescimento.

Maio de 2011 – Portugal tem empréstimos aprovados que totalizam de78 bilhões de euros.

Maio de 2011 – Resultado da insatisfação popular se reflete nas urnas da Espanha, o Partido Socialista (PSOE), que até então estava no poder, perde para o Partido Popular (PP).

Junho de 2011 – Grécia pede novo empréstimo que pode chegar a mais 110 bilhões de Euros.

Julho de 2011 – Itália assume endividamento excessivo e aprova plano de austeridade.

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Entrevista - Giorgio Romano, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC)

Alguns motivos que levaram à atual crise e as alternativas para o futuro da União Europeia são apontados pelo professor de Relações Internacionais e Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC), Giorgio Romano, que concedeu entrevista à reportagem da Gazeta do Povo, por e-mail. Romano também é membro do Grupo de Analise de Conjuntura da Universidade de São Paulo (GACINT-USP).

Além da crise de 2008, quais os fatores que levaram a União Europeia à atual crise?

O projeto do euro é ainda muito novo. O euro foi lançado para forçar um avanço no processo de integração e para responder às pressões de especulações no início da década de 1990. Mas não há estrutura de Estado para sustentar a moeda. Não existe na história do capitalismo moderno outro exemplo de uma moeda sem Estado. Os países a União Européia estão enfrentando o novo quadro mundial, em particular a ascensão da concorrência chinesa, e, de outro lado, transformações estruturais internas, em particular o processo de envelhecimento da população.

Deixar de ter o Euro como moeda poderia ser a solução para algum país?

Ficar no euro tem como desvantagem não poder sair da crise por meio da desvalorização da moeda. Desvalorizar tornaria os produtos desses países mais competitivos nos mercados internacionais. Mas, se o problema desses países é a dívida pública, esta continua em euro. Ou seja, saindo do euro haveria uma crise cambial ao reinstalar as moedas antigas, o que torna a dívida (em euro) ainda mais cara na nova moeda nacional. Além disso, podemos prever uma corrida bancária, pois quem tem depósitos em Euro vai querer sacar antes que ocorra a conversão e subsequente desvalorização.

Quais os principais pontos positivos da União Europeia?

A União Europeia em seu conjunto é ainda a maior economia do mundo, superior à dos EUA ou da China. A UE continua, sobretudo, um projeto político, que sempre tentou manter um alto nível de coesão e participação social, mas há a necessidade urgente de repactuar o consenso social. Isso porque o que está em jogo é uma decisão política a respeito de quem paga a conta e como organizar a necessária expansão da institucionalidade europeia.

Acampamento na Praça Porta do Sol, em Madri, em protesto contra a crise espanhola

A União Europeia está apreensiva. Precisa ajudar os países que estão se quebrando com o endividamento, tentar manter uma moeda estável e respeitar seus próprios termos de compromisso, como a não ingerência na política dos países membros.No primeiro semestre de 2010, a Grécia deu início aos pedidos de socorro ao Fundo Monetário Inter­­nacional (FMI) e ao Banco Central Europeu (BCE). Em novembro do ano passado foi a vez da Irlanda pedir ajuda ao FMI. Em março desse ano, Portugal assumiu que precisaria de um empréstimo. A Es­­panha vem implementando medidas de austeridade para resistir à crise e, essa semana, a Itália teve de assumir que está com endividamento excessivo e aprovou um duro pacote de corte nos gastos.A crise de 2008, gerada pelos problemas hipotecários nos Esta­­dos Unidos e a quebra do Lehman Brothers, mal passou e suas consequências se alastram pela Europa com uma nova crise. "A atual crise tem a ver com processos de expansão baseados em endividamentos", explica o professor de Economia da Universidade Federal do Rio Gran­­de do Sul, André Cunha. Os países europeus também reduziram os impostos para estimular a economia. Para o professor da UFRGS. "Não existe capitalismo sem endividamento. A dívida é a base do sistema".

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O problema é que "os PIIGS (iniciais em inglês de Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) já estavam com o endividamento elevado antes da crise de 2008", lembra a professora de Economia do Centro Universitário Curitiba (Unicuri­ti­­ba), Cintia Rubim.

Irresponsabilidade

O professor de Economia da Pon­­tifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Másimo Della Justina, considera que há outros motivos para que a crise, especialmente no sul da Europa, chegue a níveis tão elevados. "Esses países têm como tradição irresponsabilidade e falta de seriedade com as dividas e também o esbanjamento e a falta de transparência".

Quatro critérios seriam utilizados para os países que quisessem adotar o euro: o déficit orçamentário em relação ao PIB não poderia passar de 3% ao ano, a dívida pública acumulada não poderia estar acima de 60%, as taxas de câmbio e as taxas de juros teriam que estar de acordo com o indicado pela União Europeia.

Quando chegou a hora de o euro entrar em vigor, os PIIGS não se ajustavam em todos esses critérios. Mesmo assim, "entraram na última hora para não estragar a festa", diz o professor da PUC-PR. "Se a UE tivesse sido muito séria esses países não poderiam adotar o Euro na época em que adotaram. De­­veriam ter tido mais coragem de não deixar entrar quem não estava preparado."

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Outro desafio do euro é que se trata de uma "moeda única, mas que não tem autoridade fiscal única", ressalta Cunha. O Banco Cen­­tral Europeu é autoridade monetária, mas não fiscal. Essa situação torna difícil administrar as consequências que as decisões tomadas em cada um dos países têm sobre a moeda.

"É difícil ter a mesma responsabilidade quando partidos diferentes governam", observa Della Jus­­tina. O professor da PUC-PR reconhece que os países podem perder a autonomia fiscal caso se crie uma autoridade única, mas, no ponto de vista, essa é uma medida importante para a sobrevivência do euro.

Saídas

A fim de evitar que crise se alastre por toda a Europa, alguns mais pessimistas declaram o fim do euro, outros acham que aqueles que estão em crise é que devem deixar a moeda. "Os países que foram irresponsáveis deveriam ser desconvidados a participar do euro", diz Della Justina.

Já a professora Cintia ainda acredita na negociação. "Apesar de analistas pessimistas, é questão de ajustar o problema das dívidas e decidir quem vai pagar as contas". Cunha considera que se os países em crise saíssem e deixassem de adotar a moeda essa não seria a solução. "Independente do euro, a região tem economias muito abertas, isso cria canais de contágio. Há um enorme grau de vinculação econômica e comercial."

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A alternativa da moratória também já está sendo considerada, principalmente pelos gregos. Mas, para a professora do Unicuritiba, "um calote poderia gerar uma crise de confiança e corrida dos investidores internacionais aos bancos".

Para que a população não continue sendo o mais prejudicada no fim das contas, Della Justina considera que os governos também não podem mais cobrir rombos dos bancos. "Tem que deixar quebrar, como em 1929. A dor é maior, mas é mais rápido."

Cunha avalia que muitos europeus vão ter que abrir mão do conforto com que se acostumaram, das conquistas sociais, como altos salários e planos de previdência generosos. A era de altos investimentos em infraestrutura vai ser trocada pela deterioração dos países. "Foi um banquete em que se comeu muito, agora, estão passando mal", diz.