Integrantes da Via Campesina participam de protesto pacífico no Paraguai| Foto: Christian Rizzi/Gazeta do Povo

Entrevista

Existe um conflito de valores muito grande na Via Campesina

Flávia Braga Vieira pesquisa movimentos sociais do campo há mais de uma década. Formada em Sociologia, a professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) lançou no ano passado o livro Dos Proletários Unidos à Globalização da Esperança, pela Alameda Editorial, cujo tema é a atuação da Via Campesina. Em entrevista por telefone à Gazeta do Povo, ela falou um pouco sobre a ação internacional da entidade.

Qual a extensão da Via Campesina hoje?

A articulação da Via surge a partir de organizações de movimentos populares do campo na América Latina e no sul da Europa. Hoje é muito forte no sul e sudeste na Ásia, como na Índia, Tailândia e Coreia do Sul.

Por que ocorrem conflitos envolvendo camponeses, como no Paraguai?

O tipo de campesinato defendido pela Via lida com temas muito profundos, que dizem respeito à propriedade da terra e à propriedade privada. Existe um conflito de valores muito grande nas lutas da Via Campesina. Por isso, a repressão é quase sempre muito violenta.

A América Latina é a região com mais conflitos?

Forças repressivas existem no mundo todo. Felizmente, a América Latina passou a ter maior registro das atividades violentas e de repressão do estado contra a população. Existem situações na África ou mesmo na Ásia que não se tornam notícia global, pois lá tem menos liberdade de mídia.

As reivindicações dos trabalhadores rurais não mudam de um país para o outro?

Quando a Via Campesina surgiu em 1993, os movimentos foram se esbarrando e perceberam que estavam lutando por causas comuns. Existem empresas multinacionais e práticas como a expansão do eucalipto que agridem o pequeno agricultor no mundo todo. São situações parecidas, mas existem dinâmicas nacionais. No Brasil, a questão do latifúndio não é a mesma que a da Europa. Lá, a reforma agrária aconteceu há 300 anos e a organização do campo ocorre em pequenas propriedades.

O que aproxima as organizações ligadas à Via?

O que a Via Campesina fez de forma muito extraordinária nesses últimos anos foi conseguir criar uma identidade própria. O boné, a bandeira, o lencinho e a forma de se organizar são muito parecidas em outros países.

Você associa a criação da Via Campesina com o contexto político da globalização. Poderia explicar?

A Via Campesina surge oficialmente como um contraponto ao avanço do capitalismo na agricultura. No final dos anos 80, a Organização Mundial do Comércio (OMC) passa a incorporar o comércio mundial de alimentos nas suas deliberações e, desde o final dos anos 60, existe o pacote da revolução verde, que é uma tremenda uniformização da produção alimentar. A Via é uma resposta desses agricultores que não querem se homogeneizar.

Flávia Braga Vieira, socióloga da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e autora do livro Dos Proletários Unidos à Globalização da Esperança

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Um conflito entre sem-terra e a polícia no país vizinho matou 17 pessoas no último dia 15 e foi responsável por desencadear a maior crise política da história recente do Paraguai. O caso tem o peso das questões agrárias que geram confrontos desse tipo no mundo todo e, em torno delas, foram criadas articulações internacionais como a Via Campesina, que orientam os manifestantes envolvidos nessas causas.

A Via é uma entidade que reúne organizações espalhadas por quase todos os continentes. No Brasil, o braço mais conhecido é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Ter­­ra (MST). No Paraguai, a­­ representação é feita pelo­­ Mo­­vimento Campesino Pa­­ra­­­­guaio (MCP) e pela Or­­ga­­ni­­za­­ção de Luta pela Terra (OLT).

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"A Via Campesina é uma articulação que surgiu para denunciar contradições e desigualdades que existem dentro do campo", explica Robson Formica, historiador e militante do MST. Segundo ele, os integrantes da entidade tentam forçar o diálogo com os governos em nome de determinadas reivindicações.

Reforma

Uma das maiores reivindicações das organizações vinculadas à Via Campesina é a reforma agrária. Alcides Lei­­te, economista da Escola de Negócios Trevisan, afirma que a pauta está desatualizada para países como o Brasil. "Hoje, a discussão sobre igualdade social não passa diretamente pela questão rural em países industrializados. Há questões como saúde e educação que são até mais importantes", diz.

Leite critica a capitalização da reforma agrária pelos movimentos de esquerda, como a Via Campesina. "Essas organizações utilizam oportunismos políticos e ideologias totalitárias. É preciso desenvolver mecanismos institucionais, que auxiliem o Estado a promover essas reformas."

Violência

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Um elemento que marca a ação de entidades ligadas à Via Campesina é a violência em confrontos com participação de camponeses. Para Jakeline Pivato, representante da organização no Paraná, conflitos como o do Paraguai, ocorrido em 15 de junho, refletem a maneira como os governos lidam com ocupações rurais. "Existe uma violência [dos Estados] que não gera sangue. É o caso das expulsões de trabalhadores de suas terras e a falta de oportunidade", diz.

Rafael Filippin, do Centro Universitário Facinter, afirma que a Via Cam­­pesina não defende apenas a reforma agrária. "A luta de movimentos rurais tem se modificado. O discurso am­­biental se tornou fundamental em diversos países, assim como a soberania alimentar­­ e o combate à corrupção", explica.