O problema com os sapatos, portanto, não era de escassez absoluta. O mau funcionamento era muito mais sutil. O conforto, o modelo, o design, e a padronização de tamanho dos sapatos soviéticos estavam tão fora de sincronia com o que as pessoas precisavam e gostavam, que elas estavam dispostas a ficar na fila por horas para comprar um par ocasional, geralmente importado.
Mas não é só nas nações comunistas que a ingerência do Estado nos assuntos econômicos é daninha. Durante a Segunda Guerra Mundial, o PIB dos EUA experimentou um crescimento extraordinário. Produziu-se bastante naquele período, mas tal qual na URSS, produziu-se majoritariamente bens (armas, munições, etc) que não visavam à satisfação do cidadão americano, mas ao consumo do governo e, principalmente, ao consumo da guerra. Então, mesmo com aquele incremento fantástico do PIB (especialmente porque comparado aos números terríveis da longa depressão dos anos trinta), os níveis de bem estar da sociedade permaneceram baixos – na verdade, foi um dos períodos de maior penúria, em que faltavam até mesmo itens de primeira necessidade.
Economistas keynesianos e alguns historiadores mais apressados costumam cometer os mais absurdos equívocos analíticos ao tratar da Segunda Guerra. De modo geral, esses “especialistas” defendem que esta guerra, graças aos “investimentos maciços do governo americano na economia”, encerrou a fase de depressão econômica dos anos 30 e recolocou a nação no caminho da prosperidade. Essas conclusões, no entanto, são absolutamente equivocadas, pois estão amparadas exclusivamente nas taxas agregadas de desemprego e incremento do PIB.
De fato, o desemprego oficial quase desapareceu, tendo caído de 14.6% em 1940 para apenas 1,2% em 1944. O que estas estatísticas escondem, porém, segundo o historiador econômico Robert Higgs, é que praticamente 11 milhões de americanos encontravam-se prestando serviço militar naquele período, dos quais 8 milhões eram desempregados em 1940. Ora, prestar serviço militar, notadamente em tempos de guerra, não é uma atividade criadora de riqueza e, muito menos, geradora de bem-estar. Pelo contrário, a guerra destrói muito mais do que cria, machuca muito mais do que conforta.
No mesmo diapasão, o Produto Interno Bruto também experimentou um sensível aumento naquele mesmo período. Pelos dados oficiais, o PIB norte-americano cresceu 84% entre 1940 e 1944. O problema é que quase todo esse incremento foi resultado da produção de armas, equipamentos militares e ao pagamento de pessoal conscrito (consumo do governo).
Já o componente privado do PIB (consumo e investimento), aquele que, como vimos acima, está ligado aos bens que geram bem-estar, na verdade caiu depois de 1941, e era 13% menor em 1943. Somente depois do término da guerra é que a economia privada – direta ou indiretamente voltada para a produção de bens de consumo – voltou aos índices anteriores à grande depressão e começou a recuperar o nível de bem estar.
Se procurarmos, encontraremos certamente inúmeros exemplos de sociedades, ao longo da história, em que havia trabalho para todos – por vezes muito trabalho, como na China Maoista -, havia produção (de coisas que não necessariamente riquezas), mas não havia satisfação, conforto, enfim, prosperidade, cuja única medida é a abundância de bens de consumo à disposição dos indivíduos.