Em momento relevante para os interesses nacionais, quando União Europeia, Estados Unidos e Japão se aliam para acusar o Brasil de protecionismo, a candidatura do brasileiro Roberto Azevedo para a direção geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), uma das instituições basilares da governança global, paradoxalmente se robustece, para ganhar inusitados apoios no colégio de 159 países-eleitores.
Embora a União Europeia bem saiba o que é protecionismo, pelas suas consolidadas práticas desleais de comércio e nomeadamente pela sua insidiosa política agrícola comunitária, seu parcial apoio ao nosso candidato bem demonstra a densidade da postulação. Quanto aos Estados Unidos, é provável que sua escolha recaia sobre o outro contendor, o mexicano Hermínio Blanco. No entanto, na OMC, não contar com o apoio estadunidense não é necessariamente algo de mal, muito pelo contrário.
Claro que diretores de entidades internacionais devem antes e acima de tudo demonstrar isenção e neutralidade, em particular com relação a interesses eventuais de seus países. No cotejo entre o brasileiro e o mexicano, mais que do que as bandeiras, estarão em confronto estilos e biografias contrastantes. Azevedo é sul-americano, diplomata de carreira, estrategista de grandes vitórias brasileiras na própria OMC, consagrado e habilidoso negociador. Blanco é formado na Universidade de Chicago, berço do monetarismo, identificado com o Nafta, bloco comercial da América do Norte, do qual foi um dos idealizadores. Apesar de ter a escolha final acabado entre dois latino-americanos, com a exclusão dos candidatos da Nova Zelândia, da Indonésia e da Coreia do Sul, de fato se opõem candidatos com diferentes visões de mundo. O brasileiro vocaliza a percepção das novas economias emergentes, a propugnar por justiça e equidade nas práticas comerciais, com abertura econômica, mas em dois sentidos, também dos países hegemônicos em direção às periferias globais. Já Blanco se enquadra naquilo que mesmo mexicanos identificam e denominam, com algum criticismo, de pocho: indivíduos aculturados, formados e moldados na visão estadunidense, defensores do sentido absolutamente privado do mercado e da economia. Como pano de fundo, é inegável reconhecer-se no confronto a tensão existente entre Brasil e México, com suas imagens projetadas para o resto do mundo, como parceiros desejáveis ou não.
Sem a pretensão de prever o desenrolar dos fatos, espera-se o apoio da China e da Índia ao candidato brasileiro. Não apenas pelos comuns anseios acerca do que deva ser a gestão política e jurídica da OMC, onde muito se fala de abertura comercial contra o protecionismo, ao mesmo tempo em que se o pratica às escâncaras, de alguma forma ou em alguma medida, mas sempre com algum subterfúgio de razões de estado. Em face da virtual vitória de Roberto Azevedo, com o apoio de boa parte da Ásia, da África e da América do Sul, mais uma vez o Brasil poderá projetar e valorizar sua reconhecida tradição diplomática, sempre na paz e em busca do diálogo, como rara nação a manter relações plenas com todos os países do mundo.
Jorge Fontoura, doutor em Direito Internacional, é professor do Instituto Rio Branco e árbitro titular do Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul.
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