Jovens europeus e dos EUA perderam a capacidade de sonhar, que migrou para países como China e Brasil
"A Europa continua a ser o melhor lugar para viver, mas não é bom lugar para sonhar." Essa frase deu o tom a seminário de que participei em Portugal sobre o futuro europeu. Lembrei-me do que se dizia nos anos em que eu morava em Genebra: a Suíça era o país escolhido pelos ricos e famosos Chaplin, Simenon, Graham Greene não para viver, mas para morrer ou para esperar a morte com conforto e tranquilidade.
No contexto atual, é diferente; França, Itália, Espanha ainda são maravilhosos para se viver. Só que os jovens não têm mais futuro. Perdeu-se a esperança: a capacidade de crer que o dia de amanhã será melhor do que hoje, assim como hoje foi presumivelmente melhor que o dia de ontem.
O fenômeno não é restrito ao âmbito europeu. Nos Estados Unidos, a geração dos que completaram 18 anos no início do milênio não é mais capaz de reproduzir o desempenho dos pais e avós.
O desemprego nessa faixa está em 14%. Contando os que desistiram de buscar emprego, ultrapassa os 30%, níveis próximos aos da depressão dos anos 30.
Comparou-se muito a crise financeira de 2008 ao estouro da Bolsa de 1929. Acreditou-se que a eleição de Obama traria de volta o espírito mágico do New Deal de Franklin Roosevelt, antecipando a ressurreição da economia norte-americana.
A realidade tem sido bem mais amarga: o desemprego teima em se manter perto de 10%, o país está ideologicamente dividido e polarizado, o sistema político tem medo até de prorrogar os benefícios aos milhões de desempregados. O otimismo da Era Roosevelt parece mais inatingível do que nunca.
Enquanto americanos e europeus discutem se a prioridade é cortar o déficit ou continuar a gastar para reavivar a economia, a capacidade de sonhar emigrou para outras latitudes. Quem sonha agora são os jovens chineses.
Sonhos singelos comprar um minúsculo apartamento, precondição para poder casar, ganhar um pouco mais na fábrica ou sonhos de consumo como das moças que esperam horas na fila para poder comprar artigos de grifes francesas de luxo em Xangai.
Os brasileiros também conseguiram ingressar na categoria dos povos que começaram a poder sonhar: com a casa própria, com o carro, um futuro para os filhos melhor que o deles. Juscelino Kubitschek tinha logrado vender ao país a ideia do desenvolvimento.
Talvez o maior êxito do presidente Lula tenha sido o de tornar contagiante a ideia do "sonho brasileiro" de consumo na hora em que o "sonho americano" entrou em crise.
Em sua História da Guerra Fria, André Fontaine intitulou o tomo dedicado à coexistência pacífica da época de Kruschev de Uma só cama para dois sonhos. A referência era a um provérbio chinês: "Leste e Oeste dormem no mesmo leito, mas sonham sonhos diferentes".
A fim de devolver aos jovens a possibilidade de sonhar, é preciso unificar os sonhos de velhos economistas e políticos. O sonho de reequilibrar o orçamento terá de ser conciliado com o mais urgente, de reinventar economia dinâmica e rica de empregos.
No Brasil, sonho intenso, de acordo com o hino, já se sonha muito. Convém moderar o excesso antes que o sonho vire pesadelo, pois de pouco serve se o sonho for intenso, mas breve.
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Rubens Ricupero é diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo. Foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda. Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.