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Drama

“O mais difícil foi o parto do meu filho”

Entrevista: Clara Rojas, ex-candidata a vice-presidente da Colômbia e refém das Farc durante seis anosEntrevista: Clara Rojas, ex-candidata a vice-presidente da Colômbia e refém das Farc durante seis anos

“Penso que, a fim de fortalecer a democracia na América Latina, é importante a alternância do poder.”, Clara Rojas | Fotos: Juan Barreto/AFP
“Penso que, a fim de fortalecer a democracia na América Latina, é importante a alternância do poder.”, Clara Rojas (Foto: Fotos: Juan Barreto/AFP)
Clara Rojas com seu filho, Emmanuel, que nasceu no cativeiro e de quem ficou separada por mais de três anos |

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Clara Rojas com seu filho, Emmanuel, que nasceu no cativeiro e de quem ficou separada por mais de três anos

No dia 23 de fevereiro de 2002 a então candidata a vice-presidente da Colômbia Clara Rojas foi sequestrada pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) quando tentava entrar numa zona desmilitarizada do sul do país. Rojas estava com Ingrid Betancourt, candidata à Presidência. Os seis anos de cativeiro foram marcados por incertezas, mistério e muita especulação. As dúvidas sobre se estariam vivas só foram desfeitas no ano passado, quando as duas companheiras foram libertadas.

Para Clara Rojas, os anos em que viveu na selva, sob o mando dos guerrilheiros, tiveram um significado especial: o nascimento seu filho, Emmanuel. Libertada desde 10 de janeiro de 2008, ela diz que o reencontro com Emmanuel, hoje com cinco anos e de quem ficou distante por mais de três anos, foi obra de Deus.

Enquanto luta para reorganizar sua vida, Rojas corre o mundo para o lançamento de seu livro Cautiva (Memórias do meu cativeiro, na edição de Portugal), que deve chegar às livrarias brasileiras até o fim do ano. Nesta entrevista à Gazeta do Povo, a ex-refém das Farc fala, entre outros temas, do política colombiana, do livro que já foi traduzido para sete idiomas, do rompimento com Ingrid e do parto de seu filho em plena selva.

O sequestro e os seis anos no cativeiro interromperam seus projetos de vida, mas, por outro lado, você ficou conhecida em todo o mundo. Hoje Clara Rojas é mais popular que muitos presidentes de países. Especula-se que você seria candidata a deputada ou senadora. Quais são seus planos para o futuro?

Não tenho planos, pelo menos no momento, de voltar à política. Para 2009, eu planejei terminar os compromissos os quais assumi com os editores, uma vez que o meu livro já foi traduzido para mais de sete idiomas e está sendo distribuído em vários países. Espero que em breve seja concluída a tradução para o Português do Brasil. Também tenho realizado atividades humanitárias para a libertação de todos aqueles que ainda estão sequestrados, particularmente na Colômbia. Devo combinar essas atividades com o meu papel como mãe, que eu aprecio muito. Estou pensando também em escrever para o futuro. E, neste segundo semestre seguirei dando palestras sobre o tema da resiliência (capacidade que certas pessoas têm de sofrer fortes pressões ou situações de grande estresse e não se desequilibrar emocionalmente).

O jornalista colombiano Jorge Enrique Botero, que passou dez anos acompanhando a rotina dos guerrilheiros das Farc, escreve no livro Últimas Notícias da Guerra, de 2006, que um dos fatos mais impressionantes dos quais tomou conhecimento na selva foi o nascimento de seu filho, Emmanuel, fruto de um romance com um guerrilheiro. Como é para uma mulher urbana enfrentar uma gravidez na selva e em meio ao fogo cruzado de uma guerra?

É importante ter em conta que o jornalista Botero disse que o seu livro é um romance. Infelizmente, ele usa nomes próprios. Ainda que tarde, terá de corrigir e pedir desculpas.

O romance na selva faz parte de um passado o qual você quer apagar para sempre ou ainda existe, para você, a hipótese de um dia vir a encontrar o pai de seu filho?

Eu escrevi em meu livro sobre o tema da concepção do meu filho, não tenho nada a dizer. Sobre a gravidez na selva, escrevi um capítulo chamado "Maternidade". Realmente foi difícil e eu estive à beira da morte junto com meu filho. Para mim, uma mulher da cidade, foi particularmente muito difícil, mas eu acredito que também seria difícil para qualquer mulher. Por ventura de Deus estamos vivos e agora estamos bem, quer é o que conta.

Qual foi o momento mais marcante, se é que houve, dos seis anos que você passou no cativeiro, e o que de bom e ruim ficou dessa experiência?

O mais difícil, além do parto, foi a prisão (o cativeiro) e a separação de meu filho por tanto tempo. Lembro-me com muita alegria do primeiro Natal com o meu bebê, na frente da árvore de Natal, rezando novenas e cantando as músicas natalinas.

No capítulo "O Desencontro" do seu livro, você fala do seu distanciamento progressivo de Ingrid Betancourt, que teria sido causado pelas circunstâncias adversas do cativeiro. Em certo momento, Ingrid é apresentada como uma pessoa com quem só é possível estar "do lado dela ou contra ela". Mas em entrevistas recentes você estende a mão para a ex-companheira. As divergências entre você e Ingrid são mais pessoais ou políticas?

Para mim esse é um assunto do passado, e os meus pensamentos estão no presente e no futuro. Não tenho qualquer comentário adicional.

As Farc sofreram sucessivas derrotas para o governo nos últimos anos. A guerrilha vai acabar ou não há solução para o conflito colombiano?

As Farc estão em declínio, mas não terminou e não se pode cantar vitória. Eu vejo o futuro com otimismo e espero com confiança que a solução do problema (da guerrilha) na Colômbia se dará por meio de negociações, apesar da difícil conjuntura que estamos vivendo hoje.

A guerrilha é a única culpada pela difícil situação vivida pela sociedade colombiana ou os sucessivos governos nos últimos anos têm sua parcela de responsabilidade na crise?

Sempre que existe um problema sobre o qual há intervenção de vários fatores, temos de olhar para todos esses fatores. É evidente que requer vontade política das partes para que esse problema seja resolvido em breve.

Há menos de dois meses o Senado da Colômbia aprovou um projeto de referendo popular para saber se o presidente Álvaro Uribe pode se candidatar ao terceiro mandato. A reeleição de Uribe pela segunda vez consecutiva é boa para a democracia colombiana? Num cenário com Uribe na disputa eleitoral, você o apoiaria ou ficaria na oposição?

Como disse anteriormente, não participo ativamente da política. Eu não estou com o governo nem com a oposição. Ambos têm as suas coisas boas e os seus erros. Naquela ocasião, a situação para o referendo era diferente de hoje. Eu admiro enormemente a capacidade de trabalho do presidente Uribe. Mas penso que, a fim de fortalecer a democracia na América Latina, é importante a alternância do poder. Eu gosto da atitude do presidente Lula.

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