Não se pode explicar o burnout exclusivamente pelo ponto de vista fisiopatológico| Foto: Sydney Sims/Unsplash
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A humanidade vivencia hoje em dia vários problemas que são produtos da pós-modernidade, e um dos mais impactantes é a síndrome de burnout. O termo muitas vezes tem sido mal interpretado porque se mistura a situações que estamos vivendo, como estilo de vida, crenças e valores que carregamos. Enfrentar novos sofrimentos demanda também admiti-los. Rever a forma como organizamos nossas vidas e o trabalho não será tarefa fácil.

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Não se pode explicar o burnout exclusivamente pelo ponto de vista fisiopatológico e apenas pelos sintomas da ansiedade, depressão ou esgotamento. Genericamente falando, a grande questão é que ele está intimamente relacionado ao trabalho. É na atividade laboral que a pessoa vivencia a situação de adoecer ou mesmo agravar alguma doença mental.

Mais recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu cientificamente o burnout como um transtorno do humor ou de ansiedade, mas com relação direta de causa ou agravamento pelo trabalho. A grande reflexão é que, apesar de estar inserido no Código Internacional de Doenças (CID), ele ultrapassa a definição da doença. É, na verdade, um conjunto de doenças mentais que são provocadas ou agravadas pelo trabalho.

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É possível, por exemplo, traçar um paralelo das semelhanças históricas com a lesão por esforço repetitivo (LER) e a doença osteomuscular relacionada ao trabalho (DORT). Essas patologias também foram causadas pela mudança da forma como se trabalhava tradicionalmente. Essas doenças ocupacionais aumentaram quando surgiu a digitação no computador e as pessoas começaram a ficar mais horas sentadas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu cientificamente o burnout como um transtorno do humor ou de ansiedade, mas com relação direta de causa ou agravamento pelo trabalho

A mudança na rotina de trabalho fez com que os indivíduos começassem a ter, por exemplo, a síndrome do túnel do carpo e a epicondilite, problemas que afetam trabalhadores que ficam diante dos PCs por muito tempo. Em relação às doenças osteomusculares, aquela inflamação dolorosa que afeta tendões, músculos e articulações, houve uma reação na população de que o problema era o doente, não a doença. Como antes o funcionário costumava digitar e não apresentava problemas, a tendência foi responsabilizar a vítima, inclusive atacando mais as mulheres, que tinham um maior número de casos. O público, porém, não considerou o número de horas trabalhadas que aumentou ao longo do tempo, nem a intensidade diária ou a postura inadequada por horas e as novas formas de exigir produtividade.

A partir da abordagem equivocada, responsabilizando as vítimas, o INSS tipificou os distúrbios como LER/DORT (Lesão por Esforço Repetitivo e Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho), que são síndromes clínicas que afetam o sistema musculoesquelético do paciente e têm relação de causa ou agravamento com o trabalho. A LER/DORT, de fato, é a mesma síndrome do túnel do carpo, da epicondilite e da bursite comuns, mas necessariamente relacionadas ao trabalho. Essa novidade, por sinal, incentivou a contratação de profissionais de educação física e fisioterapeutas para ministrarem a ginástica laboral, realizada dentro dos locais de trabalho. O objetivo é estimular a ginástica laboral para fortalecer a musculatura da força de trabalho, permitindo que o operador do computador resista à carga de trabalho.

O problema se arrastou por um bom tempo até que a situação gerasse um passivo trabalhista muito grande para as empresas. Inclusive, entrou nessa discussão a ergonomia osteomuscular, que são práticas que visam o maior conforto no trabalho para aumentar a produtividade. Nesse caso, visam ajustar o ambiente de trabalho para reduzir problemas físicos, como, por exemplo, os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT).

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Hoje, o empregador está diante de algumas novas exigências normativas. Por exemplo, a exigência do ângulo do cotovelo e do pescoço, determinados pela altura do monitor; o digitador não pode ultrapassar a digitação de 8 mil toques (caracteres) por hora, e o empresário pode até ser obrigado a trocar as cadeiras de toda sua equipe, pois precisam fornecer apoio de cotovelo para todos, além de outras disposições regulatórias.

Nesta nova fase, ao comprar uma cadeira de escritório, o produto já vem com apoio de cotovelo, a maciez adequada e apoio para lombar. Dessa forma, foi consagrada a ergonomia osteomuscular, conhecimentos que previnem e tratam distúrbios osteomusculares no trabalho, ou seja, doenças que afetam os ossos, músculos, ligamentos e tendões do corpo humano. Trocamos a adaptação das pessoas ao trabalho, através da ginástica laboral, pela prevenção de adoecimentos, adaptando o trabalho às necessidades humanas de conforto, por meio da ergonomia osteomuscular.

Essa novidade provou que a LER/DORT, estabelecida pelo INSS, serviu efetivamente para mobilizar a sociedade a deixar de observar exclusivamente o doente e começar a focar também no trabalho. Houve resistência no início, mas hoje não se discute mais. No burnout, estamos repetindo a história, mas com um enfoque mais amplo e também psíquico.

Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontou que trabalhar 55 horas por semana ou mais aumenta em 35% o risco de morte por acidente vascular cerebral (AVC) e em 17% por doença cardíaca. Este estudo revelou que 745 mil pessoas morreram em 2016 de derrame e doenças cardíacas relacionadas a longas horas de trabalho. Naquele ano, de acordo com o levantamento, as doenças e lesões ligadas ao trabalho foram responsáveis pela morte de 1,9 milhão de pessoas ao redor do mundo.

Hoje, lamentavelmente, estamos numa fase em que ainda se estimula as pessoas a reforçarem o aparelho psíquico para aguentar a sobrecarga de trabalho, o que pode elevar o risco de burnout. Este excesso vai além do aspecto quantitativo, pois uma abordagem muito importante do problema também é a qualitativa. Há inúmeros trabalhadores que praticam meditação, yoga, fazem boa alimentação, realizam higiene do sono e atividades físicas, que são fundamentais para todos, mas que, nesse contexto, ajudam as pessoas a levar a cabo suas tarefas ocupacionais diárias. Estamos repetindo a ginástica laboral, mas agora mental. Por isso, a OIT alertou para observar o doente e colocar também o ‘trabalho’ nesse contexto.

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André Fusco, médico psicanalista, é TedX Speaker, professor e consultor em saúde mental.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]