Indústria pediu ao varejo reajustes “parcelados” do café: 15% em dezembro e mais 15% em janeiro| Foto: Wenderson Araujo / Divulgação CNA
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Daqui a alguns anos, quando as futuras gerações forem estudar a História do Brasil, haverá um capítulo chamado “A Revolta do Café”. Os professores explicarão que em 2025, mesmo o país sendo o maior produtor de café no mundo, o brasileiro ficou sem seu calmante natural e fonte de alegria para começar o dia. A criançada, jovem, mas esperta, questionará: como é possível?

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Então, dirá o mestre: “É que tivemos um governo que gastava muito e esse descontrole com as contas públicas jogou a inflação lá em cima e fez o preço da comida subir horrores. Acreditam que o presidente da época prometeu picanha e depois nem café o povo conseguia comprar?”. “Nãoooo”, responderão incrédulos os alunos.

O preço do café, até então um prazer diário e barato, ficou impraticável em 2025 contarão os livros, tablets, nuvens ou o que quer que os estudantes usem no futuro. Sem picanha, cerveja e nem o famigerado café, a revolta começou. No início, as famílias o faziam mais ralo, o tal chafé. Depois, tentaram o café de milho, que era mais barato. E aí foram reduziram a quantidade de compra no mês até que acabou de vez.

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Aquele cafezinho, simples e inocente que traz a alma para o corpo pela manhã, que faz o cérebro adormecido engrenar, que pode ser coado na hora em casa, bebido sem acompanhamentos, na pressa, na rua, ou num domingo despretensioso. Num pingado no balcão da padaria com um pão na chapa ou numa prensa francesa toda chique. Puro, com chantilly, açúcar, forte e amargo.

O preço do café, até então um prazer diário e barato, ficou impraticável em 2025 contarão os livros, tablets, nuvens ou o que quer que os estudantes usem no futuro

O cafezin, o pingado, o expresso, o prazer mais simples e até então acessível para quase todo mundo, inclusive aos mendigos que sempre ganhavam um cafezinho dos passantes na rua. O cafezinho de cada dia foi tirado do trabalhador. Os efeitos começaram a ser sentidos dentro e fora de casa. As pessoas ficaram mais irritadas, saiam de casa já mal-humoradas, brigavam no ponto de ônibus. Gentileza passava longe. Confusão no trânsito. Pessoas sempre com sono, irritadas, com prisão de ventre e olheiras que nenhum corretivo dava jeito. Parecia um exército de zumbis, explicarão os professores.

As demissões aumentaram porque, sem o leve sedativo matinal, os sapos diários ficaram mais difíceis de engolir. As pausas no dia para reduzir a pressão também cessaram. Quem teve comportamentos viscerais por causa da abstinência do café foi preso – mas logo depois liberado na saidinha de Natal. Imagine depois de meses encarcerado sem café. Foi o caos.

Nas aulas, que não sabemos se será virtual, presencial ou por pensamento, os educadores vão explicar que o presidente da época não foi o pior porque seu partido foi um marco da corrupção em estatais, nem pelos gastos ou pela primeira-dama. Muito menos porque mandou o povo parar de comprar comida cara porque a inflação estava nas alturas. É que ele deveria ter controlado essa inflação, mas fez o contrário. Suas decisões e mensagens ao mercado fez com que fosse mais interessante vender café para fora e não para os brasileiros. Aí, não teve como, o café ficou amargo mesmo.

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“O cabra tirou a essência do brasileiro, acreditas?”, contará o professor mais arretado. Tudo bem que a plantação de café é muito sensível às condições climáticas e o calor extremo e seca afetaram as safras desse período, além de problemas logísticos e econômicos. Mas, convenhamos – chegarão à conclusão os professores e as sagazes crianças – era trabalho do líder do país garantir ao brasileiro, pelo menos, a singela alegria de começar o dia com um gole de anestesia para enfrentar a realidade – inclusive a qual ele ajudou a se tornar difícil de engolir.

Raphaela Ribas, jornalista com especialização em Marketing na Austrália, é repórter nas áreas de economia e energia na Gazeta do Povo. É uma das Top 10 jornalistas +Premiados de 2023 (Jornalistas & Cia).

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