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O novo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, pode até ter se sentido lisonjeado com a comparação feita pelo cantor Caetano Veloso entre o ato de fazer poesia e a escolha do palavreado das atas do Copom, mas na vida real a semana passada foi de cobranças. Na quarta-feira, em seminário promovido pelo Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças (Iepe/CdG), no Rio, Galípolo ouviu de Armínio Fraga que “a coisa não está bem” e que ele tem de convencer o governo sobre a necessidade de responsabilidade fiscal. Dois dias depois, a empresária Luiza Trajano, em evento da Fiesp, pediu a Galípolo para “não comunicar mais que vai ter aumento de juros, porque aí já atrapalha tudo desde o começo”.
A presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza, aliada de longa data do petismo, disse que os juros altos dificultam a vida do empreendedor, especialmente do pequeno e médio empresário, o que de fato é verdade. Mas ela falou como se a política monetária fosse algo que o Copom tira da cartola de forma completamente arbitrária, a seu bel-prazer; tanto é assim que a empresária pediu que o Banco Central “pensasse fora da caixa” no esforço por controlar a inflação, sem recorrer a elevações nos juros – mas não fez nenhuma sugestão a esse respeito.
O que realmente “atrapalha tudo desde o começo” é a prática do governo federal de gastar como se não houvesse amanhã, desvalorizando a moeda
Certamente uma pessoa com experiência tão longa no mundo dos negócios quanto Luiza Trajano sabe que a taxa de juros não é causa, mas consequência de uma inflação fora do controle, o que por sua vez é resultado de vários fatores, que ao menos no caso brasileiro incluem uma política fiscal expansionista do governo federal. Por mais que os últimos meses tenham tido eventos climáticos que afetaram a oferta de vários produtos, por mais que a alta do dólar (que cria pressão inflacionária) seja também causada por fatores externos que o Brasil não controla, fato é que, hoje, o que realmente “atrapalha tudo desde o começo” é a prática do governo federal de gastar como se não houvesse amanhã, desvalorizando a moeda. Mas até que ponto Luiza Trajano estaria disposta a reconhecer que o problema está não no BC, mas em seus amigos no Planalto?
Já Fraga é um caso à parte. Um dos pais do Plano Real, ele emprestou sua credibilidade ao petismo quando “fez o L” em 2022. Fraga e seus colegas Edmar Bacha, Pedro Malan e Persio Arida afirmaram, laconicamente, que “nossa expectativa é de condução responsável da economia”, mesmo sabendo de todo o histórico de irresponsabilidade fiscal do petismo, e apesar de na própria campanha de 2022 Lula ter menosprezado a importância do controle de gastos. Agora, tenta se distanciar do caos criado pelo presidente cuja candidatura apoiou. À diferença de Luiza Trajano, Fraga sabe onde está o problema: “o Banco Central precisa de ajuda. E só tem um lugar que pode ajudar, que é o fiscal”, afirmou, acrescentando que “o emprego estar baixo é um sonho, mas agora a festa meio que acabou”, e que Galípolo ainda precisaria tomar o “suco amargo”, em referência a novas elevações da Selic.
Justiça seja feita, Galípolo não defendeu nenhuma loucura em suas respostas a Luiza Trajano e Armínio Fraga. À empresária, disse que “dificilmente problemas antigos vão ser resolvidos com as mesmas soluções que podem não ter dado certo no passado”, afirmação que foi lida como crítica à redução artificial dos juros promovida durante a passagem de Alexandre Tombini pela presidência do BC, em outro governo gastador, o de Dilma Rousseff. E, respondendo a Fraga, Galípolo disse que “o BC tem as ferramentas para colocar juro em nível restritivo e seguir nessa direção”.
No mesmo dia em que Galípolo ouviu as considerações de Fraga, o presidente Lula prometia, em entrevista, que “o Gabriel Galípolo vai consertar a taxa de juros nesse país, e temos que dar a ele o tempo necessário para fazer as coisas”. Como na mesma ocasião o petista ainda negou que haja qualquer tipo de crise fiscal no país – apesar dos déficits e da escalada da dívida pública –, o mais provável é que nem mesmo todo o tempo do mundo sirva para que o novo presidente do BC faça o que Lula espera dele. Afinal, como disse Fraga, “o Banco Central não faz milagres, não é?”