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poluição

Bicho morto? Não, esgoto mesmo

Problema crônico em Curitiba, mau cheiro vem do esgoto jogado nas galerias que deveriam escoar apenas a água das chuvas

Bueiros servem para escoar a água da chuva, mas acabam exalando mau cheiro | Hedeson Alves/Gazeta do Povo
Bueiros servem para escoar a água da chuva, mas acabam exalando mau cheiro (Foto: Hedeson Alves/Gazeta do Povo)

"Deve ter algum bicho morto ali", comenta desconfiada a vendedora ambulante Rosinéia Rodrigues, 40 anos, olhando ao redor da Praça Carlos Gomes, no Centro de Curitiba. Diaria­mente no local, Rosinéia diz que é difícil suportar o cheiro de esgoto nos dias mais quentes. "Nesta época do ano é difícil. Mas o lugar em que eu ficava antes (na Rua Pedro Ivo, na altura da Rua Doutor Muricy, perto da Praça Rui Barbosa) era pior ainda. Tinha uma galeria bem embaixo, um fedor insuportável."

O mau cheiro que Rosinéia suporta todos os dias é um problema crônico em Curitiba, que ironicamente já foi chamada de "Capital Ecológica" pela propaganda oficial. Muitos imóveis, principalmente na região central da cidade, ainda não têm ligação com a rede de coleta de esgoto. Com isso, os resíduos correm para as galerias de águas pluviais, que são destinadas a escoar a água da chuva e têm ligação com os rios da cidade, a maioria deles canalizados. Durante a época mais fria do ano, os curitibanos não sofrem tanto. Mas, quando o tempo começa a esquentar, o cheiro de esgoto toma conta de algumas regiões – como as cercanias das praças Rui Barbosa, Carlos Gomes e Tiradentes e a Rua XV de Novembro.

Essa é a principal reclamação do vendedor Luís Carlos Cardoso, 26 anos, que trabalha em uma loja de roupas na esquina das ruas Voluntários da Pátria e Pedro Ivo, de frente para a Praça Rui Barbosa. Todos os dias, sua primeira atividade é procurar um jornal velho ou um pedaço de papelão para tapar o bueiro. "Tem dias que fede o dia inteiro, mas é pior quando começa a chegar a hora do almoço. Quando chega perto de 11 horas, o fedor é insuportável", diz. "Não tem jeito, tem que tampar. Até os clientes reclamam." Há 20 anos na Rui Barbosa, o pipoqueiro José Carlos Correia, 63 anos, diz que a situação começou a piorar de cinco anos para cá. "E está cada vez pior", afirma. "Todas as lojas põem um papelão no bueiro. Tem dias em que não dá para aguentar."

Marco zero

Matéria da Gazeta do Povo publicada no dia 17 de dezembro de 2006 mostrou que, à exceção das regiões mais altas da cidade, como São Francisco e Mercês, e das mais abastadas, como Batel e Jardim Social, praticamente toda a cidade é atingida pelo mau cheiro na época mais quente do ano. Mas o problema é maior no Centro, devido ao grande adensamento e à presença de edificações mais antigas – muitas construídas sem preocupação com a rede de coleta de esgoto. A região central funciona como um "marco zero do mau cheiro", já que a rede de coleta de águas pluviais, que recebe o esgoto, corta a cidade e atinge rios canalizados, que se espalham pelo subterrâneo da capital.

"Muita gente aperta a descarga e acha que resolveu o problema, mas não imagina esse caminho. Só vê o problema quando vem o mau cheiro", afirma o engenheiro ambiental Gui­lherme Samways, que em 2007 desenvolveu um trabalho para a Associação Comercial do Paraná, dentro do projeto Centro Vivo. "Muitos dos que reclamam do mau cheiro no Centro podem ser os próprios geradores. Logo depois da rodoviária, por exemplo, o Rio Belém já está poluído. Não é a favela que polui, o esgoto está sendo jogado antes dali." Outro problema, segundo ele, é o óleo jogado por comerciantes em bueiros.

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