
Rio de Janeiro - Apesar dos avanços registrados nos últimos dez anos, quase dois terços dos jovens de 18 a 24 anos no Brasil ingressam no mercado de trabalho sem ter concluído o ensino médio. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais, divulgada ontem pelo IBGE, o percentual de brasileiros nesta faixa que havia, pelo menos, concluído o nível médio foi de 37% em 2008.
Olhando para trás, o avanço foi significativo, pois a taxa, que estava em 18% em 1998, dobrou em um período de dez anos. Apesar da melhoria, o Brasil ainda está distante do padrão de países desenvolvidos, tendo avançado em ritmo menor em relação a algumas nações.
Para o economista Fernando Veloso, do Ibmec/RJ, a meta de ter 100% dos jovens com o ensino médio completo está distante de ser atingida até por países ricos. No atual ritmo, o Brasil só atingirá daqui a 30 anos, diz Veloso, o nível atual de escolaridade e acesso ao ensino médio do Chile.
Ele afirma que o Brasil poderia ter objetivos mais realistas, inspirados em países de perfil parecido, como no caso chileno, onde, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), 64% da população de 25 a 34 anos tem nível médio completo. O Brasil, trabalhando com esse mesmo recorte de idade, tem 26 pontos a menos.
"Todos os países têm melhorado. A questão é ver a velocidade. Os dados da OCDE mostram que, comparando duas gerações num mesmo país, nosso progresso ainda é menor, por exemplo, que o de Coreia, Irlanda, Chile, Grécia e Portugal, afirma Veloso.
Para Célio da Cunha, consultor em educação da Unesco no Brasil, os dados do IBGE ressaltam a urgência de ampliar a obrigatoriedade de frequentar a escola até o ensino médio. Hoje, a Constituição considera como obrigatória só a matrícula no ensino fundamental.
"A Irlanda, há 20 anos, tomou a decisão de universalizar o ensino médio. Com o processo de globalização, as exigências de qualificação são cada vez maiores. O Brasil deve se esforçar para também estabelecer como mínimo o nível médio, declara Cunha.
Ana Lúcia Sabóia, gerente do IBGE, diz que as principais dificuldades de universalizar o ensino médio são a complexidade que ele demanda (mais professores, equipamentos etc.) e o fato de ser, no Brasil, exclusivamente competência dos estados o fundamental é atribuição das prefeituras.
Desigualdades
Outros dados relativos à educação na pesquisa divulgada ontem pelo IBGE seguem a mesma tendência de melhoria, mas ainda num patamar distante do ideal.
Na faixa etária de 15 a 17 anos, em que o jovem deveria estar cursando o ensino médio se não houvesse atraso em sua trajetória escola, 51% estavam no nível adequado para sua idade. Em 1998, a proporção era de 30%.
Neste indicador, como em outros, a desigualdade é significativa. Considerando apenas jovens de 15 a 17 anos que estavam entre os 20% mais pobres da população, a proporção de frequência ao ensino médio era de 31%, o que significa que 69% ou estavam ainda no ensino fundamental ou já haviam abandonado os estudos.
Já entre os 20% mais ricos, a proporção dos jovens no nível médio chegou a 78%.
A pesquisa aponta que 8% das crianças de 9 anos de idade ainda não haviam sido alfabetizadas. No Nordeste, essa proporção chegava a 16%. A comparação das taxas de alfabetização por idade mostra que a maioria dessas crianças acaba aprendendo a ler e escrever mais tarde, já que aos 14 anos a proporção de analfabetos é de apenas 1%. Uma alfabetização tardia, no entanto, prejudica o desempenho em todas as disciplinas, e não apenas na alfabetização.