Primeiro foi a revista Veja, que em edição recente criticou a pesquisa científica brasileira. Acusou-a de rendida ao mercado das revistas internacionais pagas – um mercado em imoral expansão. Neste início de ano, a deixa ficou para o jornal Folha de S.Paulo. Em artigo, o físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite explica, sem assoprar, por que o país responde por apenas 1% dos estudos ditos sérios feitos no mundo, de acordo com dados da revista britânica Nature. O número sobe para 2,5% quando são somadas as revistas menos conceituadas. Não importa o lado para o qual se olhe – dá vontade de correr.

CARREGANDO :)

A pesquisa científica brasileira tem telhado de vidro. É fácil atacar. Qualquer conta mostra que, além de ruim de briga, é cara. Nos bastidores das universidades, é bom que se diga, reconhece-se a fragilidade. Um dos argumentos mais praticados é de que o governo contrata um pesquisador para estudar, mas o bamba tem de se acabar em sala de aula. Esqueça aquela imagem cândida das universidades públicas em que um mestre orientava uma dezena de alunos, como se fossem todos oriundos de um mundo perfeito. Salas quais auditórios de cursinho são cena comum nas federais.

Cerqueira lembra que o Chile, com muito menos dinheiro, publica mais e melhor – um tiro impiedoso na nossa ineficiência. Os vizinhos gastam US$ 2 bilhões e conseguem imprimir mais de 700 artigos em revistas especializadas de altíssimo nível; nós gastamos US$ 30 bilhões para dar conta de 670 publicações. Uma das explicações para tamanho descompasso é a estrutura da universidade pública – o status dos concursos, a baixa cobrança e a burocracia servem de veneno para matar no ninho um candidato a pesquisador. Quem arca com os expedientes internos tem muito mais chance de crescer – e também de acabar num hospício.

Publicidade

É bom que se diga que esses rankings de produção científica são bastante líquidos. Se a lista sair dos arquivos da Capes/CNPq, será bem mais auspiciosa. E há, de fato, uma pressão para que se produza mais, pois sem "artigo na caixa" os programas de pós-graduação minguam, incorrendo no risco do descredenciamento. Não falta quem credite a esse modelo taylorista a causa da alta produção de lixo científico no Brasil. Na pressa, come-se cru e quente. Daí o conselho dos mais velhos: substituir o excesso pelo impacto. Mas é saliva gasta.

Produz-se mais, mas não melhor. Os mestrados são cada vez mais rápidos. Dissertações se confundem com ensaios. Teses, com dissertações, quando muito. A pressa em publicar e mandar para congressos gera um sem-número de produções primárias que ficariam muito bem num trabalho de conclusão numa disciplina de graduação. Mas há de se considerar uma certa crueldade nesse veredito. O país talvez esteja num estágio intervalar de sua maturidade científica. Não é por causa dos bêbados que se vai jogar todo o vinho fora.

Sem dúvida, os grupos de pesquisa e os processos de produção de conhecimento nas universidades se tornaram mais transparentes. Há mais clareza quanto às redes em que essas informações circulam. Universidades particulares – tantas delas um dia comparadas a cursinhos de culinária aplicada – provam o gosto amargo da concorrência e tendem a se coçar. É visível. Mesmo que as nossas porcentagens não sejam chilenas, há de se considerar que a máquina começa a desemperrar.

Pode-se dizer que problema tão grave quanto a qualidade da produção é o "para que serve". É questão delicada. O cenário da pesquisa ficou mais globalizado e parece natural que um estudioso brasileiro tenha seu olhar voltado para a Turquia ou para o Canadá, por exemplo. E que visite esses países todos os anos, o que o ajuda a sair da caixinha, a mostrar sua produção. Mas não há mapa que mostre se é de fato saudável esse desenraizamento da pesquisa acadêmica feita no Brasil. Pouco sabemos dos efeitos do sistema de troca de conhecimento – e para isso servem os artigos: para que as informações sejam testadas por seus pares.

Fica a dúvida se a pesquisa, cada vez mais cosmopolita, não se torna proporcionalmente invisível para as regiões onde vivem os pesquisadores. A imagem do pesquisador de carne e osso, que trabalha para o desenvolvimento regional, ficou nublada. A culpa desses surtos de invisibilidade, claro, não é só do CNPq e suas regras draconianas, nem do ramerrão dos concursos públicos para pesquisador/professor. As universidades se politizaram, no pior sentido da palavra, a ponto de terem se convertido em palco de uma ópera bufa. Ficaram um tanto ensimesmadas. Depois da Petrobras, mal não faria se fossem investigadas até o osso. E que os governos criassem planos de emergência para repactuar os trabalhos internos nas instituições. Seria uma grande economia de recursos. E por certo melhoraria a pesquisa – em casa arrumada, produz-se mais e melhor.

Publicidade

Dê sua opinião

Você concorda com o editorial? Deixe seu comentário e participe do debate.