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A Groenlândia está de volta ao noticiário. A maior ilha do mundo, atualmente pertencente à Dinamarca, foi assunto de várias declarações de interesse do presidente norte-americano, Donald Trump, antes mesmo de sua posse, em janeiro, e acaba de ser visitada pelo vice-presidente J.D. Vance, que na ocasião afirmou: “não achamos que a força militar será necessária”, em relação à pretensão norte-americana sobre a ilha. No dia seguinte, entretanto, Trump disse, em entrevista à NBC News, que “há uma boa possibilidade de que a gente consiga fazer isso [transferir a posse da Groenlândia para os EUA] sem força militar (...), mas eu não tiro nada da mesa”.
A ideia de fazer da Groenlândia território norte-americano faz muito sentido do ponto de vista geopolítico. Acostumados a ver o mundo representado em planisférios, facilmente nos esquecemos de que a ilha está bastante próxima da Rússia, e controlá-la daria aos Estados Unidos um controle decisivo sobre a navegação no Ártico e sobre o chamado “vão Giuk” (acrônimo para Groenlândia, Islândia e Reino Unido), de forma a impedir que qualquer frota inimiga chegue à costa leste norte-americana. A pretensão territorial, portanto, não é nenhuma loucura, tanto que Trump está longe de ser o primeiro a falar no assunto: ofertas norte-americanas para comprar a Groenlândia dos dinamarqueses, ou trocá-la por outros territórios, têm sido feitas desde 1867.
A ideia de fazer da Groenlândia território norte-americano faz muito sentido do ponto de vista geopolítico
Se a Groenlândia é estrategicamente importante para os Estados Unidos, e se Trump está decidido a fazer da ilha território norte-americano, como deveria agir, então? Respeitando dois princípios fundantes e inegociáveis da atual ordem internacional, ordem esta que os próprios Estados Unidos ajudaram a construir, especialmente no pós-Segunda Guerra Mundial: o respeito à soberania das nações e à autodeterminação dos povos.
O primeiro deles é o mais evidente: as nações têm direito à soberania sobre seu território, que não pode ser simplesmente tomado à força por outro país. É verdade que conflitos continuaram a existir, inclusive com a participação dos EUA, seja no contexto da Guerra Fria ou, mais recentemente, do combate ao terrorismo. No entanto, invasões com objetivos de expansão territorial atraíram e seguem atraindo forte condenação internacional, isso quando não levam a uma reação militar para recuperar a soberania do território atacado, como ocorreu em 1991, na Guerra do Golfo, quando uma coalizão internacional foi montada, com aval das Nações Unidas, em resposta à anexação do Kuwait, promovida pelo iraquiano Saddam Hussein em 1990.
Já o segundo princípio, o da autodeterminação dos povos, é especialmente relevante no caso da Groenlândia. Exemplos anteriores de expansão territorial norte-americana por meio da compra pura e simples, como as aquisições da Louisiana, em 1803 (e que envolveram um território muito maior que o do atual estado da Louisiana), ou do Alasca, em 1867, adquiridas respectivamente de franceses e russos, não servem mais de parâmetro para os dias atuais. A muito custo, a comunidade internacional reconheceu que os povos têm direito a decidir seu próprio destino, um avanço civilizacional que, no caso em tela, significa que em hipótese alguma Washington e Copenhague poderiam discutir uma entrega da Groenlândia aos EUA sem o aval da população local. Não estamos falando de um pedaço de terra inabitada que, em tese, poderia ser livremente negociado entre governos, mas do destino de um povo inteiro.
Os groenlandeses têm uma boa dose de autonomia, que lhes foi concedida pelo governo dinamarquês ao longo dos anos – existe, inclusive, um movimento pela independência da Groenlândia, e duas legendas separatistas ficaram entre as mais votadas na recente eleição de 11 de março. A lei dinamarquesa permite a independência, desde que aprovada em referendo pelos groenlandeses, e depois pelo parlamento dinamarquês. O fato é que há vias legais, embora poucas e às vezes complexas, pelas quais Trump poderia conseguir o que deseja. Um dos partidos separatistas, por exemplo, defende a assinatura de um acordo bilateral de segurança com os EUA após a eventual independência. Se isso for pouco para os norte-americanos, que eles se esforcem, apresentem bons motivos e convençam os groenlandeses a aceitar tornarem-se parte dos Estados Unidos – como faz, por exemplo, a maioria dos portorriquenhos, desejosos de ver sua ilha como o 51.º estado norte-americano, uma ambição ironicamente rejeitada por Washington.
O fato é que até agora não apareceu nenhuma oferta na mesa. A Groenlândia não tem valor apenas geopolítico; a ilha tem petróleo e recursos minerais, incluindo as chamadas “terras raras”. Os Estados Unidos poderiam oferecer uma grande soma à Dinamarca, outra grande soma capaz de deixar milionários da noite para o dia todos os 56 mil habitantes da ilha, e ainda assim estaria em grande vantagem caso fechasse negócio. Tudo isso na mais perfeita cordialidade, esperada quando se trata de negociar com aliados, como é o caso dos dinamarqueses, e sempre com respeito absoluto pela opinião dos groenlandeses.
Os Estados Unidos deveriam ser uma força garantidora da ordem baseada no respeito às soberanias nacionais e na autodeterminação dos povos, e não um elemento desestabilizador
Se Trump estivesse apenas afirmando que está seriamente disposto a negociar uma aquisição pacífica da Groenlândia, e que gostaria de conversar com o governo dinamarquês e especialmente com a população local a respeito de valores ou contrapartidas, não haveria absolutamente nada a criticar. O que preocupa é a insinuação de que os Estados Unidos poderiam recorrer à força militar para conseguir a ilha, algo que o país não faz há mais de um século: os últimos episódios de agressão militar norte-americana que resultaram em ampliação de território, ou que tinham especificamente este objetivo, haviam sido a Guerra Hispano-Americana de 1898, em que os EUA assumiram o controle das Filipinas, de Porto Rico e de Guam; e a Guerra Mexicano-Americana de 1846-48, que terminou com a posse norte-americana do Texas, da Califórnia e de outros territórios.
Voltar a essa época, em que territórios e suas populações podiam ser simplesmente tomados pelo mais forte, representaria um enorme retrocesso civilizatório. O respeito às soberanias nacionais e à autodeterminação dos povos são princípios dos quais, como dissemos, não se pode jamais abrir mão; os Estados Unidos deveriam ser uma força garantidora dessa ordem, e não um elemento desestabilizador. Mas, quando deixa no ar a hipótese de ação militar para tirar a Groenlândia da Dinamarca, Trump legitima inúmeras outras aventuras expansionistas mundo afora. E isso independe de ele ter ou não intenção concreta de mandar soldados à ilha. Não se blefa com algo dessa gravidade apenas para “baixar o preço” da ilha. Deixar no ar a possibilidade de um ataque gratuito, tratando-o como ação legítima – especialmente contra um país integrante da mesma aliança militar, a Otan –, tira dos Estados Unidos qualquer autoridade moral para condenar agressões expansionistas já em curso, como a da Rússia contra a Ucrânia, ou que possam vir a ocorrer no futuro, como uma invasão chinesa a Taiwan ou um ataque venezuelano ao Essequibo, na Guiana.
Muito sangue, inclusive de norte-americanos, foi derramado ao longo do século 20 para que os valentões de todo o mundo soubessem que seu expansionismo não seria mais tolerado pela comunidade internacional. Neste momento em que eles voltam a dar as caras, o que o planeta mais precisa é de uma superpotência disposta a fechar-lhes a porta, e não de um presidente dos Estados Unidos que afirme estar disposto a seguir o mesmo caminho.