Em 19 de janeiro de 2025, o Hamas libertou três reféns israelenses: Romi Gonen, de 24 anos, tendo por 12 anos estrelado apresentações solo e sido coreógrafa; Emily Damari, cidadã britânico-israelense de 28 anos; e Doron Steinbrecher, enfermeira veterinária de 31 anos. Romi Gonen foi sequestrada durante o festival de música Nova, enquanto Emily Damari e Doron Steinbrecher foram capturadas em suas casas no Kibutz Kfar Aza durante o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023. Após 471 dias de cativeiro na Faixa de Gaza, as três mulheres foram entregues ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha e retornaram a Israel, onde foram recebidas por suas famílias e encaminhadas para tratamento médico no Centro Médico Sheba.
A libertação dessas reféns tratava-se da primeira troca do cessar-fogo entre Israel e o Hamas, mediado por Estados Unidos. O acordo previa a libertação escalonada de 33 reféns israelenses em troca de cerca de 1.900 prisioneiros palestinos detidos em prisões israelenses. Na primeira troca, Israel libertou 90 prisioneiros palestinos, incluindo 69 mulheres e 21 adolescentes, alguns com apenas 12 anos de idade.
Durante o cativeiro, as reféns enfrentaram condições difíceis, incluindo longos períodos de confinamento subterrâneo. Emily Damari apareceu com uma das mãos enfaixada e sem dois dedos. Eu assisti cinco vezes consecutivas ao vídeo reféns Doron, Emily e Romi encontrando suas respectivas mães. Primeiro como mãe, depois como filha, como soldado, como psicóloga e, por fim, novamente como mãe. Neste momento, todos nós somos todos os papéis: aqueles que sofrem e aqueles que amparam. Porque, ao amparar, nós sentimos a dor do outro; sentimos o corpo se despedaçando e se reconstruindo.
Parei para escrever. Postei nos stories de uma rede social e assisti novamente mais três vezes o mesmo vídeo. Então decidi deixar essa reflexão registrada no feed do mesmo canal. Sempre que escrevo sobre Israel, perco dez seguidores no primeiro minuto e dezenas de outros também se vão ao longo das horas seguintes. Pessoas que nunca vi, que não sabem qual alimento me dá alergia ou qual é minha rotina antes do trabalho. Pessoas que deixam de me seguir porque falei de Israel.
O sistema educacional não está atrasado em relação à evolução humana. Pelo contrário, está até 'avançado' demais. Estamos formando gerações que relativizam o terrorismo, que distorcem a história e que condenam aqueles que se protegem
Mas quem se importa com engajamento virtual quando o que está em jogo é muito mais profundo? Quem se importa com a superfície dos relacionamentos e da sociedade quando, no fundo do oceano ou no núcleo terrestre, a vida acontece de uma forma que poucos percebem? Na noite de 20 de janeiro de 2025, escrevi sobre a libertação das primeiras reféns Doron, Emily e Romi. Em poucos minutos, as palavras fluíram de maneira quase automática, sem revisões ou pesquisas, e, ao acordar no dia seguinte, fiquei surpresa ao vê-lo viralizar. Talvez tenha sido o post meu que mais viralizou desde que entrei naquela rede. E eu não havia perdido nenhum seguidor. Embora tenha sido escrito de uma vez só, ele já vinha sendo construído na minha alma ao longo quase 500 dias de angústia e mobilização da comunidade judaica em São Paulo. Foram tantas vigílias, manifestações e atos públicos que, de certa forma, aquele texto parecia ser a apoteose emocional dessa guerra.
Lembro-me do impacto ao ver, pela primeira vez, vídeos e fotos da jovem observadora Daniella Gilboa. Sua expressão tinha algo familiar, como se eu enxergasse nela a minha própria imagem quando adolescente. Essa conexão pessoal fez com que o sofrimento das famílias dos reféns se tornasse ainda mais visceral. Muitos de nós, mesmo a milhares de quilômetros de distância, sentimos como se tivéssemos atravessado o tempo e o espaço. De repente, não éramos apenas espectadores; nos tornamos reféns e seus familiares.
Adianta dizer, para quem não quer ouvir, que Israel existiu antes mesmo do tataravô do seu tataravô nascer? Nos últimos 500 e muitos dias, ficou evidente o desafio de comunicar para uma geração que entregou seu cérebro e sua fonte de conhecimento a vídeos de 30 segundos. E, nesses vídeos, a sociedade se derrama sobre a camada mais superficial de todas: aquela visível a olho nu, na primeira montagem de fotos e narrativas.
A tecnologia, como tudo que é construído, serve para o bem e para o mal. E nunca antes foi tão fácil e rápido alimentar – ou alienar – pessoas com a destruição. Narrativas parciais ou ambíguas, imagens manipuladas e informações descontextualizadas criam percepções que não só distorcem a realidade, mas também alimentam o círculo vicioso do ódio.
Então, por que continuo escrevendo sobre Israel? Primeiro, porque cedo aprendi que comportamentos podem mudar, mas valores, não. E, se pelos meus textos eu ganho “haters”, também reforço os valores que me sustentam. Segundo, porque não é apenas sobre Israel. É sobre famílias dilaceradas. É sobre a humanidade e sua incapacidade de compreender que o terrorismo coloca civis, crianças, jovens cheios de planos e famílias comuns vivendo seu cotidiano na mira da destruição.
Quantas gerações mais serão necessárias para que entendam que o terror é inaceitável, seja onde for? Quantas vidas ainda serão apagadas antes que possamos finalmente enxergar a humanidade no outro, mesmo naqueles que vivem realidades diferentes das nossas? Não é apenas sobre Israel. É sobre todos nós.
Mas então, quase um mês depois, em 20 de fevereiro, tudo mudou. A esperança, as palavras, as memórias, tudo desmoronou. O silêncio se impôs sobre nós. Os corpos dos bebês Bibas, que se tornaram um dos símbolos mais dolorosos dessa guerra, senão o principal, foram finalmente devolvidos pelo Hamas ao pai, igualmente refém e libertado duas semanas antes. As imagens de Shiri, a mãe, sendo tirada de casa onde dormia com os dois filhos, então com 9 meses e 4 anos respectivamente, no colo, rodaram o mundo. Mas eles não voltaram vivos. O mundo assistiu, chocado, enquanto a confirmação da morte dessas crianças desmoronava qualquer ilusão de humanidade.
Ao longo do dia, amigos do mundo todo publicavam suas indignações, compartilhavam fotos e vídeos que traduzissem a dor de um novo golpe brutal. Eu, no entanto, não conseguia escrever nada. Simplesmente postei a imagem de um balão laranja acompanhada de um trecho da música Canções e Momentos, de Milton Nascimento. Desde a primeira vez que ouvi essa canção, aos 12 anos, na Cantata de Natal do Palácio Avenida (antigo Bamerindus), em Curitiba, essas palavras sempre me acompanharam: "Há canções e há momentos que eu não sei como explicar, em que a voz é um instrumento que eu não posso controlar".
Mas não se trata de dúvidas cotidianas sobre qual filme assistir ou onde viajar nas próximas férias. Refiro-me às grandes dúvidas existenciais, aquelas que fizeram filósofos gregos passarem anos buscando respostas – e que também levaram Galileu Galilei a desafiar as crenças estabelecidas de seu tempo. Galileu, ao observar o céu, percebeu que os corpos celestes não se moviam como se acreditava. Suas descobertas – as fases de Vênus, as manchas solares, as luas de Júpiter – abalavam a visão geocêntrica do mundo e confirmavam o modelo heliocêntrico de Copérnico. A Terra girava em torno do Sol, e não o contrário.
Mas questionar verdades absolutas tem um preço. Em 1633, após uma batalha de quase 20 anos entre o astrônomo italiano e o Vaticano, a Igreja o condenou por heresia e o forçou a abjurar suas descobertas. Ele passou o resto da vida em prisão domiciliar, impedido de divulgar o conhecimento mas continuou a escrever e trabalhar as suas pesquisas. Até quando o medo do novo calará os que ousam questionar?
Naquela noite, já deitada, olhando para o teto, meu marido entrou no quarto depois de colocar as crianças para dormir. Ele percebeu que minha mente estava inquieta e perguntou o que eu estava pensando. Mas para responder, eu precisaria ao menos ter uma frase formulada — e eu não tinha. Após alguns minutos de silêncio, comecei a falar sobre o sistema educacional. Talvez não fosse a resposta que ele esperava, mas ele me ouviu com paciência, como sempre faz, esperando ver onde eu queria chegar.
A educação é a área com a qual mais trabalhei ao longo da vida. Com o tempo, meu olhar sobre a educação amadureceu, e a pandemia da Covid-19 acentuou minhas inquietações. O fechamento das escolas forçou famílias a adotarem, sem escolha, um modelo de ensino remoto improvisado. Pais que nunca cogitaram o homeschooling tornaram-se tutores de seus filhos, independentemente de suas profissões ou rotinas.
Naquele período, milhares de famílias começaram a questionar profundamente o sistema educacional. Movimentos emergiram defendendo a reabertura das escolas, e mesmo que alguns não dividissem o mesmo propósito, no fundo, todos carregavam a mesma percepção: o sistema educacional está atrasado. Ele permanece estagnado em um modelo da década de 1950, incapaz de acompanhar a evolução do ser humano. Mas será que o ser humano realmente evoluiu? Então, pauso meu discurso, respiro fundo e me viro para meu marido, que segue atento, tentando entender minha linha de raciocínio.
O que aconteceu no sul de Israel em outubro de 2023, quando centenas de terroristas invadiram um festival de música repleto de jovens que estava apenas dançando e atacaram centenas de casas ao amanhecer de um sábado— shabat, o dia sagrado dos judeus? Casas onde dormiam famílias inteiras, idosos, crianças. Os invasores não apenas assassinaram, mas o fizeram da forma mais brutal possível — esquartejando vítimas vivas, queimando pessoas, destruindo lares. Isso é evolução? A crueldade foi refinada?
Meu marido, então, entende o ponto e apenas responde: "Entendi o que você quis dizer”. Naquele instante, percebi que a bandeira que carreguei por tanto tempo – a de que o sistema educacional está defasado em relação à evolução humana – desmoronava diante de mim. Estamos em 2025 e, no entanto, os métodos de crueldade continuam os mesmos descritos nos primeiros capítulos da Bíblia. A diferença? Agora, os assassinos chegam de drones em vez de cavalos. A brutalidade, no entanto, continua idêntica. E o que o sistema educacional ensina sobre isso?
Ensina que Israel só passou a existir em 1948 e que os palestinos são os únicos proprietários legítimos daquela terra e que os judeus nunca lá habitaram, mesmo com evidências históricas e religiosas incontestáveis – a Bíblia fala sobre os judeus em vários trechos, como em Isaías 43, Oseias 6, Jeremias e Juízes. Ensina que qualquer forma de defesa é errada, mesmo diante de ameaças reais e iminentes à vida e à segurança, evidenciando o pacifismo extremo. Que não há verdades absolutas ou direitos universais, e que cada cultura ou grupo pode definir seus próprios padrões de moralidade, relativizando a moralidade. Que os judeus são responsáveis por problemas globais tais como a pobreza, a desigualdade ou a guerra, perpetuando estereótipos antissemitas e que a identidade judaica é apenas uma construção social ou cultural, e não uma identidade étnica ou religiosa legítima.
Ensina que o terrorismo pode ser relativizado quando a causa é "progressista". Ensina que há opressores e oprimidos definidos por uma cartilha ideológica, e não pela realidade dos fatos. Ensina que vítimas e agressores são equivalentes, desde que seja conveniente ao discurso dominante. Ensina que queimar bandeiras de um país democrático e gritar por sua extinção é "liberdade de expressão", mas discordar de certas narrativas hegemônicas é "discurso de ódio". Ensina que ocupações terroristas podem ser justificadas, mas a defesa de um Estado soberano é sempre condenável.
Ensina que o sofrimento de um grupo deve ser silenciado, enquanto o de outro é amplificado. Ensina que a história pode ser moldada para atender interesses políticos e que repetir mentiras suficientes vezes pode torná-las aceitas como verdades. Ensina que o Holocausto foi um evento distante, que nada tem a ver com o presente, e ignora que a ideologia antissemita que o sustentou continua viva. Ensina que o massacre de civis pode ser ignorado se os perpetradores forem "milícias revolucionárias", e que um sequestro em massa de crianças e bebês pode ser relativizado se a narrativa exigir. Ensina, enfim, que o conhecimento não precisa servir à verdade, mas sim à conveniência política e ideológica.
Não, o sistema educacional não está atrasado em relação à evolução humana. Pelo contrário, está até "avançado" demais. Estamos formando gerações que relativizam o terrorismo, que distorcem a história e que condenam aqueles que se protegem. E, enquanto isso, sabemos que primeiro atacarão o povo do sábado e depois o povo do domingo, como os próprios extremistas fazem questão de declarar. Se há algo que de fato evoluiu, não foi a humanidade. Foi a maneira como se justifica o injustificável.
Lílian Schreiner Módolo é doutora e mestre em Administração pela USP, professora universitária e de pós-graduação, empresária, especialista em Educação do Ensino Superior (Laureate) e está cursando outra graduação em Psicologia. Autora do livro "Glossário da Superdotação" e coautora de "Teddy Roosevelt para Crianças", dentre outros livros, capítulos de livros e apresentou artigos em +20 congressos internacionais. Foi Researcher Fellow na Universidade de Graz, Áustria. É tradutora dos livros clássicos "Differentiating Giftedness from Talent" (Françoys Gagné) e "The Schoolwide Enrichment Model" (Joseph Renzulli) e vice-presidente da Associação Superdotação no Mapa.
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