| Foto: Foto: Michele Müller / Arte: Felipe Lima

Houve um tempo em que, por falta de arranha-céus, chaminés de fábrica serviam de referência para as alturas. São uma versão moderna dos zigurates da Mesopotâmia, servindo de medidor sobre até onde podemos chegar. Daí o fascínio desses verdadeiros monumentos operários. Mas essa história está virando fumaça. Chaminés não são consideradas patrimônio histórico e podem vir abaixo num estalo, como aconteceu semana passada no bairro Orleans, na capital.

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É desse fato que nasce a coluna de hoje. Ou quase. Havia tempos, eu contava as poucas chaminés ainda em riba por aí: pode-se vê-las na Linha Verde, Passaúna ou Barigui. Mas nenhuma me parecia mais atraente do que a mantida numa das zonas nobres de Curitiba, escondidinha, que ironia, atrás dos espigões.

Infelizmente, não posso dizer palavra, sob pena de levar um sabão. Imaginava poder citar um exemplo de bem público mantido em pé apesar da selvageria do mercado e de nossa baixa estima cultural. E mostrar que podemos ter edifícios de luxo, avenidas estupendas e imitar – até enjoar – as fachadas de Londres sem precisar pôr abaixo um dos ícones do mundo do trabalho. Chaminés estão sempre a nos lembrar até onde os nossos antepassados podiam chegar.

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Pois esse libelo fica para outra. Fui informado que o custo para manter a imensa torre de tijolos é um tormento para os moradores. Eles pediram meu silêncio, até que cheguem a um consenso sobre como sustentar aquele resto de indústria que descansa playground. Ficamos combinados, mas aqui não me despeço com o rabo entre as pernas.

Em meio aos périplos atrás da chaminé proibida me lembrei de outro caso – passível de ser citado sem que haja um cisma no condomínio. Acho. Há um edifício na Água Verde que tem em seu pátio uma gigantesca árvore tombada em 1990 pelo Pa­­trimônio Histórico do Paraná. Trata-se de uma Phytolacca dioica, vulgarmente conhecida como "ceboleira". Não há nada igual – angicos, paineiras e tipuanas também tombadas não se encontram em prédios, sob os rigores da habitação vertical, invenção mais torturante que o relógio-ponto.

O que você, leitor, pensou, é isso mesmo. Há um patrimônio intocável ao lado do escorregador e da balança das crianças. Está sob cuidado dos cerca dos 125 habitantes do "Lagos Andinos", na Rua Professor Assis Gonçalves, 650 – um dia terras da tradicional família Pedro Bom. Segundo consta, muitos dos moradores compraram apartamento ali por causa da "ceboleira" e alguns se ocupam de defendê-la como se sua muda tivesse vindo do Jardim do Éden.

É o caso de Célia Cristina Vicente – vizinha da "ceboleira" desde 1994. Entusiasta do tesouro de fundo de quintal, me fez andar em roda do tronco, feito um ritual da floresta. Barato total. A árvore é de fato uma belezura de mais de 22 metros, cujas folhas podem ser atingidas por quem mora nos últimos dos nove andares. Quisera eu.

Convém lembrar que a "ceboleira" – quase uma centenária – é a moradora mais velha do condomínio. As relações com a veterana nem sempre são amistosas, haja vista a chuvarada desta semana, quando galhos não pediram licença às janelas e às sacadas, dando nos nervos das diaristas.

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Assim como no "prédio da chaminé", no "prédio da ceboleira" o patrimônio mexe com os humores. Pairam dúvidas sobre a saúde da vetusta Phytolaccaceae. E há quem veja um mau presságio nas parasitas "ervas de passarinho" que a atacaram. Mas nada parece abalar a realeza do frondoso "pé-de-quê?" que faz do "Lagos" uma sumidade imobiliária, com algo melhor a ostentar do que salões de festa.

Em tempo. Há cinco anos, um casal de urubus se instalou na cobertura de Célia, que já pediu socorro ao Ibama, ao prefeito e aos deuses. Nada. A defensora da "ceboleira" vê o dia em que as aves vão capturar seu yorkshire e se escafeder. Tortura. Sugeri que ela procurasse o artista plástico Nuno Ramos. Quem sabe.

A culpa, aposta ela, é das comidas trazidas para os despachos no Cemitério Água Verde. "Você sabia que urubu vomita para demarcar território?", pergunta. Deu para imaginar a cena. Esta cidade é mesmo uma selva.