Boeing e Airbus têm pedidos suficientes para mantê-las ocupadas por oito anos. Boeing 787 Dreamliner sendo construído em Everett, Washington| Foto: Stuart Isett PARA The New York Times

A queda acentuada nos preços do petróleo é ótima para as companhias aéreas, possibilitando economias de bilhões de dólares em combustível em um setor altamente competitivo que no ano passado conseguiu lucro médio de apenas US$ 6 (R$ 15,42) por passageiro.

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Mas o que é boa notícia para as empresas gera dúvidas para os dois maiores fabricantes mundiais de jatos, Boeing e Airbus, que vêm surfando a crista de uma onda de demanda por jatos mais modernos e econômicos. A demanda foi movida em grande parte pelo preço alto do petróleo.

O temor é que a queda atual nos preços do óleo possa levar as companhias aéreas a adiar seus pedidos, depois de quase uma década na qual os fabricantes de aviões se beneficiaram de uma enxurrada de requisições.

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"Dois fatores impeliram o crescimento recorde do mercado: o dinheiro barato e o combustível caro", disse Richard Aboulafia, analista aeroespacial junto ao Teal Group, em Washington. "Agora, alguma coisa mudou."

Se o petróleo continuar mais barato, as companhias aéreas terão motivação para conservar seus aviões mais velhos, que consomem mais combustível, no ar por alguns anos, adiando seus pedidos de novos aviões, na esperança de poupar dinheiro.

A Boeing e a Airbus, juntas, têm mais de 12 mil aeronaves já encomendadas e ainda não produzidas; o valor dos pedidos é avaliado em quase US$ 2 trilhões (R$ 5,14 trilhões), o suficiente para manter as linhas de montagem ativas por mais de oito anos.

E os pedidos continuaram a chegar no ano passado. A Airbus revelou que em 2014 fechou contratos de compra de 1.456 jatos, um pouco menos que os 1.503 de 2013, e entregou 629 em 2014.

E a Boeing anunciou ter recebido pedidos de 1.432 aviões em 2014, contra 1.355 do ano anterior, e entregado 723 aviões no ano passado —um recorde do setor.

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Cada uma das duas empresas controla aproximadamente metade do mercado de jatos comerciais com lugar para mais de cem passageiros. Os ganhos em economia de combustível lideram as listas de características desejáveis de sua nova geração de jatos.

Esta inclui versões recentemente modernizadas de aviões de uso intensivo, como o Boeing 737 e o Airbus A320, além de modelos mais leves e largos feitos de fibra de carbono, como o Boeing 787 Dreamliner ou o Airbus A350.

O enfraquecimento do crescimento, além da chegada de aviões novos e de uma enxurrada de novas companhias aéreas de baixo custo no transporte aéreo, já se traduziu em um excedente de lugares disponíveis em aviões em partes da Ásia, algo que gerou a redução dos preços das passagens na região.

"Começamos a ver os efeitos do excesso de capacidade na rentabilidade das linhas aéreas", disse Nick Cunningham, da Agency Partners, firma de corretagem de Londres. "Não é possível adicionar capacidade sempre sem fazer o setor quebrar."

A queda dos preços do petróleo pode exacerbar o problema do excedente de capacidade, ao induzir as companhias aéreas a reduzir o valor das passagens em um esforço para aumentar sua parcela do mercado, disse Adam Pilarski, da Avitas, firma de consultoria de aviação, na Virgínia.

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Isso não apenas reduz o dinheiro que as companhias têm disponível para pagar pelos novos aviões que encomendaram, como aumenta as chances de que empresas aéreas financeiramente instáveis adiem ou cancelem pedidos —ou que não sobrevivam por tempo suficiente para receber e pagar pelos aviões.

"Os fabricantes sabem que, quando vendem uma avião hoje para ser entregue em nove anos, até lá o ambiente pode ter mudado", disse Pilarski. "A companhia aérea pode mudar de ideia ou pode ter saído de operação."

Em dezembro a Airbus moveu uma ação judicial contra a Skymark, empresa aérea japonesa de voos com descontos que em julho cancelou um pedido de US$ 2 bilhões (R$ 5,14 bilhões) de seis jatos superjumbo A380.

Na ação, aberta num tribunal britânico, a Airbus pede indenização por prejuízos. Analistas dizem que qualquer atraso no índice geral de substituição de aeronaves pode frear o ritmo em que a Boeing e a Airbus entregam seus pedidos.

Mas os fabricantes de aviões não parecem preocupados. Darren Hulst, da Boeing, disse que as companhias ainda vão precisar de aviões novos "para continuar a crescer e para aproveitar as tendências do ambiente de custos operacionais".

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Fabrice Brégier, da Airbus, opinou que, com a impossibilidade de prever o que vai acontecer com os preços do petróleo, as companhias aéreas fariam bem em continuar a comprar aviões de consumo mais baixo.

Mas ele deixou claro que a Airbus pode resistir a uma crise. "Ainda temos quase 6.400 aviões não fabricados. Poderíamos sobreviver por até quatro anos."