Já houve uma fase, no início da presente crise política, em que as autoridades da República consideravam ser muito remotas as possibilidades de ela se estender à economia quão inexpugnáveis seriam os fundamentos em que se assenta a condução do setor. Nada abalaria sua fortaleza. Ontem, porém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em improviso pronunciado no Rio Grande do Sul, reconheceu que a economia brasileira está "muito vulnerável" e que, por isso, o governo não pode "brincar nessa parte, para que a gente não tenha um retrocesso".
Os sinais de nervosismo tornaram-se pela primeira vez visíveis na semana passada, quando o dólar e a bolsa abandonaram a calmaria otimista dos últimos meses e apresentaram repentinas e preocupantes oscilações. O governo tomou imediatas providências. Uma delas foi deixar de comprar dólares no mercado para evitar que ele continuasse o ritmo de alta, medida que produziu também o efeito de segurar a cotação dos papéis negociados em bolsa.
Ontem, o Banco Central divulgou a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada na semana passada, que aprovou a continuidade da taxa de 19,75% para o juro oficial. A ata mantém a "perspectiva de manutenção da taxa de juros básica por um período suficientemente longo de tempo", embora anuncie a previsão de "um cenário benigno para a evolução da inflação".
O BC reconhece, no entanto, um perigo: a instabilidade do preço do petróleo. Se continuar subindo além do atual patamar e voltar, como há 15 dias, ao nível de US$ 60 o barril, não será possível arcar por muito tempo com os já defasados preços internos dos combustíveis. Isto é, a gasolina, o diesel e o gás três dos itens que, por seu poder de multiplicação, mais pressionam a inflação terão de ser reajustados, com efeitos negativos óbvios para a estabilidade monetária. Pelo sim pelo não, o BC considerou melhor prevenir do que remediar e decidiu manter a estratosférica taxa.
Aliás, também a Agência Nacional do Petróleo (ANP) reconhece que a gasolina brasileira está 30% mais barata do que seria recomendável e até aconselha um reajuste para evitar a desestruturação dos setores de produção e distribuição no país. A idéia, evidentemente, foi rechaçada até mesmo pelo seu próprio autor, o presidente da ANP, que não vê clima político favorável para o governo, neste momento, autorizar a Petrobrás a aumentar o preço dos derivados.
Todo cuidado é pouco e é sob esta perspectiva que se pronunciaram o presidente Lula, o Banco Central e a Agência Nacional do Petróleo. Não se pode agora dar sorte para o azar. Qualquer mudança de rumo na gestão da política econômica neste momento, seja para atender alguns segmentos da esquerda dentro e fora do partido do governo, que continuam insistindo na crítica ao modelo adotado, seja para ceder à tentação do populismo para conquistar o apoio da opinião pública, redundaria em mais insegurança e desconfiança.
Embora se reconheça a gravidade do momento político e, o que é mais alarmante, se desconheça por quanto tempo vai durar e no que vai resultar o melhor é manter rédea firme e assegurar tranqüilidade para o bom fluxo econômico. Por uma razão tão simples quanto absolutamente verdadeira: não é justo que 180 milhões de brasileiros paguem pelos desvios de conduta de alguns poucos.